O gosto pela leitura foi herança
paterna. Na estante do pai, Paulo selecionara uma das pastas: Textos de Nelson Rodrigues.
O pai utilizava-se de técnica própria
para memorizar. Resumos com utilização
das palavras do próprio autor. A página manuscrita pelo pai, exemplo típico.
Com sorriso saudoso, com a imagem do pai na cabeça, dirigiu-se com o texto para
o sofá da varanda.
- “A Alaíde de Vestido de noiva precisou
morrer para realizar a sua mais doce e secreta utopia. A heroína fora
atropelada. Quase agonizando, ela se imagina num prostíbulo. Antes de morrer a
jovem e exemplar senhora precisava viver o seu momento de prostituta.”
A mãe interrompeu sua leitura com a
indagação:
- Reparou o monte de areia na calçada
em frente? A casa vai receber reforma.
Olhou para o casarão. A data
justificava a aparência: 1926.
O relógio da sala bateu. Dona Marta
ofereceu o braço para o filho:
- Uma hora. Vamos entrar. O almoço
vai estar servido.
Mostrando a pasta para a mãe, disse:
- Vou guardar. Esse Nelson Rodrigues
era um louco.
Sorrindo, a mãe retrucou:
- Não era o que seu pai achava.
Gostava, e muito.
A visita à mãe, aos domingos, era
sagrada. Filho único e solteirão, invariavelmente cumpria o ritual. Naquele, um
motivo especial. Aniversariava. A mãe fez o prato preferido; bacalhoada. Além
do almoço, o tradicional bolo. Ia ter que apagar as velas. Cinquenta anos! Uma data emblemática. Assustava-se
com o fato. O tempo passou como num átimo.
Ver-se cinquentão era muito
esquisito. Pensava que não ocorreria com ele.
Não que pensasse morrer antes. Achava
coisa distante, inatingível, que não chegaria nunca. De repente, cinquenta
anos. Não podia reclamar. Estava bem. Fizera por onde. Não fumava, não bebia e
dormia cedo.
---
Independente da sua vontade acabou
acompanhando as obras da casa vizinha de frente. Aos domingos, da varanda, observava os
avanços. Não era obra de porte. Pequenos reparos. De acordo com a mãe, um único
pedreiro. Não havia pressa ou o dinheiro
era pouco.
Um certo domingo, não vendo
progresso, achou que haviam desistido. A mãe explicou que o pedreiro já havia
terminado. Esperavam que o pintor concluísse obra já iniciada em outro cliente,
para então, começar na casa da vizinha.
Dois domingos depois, pintada, a casa parecia outra. Assistiu à chegada
da mudança. Caminhão velho. Por ser domingo, achou ser coisa de amigo. Móveis
simples, antigos como a casa. No outro domingo, os moradores já haviam se
instalado. O homem, sentado na varanda,
lia jornal. A mulher, na mesinha, jogava alguma coisa com a filha. Os três
pareciam-lhe uma cena de filme mudo. A menina aparentava cinco anos. O homem
parecia ser alto. Dava a impressão de desleixo. Ela clara, magra, com os
cabelos em rabo de cavalo. O homem olhou o relógio, falou alguma coisa e
entraram. A varanda vazia, a casa silenciosa. Pouco tempo depois, o homem
voltou à varanda. Sim, era alto. Sua aparência mudara. Provavelmente tomara
banho. Talvez tenha feito à barba. A seguir apareceram mulher e filha. Nada
falaram. Desceram a escadinha de poucos degraus. Na
calçada, mãe e filha de mãos dadas. O homem um pouco adiantado. Deu tempo para que se afastassem e desceu ao
portão. Observou que a mulher não se juntou ao homem. Manteve-se o quadro. Um
pouco à frente, era como se o homem não fizesse parte do grupo.
---
O relógio deu o sinal. Durante o
almoço, a mãe falou-lhe sobre os vizinhos: - Que haviam chegado no sábado, que já lhes dera
as boas-vindas. O homem é seu xará. Chama-se Paulo, também. Paulo Renato. A esposa, Yolanda , é uma simpatia. A
menininha educadíssima, muito quieta para a idade.
Após o almoço, Paulo voltou à varanda.
Viu o retorno do casal. O mesmo afastamento entre o homem e a mulher.
Entraram. A casa continuou parecendo
desabitada.
---
As visitas de domingo ganharam essa
nova atração. Quando não estava na
varanda, debruçava-se na janela. O
jornal, agora, era apenas disfarce. Sentia-se atraído pelo que via. Com o
passar do tempo, mais e mais. Passou a ir à casa da mãe, também, durante a
semana. Na parte da tarde, chegava com desculpa de pão fresco para o café. Dona Marta,
feliz, achou que, aos cinquenta, o filho se aquietava, se aproximava mais dela.
Imaginava que, talvez, pudesse até voltar a morar com ela. Não estabeleceu
relação nenhuma com a chegada dos vizinhos.
