terça-feira, 27 de maio de 2014

CHEGA AOS 90 ANOS O DEPEPUTADO GERALDO DI BIASE


Coluna do Orlando (Jornal Correio Comercial- junho 2004)



Quando em 1930, Rosemar Pimentel chegou a Barra do Piraí, começou a dar aulas particulares de português e francês. Até então, em nossa cidade, só havia o curso primário.  O sucesso foi imediato e Rosemar Pimentel, junto a outros professores, acabou criando uma espécie de “cursinho”, um preparatório ao exames de admissão para outras cidades,  que acabou se transformando no embrião do Colégio Municipal Nilo Peçanha.
O Nilo Peçanha, inicialmente municipal e pago, consolidou-se, pelo gabarito de seus mestres, como uma das mais importantes casa de educação atraindo jovens de todas as cidades vizinhas.
Foi o Deputado Geraldo Di Biase quem incorporou o Ginásio Municipal ao Estado, transformando-o em Ginásio Estadual e, portanto, gratuito.
Foi este o primeiro passo para a democratização do estudo em nossa região. O Instituto de Educação Nossa Senhora Medianeira, particular e, logicamente pago, formava as professoras da região e só trabalhava com o sexo feminino. Foi o Deputado Geraldo Di Biase quem criou a Escola Normal e a agregou ao Nilo Peçanha. A nova escola normal, além de gratuita, podia ser frequentada por ambos os sexos. Foi este o segundo passo para a democratização do estudo em nossa região. Foi esta a nossa segunda dívida com o Deputado Geraldo Di Biase.
O tempo passou e Geraldo Di Biase criou a FERP (Fundação Educacional Rosemar Pimentel) com sede na estrada que liga Barra do Piraí a Valença. Foi uma época de evolução fantástica para a nossa cidade. Os anos 70 foram os “anos dourados” de nossa educação, da evolução de Barra do Piraí.
A FERP oferecia as Faculdades de Filosofia,Ciências e Letras, Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil. No seu auge teve 5 mil alunos compondo o seu quadro. Além de trazer alunos de todo o Brasil, possibilitando a miscigenação cultural que tão bem fez aos barrenses, permitiu que os alunos da região, independente da faixa etária, completassem seus estudos fazendo o curso superior. Dou, como exemplo, a minha própria mãe.
Foi o terceiro e gigantesco passo para a democratização do ensino em nossa região. Uma grande parcela  dos alunos da FERP foi beneficiada com algum tipo de bolsa. Abonos de 100%, de 75%, de 50% e de 25%. Você, que estudou na FERP e que agora está me lendo, provavelmente foi um dos beneficiados. Até a data de hoje, 2004, a FERP formou 1.300 arquitetos, 1.400 engenheiros, 3.100 pedagogos e 6.500 professores.
A atuação do Deputado Geraldo Di Biase na área de educação não ficou só na democratização do ensino. É de sua autoria a lei sancionada pelo governador Celso Peçanha, no início da década de 60, que concede aposentadoria aos professores após 25 anos de serviço. Você, professor, que já está aposentado, deve isso ao Deputado Geraldo Di Biase.
O Deputado Geraldo Di Biase completou 90 anos no dia 5 do corrente, sábado e, Bete e eu, comparecemos a festividade na bela Fazenda Sant’Ana.
No dia 6, domingo, pela manhã cedinho, eu o vi fazendo a sua caminhada como o mais simples dos mortais. Duas horas mais tarde eu participava, como expectador, na Esquina do Pecado, da apresentação da Banda União dos Artistas. Em determinado momento, o apresentador do evento anunciou que o Deputado Geraldo Di Biase havia completado, no dia anterior, 90 anos. Espontaneamente todos os presentes, que não eram poucos, aplaudiram entusiasticamente. Fiquei feliz. Pena que o Deputado Geraldo Di Biase não estivesse por perto para ver aquela manifestação de reconhecimento do povo de Barra do Piraí. Quando voltei para casa, sentei-me ao lado do computador para reescrever minha coluna que já estava pronta. Deixei o que pretendia falar para o próximo mês e dediquei meu espaço para que o Deputado Geraldo Di Biase pudesse saber que, pela passagem dos seus 90 anos, em reconhecimento aos seus méritos, foi aplaudido, forte e sonoramente, pelos barrenses.
Alguns dias depois recebi a carta que agora torno pública:

Meu caro Orlando,
Somente agora, passados alguns dias da comemoração dos meus 90 anos, consegui coragem de transmitir-lhe este agradecimento.
Com toda sinceridade que me vai na alma, neste momento, a emoção, uma emoção forte, que penetrou fundo em todo o meu ser, senti, ao tomar conhecimento do seu artigo publicado no Correio Comercial de junho.
E natural que isto aconteça, principalmente tratando-se de uma pessoa como eu, que ainda está lúcida, graças a Deus, e em plena atividade, carrega, entretanto, sobre seus ombros, o peso de uma idade bastante avançada.
Sua generosidade naquele artigo, foi muito longe, principalmente ao falar de algumas medidas que, como Deputado, tive a felicidade de empunhar, e minha esposa Aracy, também sentiu-se lisonjeada pela fidalguia de seu gesto. 