---
A mulher sempre bem cuidada. Não era
padrão de beleza, mas chamava a atenção. Tipo que os homens costumam chamar de
gostosa. Provavelmente, não trabalhava, saía pouco. Levava e buscava a filha no
colégio. O marido retornava no fim da tarde. Quando caminhando, o afastamento de
sempre; homem na frente, mulher e filha recuadas.
Esse detalhe o fez concluir que eles não eram felizes.
---
A mulher, com o tempo, passou a
aparecer mais na varanda. Brincava com a filha, cuidava das plantas, varria a
frente da casa. Aparentemente ignorava sua presença. Mas, não era nisso que ele
acreditava. Achava que se exibia para ele. Intuição. Fez certeza da
possibilidade.
Naquele domingo, chegou bem mais
cedo. Participou do café. A mãe ofereceu-lhe pedaço de bolo e disse:
- Foi Yolanda quem me trouxe.
Manteve aparente indiferença. Para
ele era um recado claro. A mulher estava correspondendo. Seus pensamentos entraram
em efervescência. Olhando o bolo, perguntou como se não soubesse:
- Quem é Yolanda?
- É a nova vizinha, meu filho. Já lhe
falei dela. A mulher do seu xará, Paulo Renato. É muito simpática. Outro dia me trouxe
salada de berinjela e, ontem, esse pedaço de bolo.
Sentiu-se vitorioso, fortalecido.
Agora, o que mais queria era ir para a varanda.
-Você não é fácil, mãe. Já conquistou a
moça.
Dona Marta sorriu :
- Não... foi ela quem me conquistou.
Estava eufórico. Não havia dúvida.
Tudo era claro. Ela também estava interessada. Paulo traduziu o que o bolo
simbolizava :
- Sei que você está me olhando e estou
gostando.
Debruçou-se na janela Não aguardou
muito e a vizinha apareceu. Desta vez, Paulo não disfarçou, não fingiu ler o jornal. Fixou o olhar na mulher. Foi
correspondido. Olhos nos olhos. Paulo não esperava reação da vizinha. Tentou
manter o olhar. Segundos que pareciam não ter fim. Não resistiu. Abaixou a
cabeça. Com o coração disparado, voltou para dentro de casa. Foi direto para o
banheiro. Nervosíssimo. Descobriu, ali que estava vivendo uma paixão. Uma
avassaladora paixão em apenas seis meses. Sem que tivessem trocado uma única
palavra, estava apaixonado. Paixão de adolescente. Olhando para o espelho sobre
a pia do banheiro, sorriu e falou baixinho:
- Yolanda, a minha Yolanda.
Lavou o rosto. Buscava equilibrio.
Queria revê-la. Rodou pela sala, foi na cozinha, conversou com a mãe, mas não
conseguiu coragem para voltar à varanda.
---
A novidade veio pela mãe. Empregada
na casa de Paulo Renato. Yolanda começou a sair mais e sem a filha. A troca de
olhares já se tornara frequente. Não o assustava mais. Esboçava sorriso que era
sempre correspondido com entusiasmo. Nada ousou, além disso, mas sabia que
precisava dar um passo a mais. Teve a ideia de enviar telegrama. Evitaria o cara-a-cara. Postou em cidade
vizinha, próxima. Sentiu-se mais protegido. Os funcionários da agência não o
conheceriam. Nada poderia incriminá-lo. O texto uma única frase plagiada da
Rita Lee: - "Você me dá água na boca".
---
No retorno, já estava arrependido.
Burrice. Ousadia sem tamanho. Ela iria se aborrecer. E se o marido abrisse o
telegrama? Uma grande besteira. Levou uma semana para arranjar coragem para
voltar à casa da mãe. Medo da reação de Yolanda. Deu como desculpa, para a mãe,
gripe. No domingo em que reapareceu, quem não apareceu foi Yolanda. Nem na janela, nem na varanda. Com certeza
aborrecida. E com razão. O telegrama fora uma estupidez.
---
Alguns dias depois, na área comercial
da cidade, viu Yolanda entrando em cafeteria.
Entrou também. Posicionou-se do outro lado do balcão. Impossível que não
o visse. Fixou os olhos. Ela correspondeu e ainda sorriu. Entrou em pânico
novamente. Abaixou a cabeça e não mais olhou. Quando ela saiu, aguardou alguns
segundos. Apressou o passo, alcançou-a. Sem parar de andar, olhando para frente
como se assim pudesse não ser percebido pelos outros, e ao lado dela, falou:
- Meu nome é Paulo.
Sem parar e sem lhe dirigir o olhar
Yolanda respondeu:
- Eu sei, com licença. Entrou em uma
loja.
Paulo continuou andando como se nada
houvesse acontecido. Lembrou-se, novamente, do maldito telegrama. Yolanda,
realmente, havia ficado aborrecida. Não havia outo motivo para ela cortar o
diálogo, entrar na loja. Besteira sem tamanho o maldito telegrama. Precisava se
desculpar. Mas, como?
---
Presenciando um show musical em clube,
surpreendeu-se com a presença do casal sentado em uma das mesas. Havia dito
para a mãe que iria ao show. Provavelmente ela comentara com Yolanda. Só podia ser
isto. Estava ali por causa dele.
Trocaram olhares a noite toda. Só saiu depois que o casal se foi. Em
casa, não conseguiu dormir. A imagem de Yolanda não deixava.
---
Dois dias depois, ainda na calçada da casa da
mãe, assustou-se com a voz de Yolanda que, da varanda de sua casa e com a
filha, dirigiu-lhe a palavra:
- Paulo... tenho uma coisa para você.
Espere um pouco que vou buscar em meu quarto.
Empalideceu. Atravessou a rua e ficou parado na calçada,
em frente ao portão de Yolanda, aguardando. E se a mãe o visse? O tempo
passando e nada. Vontade de sumir. Yolanda apareceu, chegou até o portão e, sem
sair de casa, falou:
-Vi o seu interesse no show. Acredito
que tenha gostado. Eu adorei. Tenho o CD do cantor. Fiz uma cópia para
você. Esticou o braço com o CD na
mão.
De cabeça baixa pegou o CD. Agradeceu
sem ter coragem de olhar para Yolanda. Atravessou a rua trêmulo, o suor
escorrendo em suas costas. Naquele dia, não foi à varanda, não chegou à janela.
Colocou o CD no bolso para escondê-lo da mãe. Tinha certeza de que era uma
mensagem gravada para ele. Uma declaração de amor. Inventou desculpa com a mãe
e apressou a volta para a sua casa. Andava rápido, ansioso. Certamente era uma
declaração. Chegando, colocou o CD para tocar. Decepção. Apenas reprodução de
um CD. Minutos depois, mudou a percepção. Não havia a declaração ansiada, mas o
gesto fora muito forte. Custou para dormir. Acordou certo de que não podia
continuar naquela situação. Agora, obrigação moral. Continuar assim não era
possível. Yolanda ia achar que ele era um bestalhão. Tinha que tomar uma atitude.
---
No fim da tarde, ficou aguardando próximo a uma
padaria onde sabia que ela costumava, naquele horário, ir comprar pão. Como
previra, ela chegou e sorriu para ele antes de entrar na padaria. Era o que
esperava. Iria abordar Yolanda. Começaria agradecendo o CD. Conforme fosse
recebido, esticaria a conversa. Não...não conseguiu coragem para entrar na
padaria. Da calçada viu Yolanda pagar os pães, sair e caminhar, vagarosamente,
para casa. Pensou que, apressando o passo, poderia alcançá-la. Não o fez. Achou
melhor. Poderiam ver maldade. Era mulher casada. Não queria trazer-lhe
problemas. Já bastava o maldito telegrama. Viu-a distanciar-se sem ter coragem
de dar um único passo. Só depois que Yolanda dobrou a esquina, iniciou
caminhada, devagar, no sentido da casa da mãe. Chegando, viu que Yolanda não
havia entrado. Estava na calçada, parada em frente ao portão. Pensou se deveria falar-lhe ou apenas dar-lhe
boa tarde e entrar na casa da mãe. Não havia decidido, quando ouviu a voz de
Yolanda :
-
E aí Paulo, já ouviu o CD?
Olhou para a casa da mãe, temeroso de
que ela houvesse escutado. Não sabia o que fazer. Foi Yolanda quem atravessou a rua e
aproximou-se de Paulo falando:
- Achei que a gravação ficou abafada.
Minha aparelhagem tem poucos recursos.
Ainda estava com os pães. Retardou-se
de propósito, concluiu Paulo. Aguardou-o, provocou o encontro. Estava cara a cara com ela. Olhando
para o chão, respondeu:
- Não... A gravação está ótima.
Gostei muito. Queria lhe agradecer, mas não sabia como.
- Ora, mas é tão fácil. Você pode me
telefonar.
O coração disparou.
- O telefone é 2403-0303. Fácil de guardar. Um
horário bom é às 17h. A empregada já terá ido e meu marido ainda não terá
chegado.
Não conseguiu responder. Yolanda
aproximou-se mais e sussurrou:
- Espero o seu telefonema amanhã.
Yolanda virou-se, atravessou a rua e
entrou em sua casa sem olhar para trás.
Paulo estático. Só quando Yolanda
fechou a porta, saiu do transe. Dirigiu-se para casa da mãe pisando em nuvens.
Era o mais feliz dos homens. A mãe não havia ouvido nada. Com dificuldades,
anotou o telefone. A mão tremia. Na cabeça a voz martelando: - Espero o seu telefonema amanhã.
Em sua casa, pensava em como deveria
conduzir o telefonema? Não queria se mostrar atrevido. Temia assustar Yolanda.
Era uma situação especial. Mulher casada, casada e com filha. Não podia se
precipitar. Poderia colocar tudo a perder. Tinha que pensar bem no que ia
falar. Precisava transmitir segurança, fazê-la perceber que, com ele, não
correria nenhum risco. Que era homem de responsabilidade, de educação. Acabou
tomando “rivotril” para conseguir dormir.
---
O dia seguinte foi tenso. Desmarcou
todos os compromissos. Precisava de tempo para escrever um roteiro do que seria o telefonema. Passou a manhã escrevendo, rasgando e tornando a
escrever. Na hora do almoço, estava mais tranquilo. Conseguira escrever o roteiro para o telefonema. Uma hora
antes do telefonema tomou uma dose dupla de uísque. A situação justificava, precisava estar relaxado. Na hora combinada, ligou. O
telefone tocou cinco vezes. Não atenderam. Amedrontou-se. Desligou com o
coração disparado. Dois minutos depois,
fez uma segunda tentativa. Atendeu a criança. Desligou de imediato. Afastou-se do aparelho.
Andou de um lado para o outro sem saber o que fazer. Decidiu por mais uma
tentativa, a última. Logo após o primeiro toque atendeu a voz suave de Yolanda:
- Oi, Paulo. Que bom que você
telefonou.
- Pois é, queria agradecer a fita.
Foi muita gentileza.
Yolanda cortou e fez, com
naturalidade, a afirmação:
- O telegrama foi você quem mandou.
Paulo arregalou os olhos e emudeceu.
Yolanda continuou:
- Você também me dá água na boca. Já
há muito tempo você me dá água na boca.
Diante do silêncio de Paulo,
continuou:
- Na próxima semana, na quarta feira,
vamos nos ver. Precisamos estar juntos. Na terça torne a me ligar neste mesmo horário para combinarmos
os detalhes. Um beijo... na sua boca.
---
Uma hora antes, Paulo já estava no
lugar combinado. Ela iria de ônibus. O relógio não andava. Entrava e saía do
carro. Havia levado dois vidros. Um com uísque. Precisava estar relaxado. Já
havia tomado. O outro, com antisséptico bucal. Queria estar com o hálito
perfumado. Havia a possibilidade de beijo. O ônibus parou. Yolanda desceu de
óculos escuros. Atravessou a rua. Paulo, do outro lado, ao lado do carro,
indeciso, não sabia se deveria ir ao seu encontro ou se a aguardava. Yolanda,
sem falar com Paulo. foi direto para o carro. Abriu a porta do banco do carona
e, sentando-se falou :
-Você não deveria ter saído do carro.
Paulo entrou em silêncio. Yolanda o
recebeu com um breve sorriso. Tocando no joelho de Paulo, disse:
- Há um motel logo ali. É em local
bem resguardado. Siga em frente e dobre na primeira à direita.
Em silêncio Paulo dirigia e pensava
em como proceder. Se deveria entrar de mãos dadas ou ir apenas ao lado de
Yolanda. Veio-lhe a imagem do marido. Também a de sua mãe. Parou na portaria do
motel. Procurava um atendente. Foi Yolanda quem orientou:
- Não... Paulo, segue, vamos, entre.
Paulo seguiu passando por diversas
garagens. Yolanda, atenta, parecia estar escolhendo. De repente, definiu:
- Entre nesta. O quarto é ótimo.
Dentro da garagem, Paulo saiu do
carro para abaixar a porta. Quando voltou Yolanda já havia saído do carro.
Estava em pé em frente à porta do quarto. Paulo lamentou. Pensava em abrir-lhe
a porta do carro, como faria um cavalheiro. Aproximou-se sem saber, ainda, se
segurava na mão de Yolanda. Ela sorriu para Paulo. Esticou os dois braços e
envolveu-lhe o pescoço. Tornou a sorrir, cara a cara. Rápidamente, virou o corpo
e, de costas para ele, jogou os braços para trás e puxou-o pelo quadril.
Apertou-o contra o seu corpo e começou a movimentar, bem devagar, os quadris.
Foi, aos poucos, acelerando o movimento. Quando já rebolava despudoradamente,
apoiou a cabeça no ombro de Paulo, aproximou a boca do seu ouvido e falou:
- Aperta meus peitinhos, fala que
você é meu macho, me chama de vadia.
Yolanda o surpreendera. Se pudesse adivinhar, jamais teria
ido. Uma desequilibrada, uma louca. Começou a despi-lo
ainda na garagem. Chegou ao quarto com a camisa desabotoada, a correia aberta,
a calça caindo. Jogou-o na cama. Assustado, tentava ser participativo. O
palavreado, entretanto, o desconsertava.
- Olha para mim, olha. Bate na minha
cara, me chama de vagabunda.
A cabeça rodava. Não acreditava no
que estava acontecendo. No comando
Yolanda, cada vez com mais determinação, com mais autoridade:
- Fala alto. Mais alto. Diz que você
é meu macho. Fala alto.
Deitado, já inteiramente nu, assistia
àquela mulher fazer tudo para excitá-lo:
- Meu macho, meu homem, meu gostoso.
Diz que eu sou sua.
Yolanda não logrou êxito, embora
tentasse por mais de hora. Parou. Paulo continuou deitado, humilhado,
amedrontado. Sentada na cama, ficou olhando para ele.
- Você se arrependeu, não é?
Paulo balançou a cabeça,
afirmativamente.
Yolanda, agora com a voz pausada,
parecia ter saído do transe:
-
Sou uma mulher experiente, mulher de muitos homens. Vou ter muita
paciência. Você vai ser meu.
Levantou-se, serviu-se de água.
Trouxe para ele. Procurou ser amável e gentil. A trégua não durou muito. Recomeçou
a investida. Fez gato e sapato e não
conseguiu dar-lhe uma ereção, não uma que possibilitasse a penetração.
Desistiu.
- Acontece. Vai ficar para outra
oportunidade. Agora temos que ir. Meu tempo está esgotado. Não fique
aborrecido. Vamos ter outras oportunidades.
Deixou-a no mesmo lugar onde a
apanhou. Yolanda não o deixou esperar a chegada do ônibus. Mandou-o ir. Paulo
seguiu. Conferiu no relógio. Durou três horas o martírio.
---
No domingo só foi para a casa da mãe
na hora do almoço. Quase chegando, já próximo ao portão, abriu o jornal para
fingir estar lendo. Não queria correr o risco de encarar Yolanda. Não saberia
como proceder se ela estivesse na varanda. Por sorte, não estava. Subiu
rapidinho a escada da casa da mãe. Neste dia faltou coragem. Não ousou chegar nem à janela. Depois do
almoço, tentou tirar cochilo. Não conseguiu. A proximidade de Yolanda o
assustava. Foi até a estante procurar livro e lendo encontrar o sono. Lá
reencontrou a “Coletânea de Nelson Rodrigues”. Só podia ter sido aviso do pai.
Abriu a pasta para procurando o trecho que já havia lido. No folhear, encontrou
um outro:
“ O brasileiro finge um desejo
indiscriminado e voraz por todas as mulheres. Mas, eis a verdade: - ele tem
amor e não desejo. Ela percebe tudo; ama-o mais por isso, porque sente todas as
fragilidades luminosas do homem amado. Ele foi apenas o espectador atônito. Era
ela, com sábia obstinação, quem ousava tudo o que nenhuma outra mulher
imaginaria.”
Fechou a pasta. Sim, só podia ser aviso, coisa
do pai tentando alertá-lo.
Após o lanche, cautelosamente, olhou pela
janela. A casa da vizinha parecia vazia. Aproveitou. Despediu-se da mãe e se
foi. Durante a semana não retornou. No outro domingo, novamente chegou quase na
hora do almoço e usou a mesma tática. Jornal aberto como se, ao caminhar,
estivesse concentrado na leitura. O objetivo era um só; não correr o risco de
ser abordado por Yolanda no caso dela estar na janela ou na varanda.
Novamente
deu sorte. Começou a subir a escada da varanda da mãe quando, no terceiro
degrau, quando já se considerava salvo, surpreendeu-se com a voz da mãe:
- Oh, Paulo. Que bom que você
chegou...estamos precisando de você.
Tirou os olhos do jornal e viu, na
varanda, sentada com sua mãe, Yolanda.
- Imagina que o gás do fogão da Yolanda
acabou. O Paulo Renato não está, foi com a filha ao clube. Disse-lhe que você já
trocou o meu várias vezes, que resolveria o problema do gás dela em um piscar
de olhos. Yolanda, olhando para o chão, falando
com muita ternura, parecia outra pessoa:
= Não, dona Marta. Eu espero o Paulo Renato
chegar. Não quero dar esse trabalho para o seu filho.
- Não Yolanda... o Paulo vai trocar o
botijão. Quando o seu marido chegar você já estará com o seu almoço pronto.
Vai, Paulo, vai com a Yolanda.
Paulo, aturdido, acabou de subir a
escada. As duas estavam sentadas. Beijou a mãe e esticou a mão para a vizinha:
- Como vai, dona Yolanda. Não vai ser
trabalho, é coisa simples. Em um minutinho resolvo. A hora que a senhora
quiser, podemos ir.
Ainda cabisbaixa, Yolanda falou:
- Se não lhe causa transtornos, eu
agradeço. Vai resolver um problema. Já estava fritando os bifes. Se for
possível, então, podemos ir? A senhora nos dá licença, Dona Marta?
Levantou-se e, sem olhar para Paulo,
começou a caminhar para sua casa.
Atravessou a rua e, só no portão de sua
casa, olhou para trás. Viu Paulo se aproximando e ninguém na rua. Esperou Paulo
chegar e bem baixinho disse:
- Estou sem sutiã. Sei que ficou louco
com os meus seios. Você é um tarado. Meus peitinhos, ficaram doloridos por mais
de três dias.
A seguir, com a voz mais alto do que
o normal:
-Vamos entrar seu Paulo e desculpe
pelo trabalho.
Subiu os degraus. Abriu a porta,
entrou, deixando a porta entreaberta. Quando Paulo entrou, já a encontrou com
um dos seios à amostra. Yolanda fechou a porta apertando o seu corpo contra o
dele. Agarrou-o pelos cabelos e trouxe sua cabeça para o seio desnudo:
- Morde meu peitinho, coloca ele todo
dentro da sua boca.
Depois, virou-se de costas, encostou-se em Paulo e começou
a contorcer-se. Entre a porta já fechada e o corpo ondulante, assustado, Paulo obedecia ao comando:
- Aperta meu peitinho, aperta com força,
tarado.
Não demorou mais do que alguns
minutos. De repente, Yolanda se afastou, recompôs-se. Parecia saída de transe.
Deixou o vestido novamente cobrir-lhe os seios.
- Eu já havia trocado o botijão. Foi
desculpa para te trazer aqui. Você sumiu, me abandonou. Quis fazer a
provocação. Quero ser sua novamente. Acho que você me enfeitiçou. Assim que der invento viagem e você
vai se encontrar comigo.
Afastou-se e, com quem conclui uma entrevista, falou:
Agora vá. Está quase na hora de Paulo Renato chegar. Diga para sua mãe que você trocou o botijão. Agradeça a ela por mim.
Abriu a porta e falou alto: - Obrigado seu Paulo.
Apalermado, Paulo saiu. Atravessou a rua como
um robô. Subiu a escada e sentou-se na cadeira em que havia estado sentada
Yolanda. Pegou o jornal com as mãos trêmulas. Tentava equilíbrar-se,
entender aquela loucura.
- Trocou o botijão, Paulo?
Confirmou e informou que donaYolanda
pedira para agradecer.
Para ganhar tempo, recuperar-se,
falou que, antes de almoçar, gostaria de tomar uma bebida. A mãe voltou com uma taça de vinho :
- É o Periquita. É português. Era o
preferido de seu pai.
Paulo custava a acreditar na ousadia
do que ela fizera. A mãe retornou com a garrafa, colocou na mesinha ao lado do
filho.
Paulo viu João Renato chegando com a
filha. Assustou-se. Pegou copo e garrafa e entrou. Não demorou, tocaram a
campainha. Dona Marta pediu:
- Vá ver quem é, meu filho.
Quando Paulo chegou à varanda,
encostado em seu portão, o marido de Yolanda.
Arregalou os olhos, o coração
disparou. O suor, quase de imediato, aflorou-lhe a testa. O silêncio foi
quebrado por Paulo Renato:
- Olá xará... vim agradecer. A
Yolanda me contou que você fez a gentileza de trocar o nosso botijão. Fico
devendo essa.
Paulo reuniu todas as suas forças
para conseguir dizer:
- Coisa atoa. Nada para agradecer.
Entrou. As pernas trêmulas, o suor
escorrendo nas costas. Falou com a mãe:
-Paulo Renato veio agradecer a
troca do botijão.
A mãe elogiou o casal. Paulo, ainda perturbado, falou:
- Estou com dor de cabeça. Não vou
almoçar agora. Vou deitar. Assim que melhorar, almoço.
Da cama, ouviu a mãe comentando:
- Será que foi o cheiro do gás? O
vinho não pode ter sido. É coisa de primeira.
Pouco depois estava vomitando. A mãe
cancelou o almoço, fez chá para o filho.
A mãe insistia: - Só pode ter sido o cheiro do gás.
Ao anoitecer, recuperado, ao sair,
pediu para a mãe:
- Não diga para a dona Yolanda que o
cheiro do gás me fez mal, não diga que vomitei. Ela pode ficar chateada.
Beijando a testa do filho, disse:
-Você é um verdadeiro cavalheiro.
Poucos são os homens com o seu caráter. Tenho muito orgulho de você.
---
Por quatro vezes retornaram ao motel.
Encontros espaçados. Quase trimestrais. Em todos, o mesmo constrangimento. Ela
parecia não se incomodar. Dava ordens, fazia com que usasse joelho, língua,
dedos. Compensava a paciência de Yolanda
com a sua impotência, com submissão total.
---
Falou com amigo das dificuldades que
estava tendo. Ganhou um comprimido de Viagra, um filme pornô e a oferta de
empréstimo das chaves de um apartamento. Viu o filme várias vezes. Foi com ele
que tomou, verdadeiramente, conhecimento da anatomia dos órgãos sexuais
femininos. O filme mostrava em close e em cores. Falou com Yolanda sobre o
apartamento. A princípio, Yolanda recusou, disse ser perigoso, que não poderia
correr risco. Que justificativa daria para estar lá, caso fosse vista por
conhecida? Descartou a possibilidade. Dias depois perguntou o endereço do
apartamento. No outro dia, abriu possibilidade:
- Você tem de chegar uma hora antes.
Entrar da maneira mais discreta possível e ficar quieto. Vou uma hora depois.
Deixe a porta fechada, mas não trancada. Quando chegar, entro. Não quero tocar
campainha nem bater na porta. Depois que eu sair, você espera mais uma hora e
só, então, sai. Já estive olhando o prédio. Não vai haver problemas. Na terça, você me
liga para confirmarmos. Irei na quarta ao meio dia. É um horário ótimo. As
pessoas estarão almoçando. Você chegue antes das onze horas.
---
Voltou a procurar o amigo. Pediu a
chave do apartamento.
-Você ainda tem o Viagra?
Após ouvir a confirmação, concluiu:
- Vai ser bom para você. Vai ter uma
boa ereção. Vai fazer bem para o seu ego.
Na quarta feira, pouco depois das
dez, entrou no apartamento. Não foi visto por ninguém. Em sua cabeça as
principais cenas do filme pornô. Fora
orientado para tomar o Viagra uma hora antes. Iria tomá-lo às 11horas. O
relógio do apartamento batia com o seu. Na hora prevista, meteu a mão no bolso
e não encontrou o Viagra. Havia ficado na outra calça. Não podia voltar em
casa. Havia o trato, de chegar uma hora antes e ficar quietinho.
Quarenta minutos depois, o barulho na
maçaneta da porta o assustou. Ela entrou. Paulo exclamou:
- Veio mais cedo!
- Eu disse em torno do meio dia.
Deu um rápido beijinho em Paulo e saiu olhando
o apartamento. Percorreu todas as dependências. Enquanto olhava, ia falando:
- Acordei menstruada. Minha
menstruação é muita. Sem condições.
Paulo, quase aliviado, disse:
- Não tem problema... fica para outra
oportunidade.
Ainda vasculhando tudo, retrucou:
- Nada disso. Já estamos aqui. Antes
de ir, vou dar um trato em você.
Meia hora depois, quando ela saiu, Paulo,
ainda segurando a calça, passou a chave na porta e se preparou para aguardar o
tempo combinado. A pergunta de Yolanda não lhe saia da cabeça:
- Quer que eu enfie o meu dedo em
você? Há homens que adoram.Quem sabe?
Foi a primeira vez que disse um
“não”, um “não” decidido para Yolanda.
A sugestão de Yolanda, também ficou
gravada em sua mente:
- Acho que você deveria procurar um
analista. Você ainda é muito jovem. Pouco mais de cinquenta. Não há
justificativa. Eu, modéstia parte, sou um pedaço de mulher. Deve estar havendo
algum bloqueio que um psicanalista poderia resolver.
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Quando devolveu a chave, mentiu.
Disse que tudo havia corrido conforme o previsto. Na realidade, de nada adiantara o
aprendizado com o filme. O Viagra acabou indo para a lavanderia, esquecido no bolso da calça.
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Decidiu-se por um psiquiatra
recém-formado. Achou que se sentiria mais confortável com um jovem. Sua
intuição não o induziu a erro. Duas vezes por semana as sessões de uma hora com
o Dr. Walter ganharam a sua confiança. Os progressos foram aparecendo, lenta,
mas progressivamente. O médico lhe disse que seus problemas estavam
relacionados a diferença de sintonia. Duas personalidades muito distintas. Um
puro, um homem fora da época e uma mulher com sexualidade exacerbada e mutações
de personalidades. Enquanto se tratava, os encontros, embora esporádicos,
continuavam. Ela incentivava, dizia que o tratamento estava sendo eficiente.
Paulo tinha uma certeza. Foi bom que
Yolanda se mostrasse, logo no primeiro encontro, como era. Se ocorresse o que
imaginava, teria ido procurar João Renato, dizer-lhe de sua paixão. Teria sido uma burrice imensa. Essa
descoberta e a ereção que já começava a acontecer, mudaram a condução do seu
relacionamento. Quando isso ocorreu, já
estava com três anos de tratamento. Entendeu que o que a psicanálise poderia fazer
por ele, já havia feito. Agradeceu ao médico e deu por encerrado o tratamento.
Nada falou com Yolanda. Procurou o urologista que lhe haviam recomendado. Outro
sucesso. Receitou o Viagra e ensinou-lhe a filosofia da ação do medicamento
dizendo:
- Para que funcione, há necessidade
do clima de erotismo. Se tomar Viagra e for a uma missa, certamente nada
ocorrerá. O clima é fundamental para que a medicação funcione em toda a sua
plenitude. Se na hora do encontro você estiver se questionando se alguém o viu,
pensando em sua mãe ou no marido da moça, o efeito esperado não ocorrera.
Precisa estar tranquilo. Sentir-se como se estivesse assistindo a um filme,
onde tudo o que ocorre, por mais estranho que pareça, está totalmente sob
controle, e é apenas um filme. Há um começo, um meio e um fim. Terminada a
“sessão”, a vida volta ao normal. Tudo continuará em normalidade até que em um
outro dia você resolva ter, se quiser, um novo encontro. Conseguido esse estado de
espírito, tendo esta tranquilidade, o medicamento fará o resto. Você terá
ereções como as que tinha aos dezoito anos.
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Marcou encontro. Tomou o medicamento.
Foram para motel afastado, tranquilo, endereço novo. Sentiu-se seguro. Ainda no
carro trouxe, para a mente as cenas do filme. Logo percebeu que estava em
ereção. Uma ereção como nunca tivera. O Viagra funcionara. Ganhou confiança.
Inverteu o jogo. Na garagem do motel, falou-lhe no ouvido:
- Hoje eu vou lhe dar uma surra.
Ainda no carro, dentro da garagem,
Paulo investiu. Surpreendida, Yolanda levou a mão para tocá-lo. Já o encontrou com a
calça aberta, uma ereção até então desconhecida.
- Meu Deus, você está lindo!
No quarto, utilizou-se de todos os
recursos que vira no filme. Não deu chances para Yolanda que se limitava a
gemer e a se contorcer. Foi o comandante de todo o embate. Antecipou-se o tempo
todo. Na saída, percebeu, no lençol, um aguado de sangue.
- Está ficando menstruada?
- Não, você é que estava impossível,
me tirou sangue, seu tarado.
- Me perdoe, não tive a intenção.
- Não faz mal, bobinho. É assim que
eu gosto. Bem selvagem. Você estava maravilhoso.
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Continuou visitando a mãe com
frequência. Não mais para ver Yolanda. O encantamento já se dissolvera. Após o
almoço, Dona Marta falou:
- A sobremesa é torta da festa de
aniversário da filha de Yolanda. Foi ontem. Fez treze aninhos.
Em sua casa Paulo fez as contas. Se a
menina tinha treze, aquele seu caso já tinha oito anos. Um milagre que ninguém
ainda suspeitasse de nada. Assustou-se com as contas feitas. Já era mais do que
hora de por fim naquela loucura.
O interesse dela, ao contrário do que ocorrera com Paulo,
aumentou. Queria encontros mais frequentes. Ele não. Surgiram os conflitos.
Quando achava que nada mais o surpreenderia, veio o pedido de Yolanda:
- Quero um filho seu.
Fingiu não ouvir. A solicitação foi
repetida. Olhando para ela, sorriu. Não disse sim nem não. Seus pensamentos trabalhavam:
- É ainda mais louca do que pensei.
A partir daí teve a certeza de que
deveria terminar. Excluiu a possibilidade de conversa. Não daria certo. Precisava se afastar de imediato. Resolveu radicalizar.
Decidiu por fazer-se de morto. Afastou-se sem dar nenhuma explicação. Não mais
telefonou, não atendeu as ligações e rareou as visitas à casa da mãe. Yolanda apelou para as mensagens no celular. Recebeu três e não respondeu. A última dizia:
- "Não sei o que houve. Deve ter sido
coisa muito séria. Gostaria de ter a oportunidade de me defender. Nunca corri
atrás de homem, não haverá de ser agora. Se você não me retornar, não vou
importuná-lo novamente".
Manteve-se em silêncio. Passaram-se
quarenta dias e Yolanda, também, como anunciara, em silêncio. Não pensou que seria tão fácil. Temia um
escândalo. Nada ocorreu. Yolanda cumpriu o prometido; não mais o procurou, não mais apareceu na varanda.
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Naquele
domingo, já estava há três meses sem, nem ao menos, ver Yolanda.
Deixara de ir na casa da mãe durante a semana. Alegando compromissos passou a ir almoçar domingo sim, domingo não. Quando ia, chegava quase na hora do almoço. Artifício para evitar Yolanda. Foi assim, também, naquele domingo. Na casa da vizinha, aparentemente, ninguém. O que não contava era com a novidade que a mãe lhe trouxe:
- Ontem encontrei-me com Yolanda, o marido e a filha. Estavam todos muito alegres. Seu xará todo orgulhoso. Yolanda está grávida. Haviam acabado de saber que a criança é um menino. Yolanda está felicíssima. A menininha não esconde a alegria com a vinda do irmãozinho. O filho vai se chamar Paulo. Mais um xará. O pai está todo orgulhoso.
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