                                                       Geraldo Di Biase








G







sábado, 24 de maio de 2014

O CASAMENTO

                                                                                                                           
 Na rodoviária, com a passagem na mão, aguardava ansiosa a hora do embarque. Parecia-lhe que todos podiam ver a frustração e a vergonha a que estava submetida. Naquele dia, mais do que em qualquer outro, precisava estar com Laura, desabafar com a prima. Sentia-se perdida, incapaz de coordenar os pensamentos que se embaralhavam, trazendo à superfície, junto aos fatos presentes, todo um passado jogado fora. Repetidas vezes consultava o relógio. Vontade mesmo era desaparecer, esvair-se como fumaça. Aquela saída a afastaria dos conhecidos, do pessoal da igreja, abrandaria a humilhação. Todo o planejamento de sua vida ruíra. Quinze anos de sonhos. Fora seu primeiro namorado. Não lhe negara nada, pelo contrário, dera-lhe tudo que pedira e fora ao extremo para agradar. Correra riscos imensos, enganando a mãe e o pessoal da igreja. Dentro daquela Kombi, Armando a fizera mulher. Submeteu-se a tudo que lhe pedia. Nunca lhe negou nada. Sabia que abusava, tratava-a como uma prostituta. Mas ela gostava, gostava de Armando e das coisas que Armando fazia.
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Conheceu-o na Igreja. Por causa dele entrou para o coral, para estar mais perto, para ir às excursões e, no ônibus, sentar-se ao seu lado.
Com o tempo, fez-se a solista do coral. Não... em hipótese nenhuma. Cantar na cerimônia de casamento do Armando estava acima de suas forças. Era pedir demais.
Há dois anos Armando arrumara uma namorada, mas continuavam saindo. Nunca recusava. Quase sempre na Kombi.  Estacionava em uma rua mais deserta, em canto mais escuro e ela o satisfazia. Coisa sempre rápida. Não mais de dez minutos. Ela não podia desaparecer por muito tempo. A mãe sempre de olho. Tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, Armando acabaria com aquele namoro Sempre lhe deu esperança. Por isto sentira tanta dificuldade em acreditar no que lera no jornal. Bestificada com a notícia, atordoada com o choque, assustou-se quando o telefone tocou:
- Rosângela... é a Márcia...você já leu? Saiu o proclama do casamento do Armando no jornal.
Nada respondeu. Colocou o telefone no gancho. A vista escureceu, as pernas enfraqueceram. Apoiou-se em cadeira procurando refazer-se. Foi para o quarto. Na cama o jornal e o maldito proclama. Novamente o telefone tocou. Respirou fundo e atendeu:
 - Rosângela... é Lúcia. Tenho uma notícia para lhe dar... é uma bomba... você vai cair dura.
O instinto feminino e o orgulho ajudaram-na a se recompor. Recolocou a máscara que já usava há tantos anos e antecipou-se:
- O Armando? Não... eu já sabia... não foi surpresa. Desejo é que sejam muito felizes.
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Oficialmente, há oito anos terminara o namoro. Passou a viver duas vidas.  Fora obrigada, pelas circunstâncias. Já era mulher. Foi a prova de amor que Armando lhe pediu no dia em que debutou. No acostamento de uma estrada, no banco de trás da  kombi. Coisa estúpida. Em menos de cinco minutos estragara sua vida. Por sorte não engravidara. Dois anos depois, a mãe pressionada pelas amigas da igreja, exigiu o fim do namoro. Carta anônima recebida, talvez por alguém do coral, lavrou a sentença:
- Minha filha... não quero mais vê-la com o Armando. É um difamador. Esqueça-o. Deus há de lhe dar coisa muito melhor.
Voltara a estudar por causa do Armando. As aulas na Escola Normal serviam para acobertar os encontros. Quase sempre no intervalo para o recreio. Os lugares mais inacreditáveis. Por diversas vezes Armando estacionara a Kombi na rua do cemitério, bem pertinho da porta de entrada. Durante aqueles três anos não teve do que se queixar. Depois que se formou, as oportunidades diminuíram. Os encontros ficaram mais raros. Quando a prima Laura se casou, as coisas voltaram a ser facilitadas. A prima foi morar em cidade grande e próxima. Aos fins de semana ia visitá-la. Na ida ou na volta encontrava-se com o Armando. Às vezes, na ida e na volta. Certo dia, a prima Laura contou-lhe que tinha um caso. Era amante de um médico. Tomou coragem e também contou o seu. Abriu para a prima toda a sua vida. Tornaram-se cúmplices. A partir daquele momento uma acobertava a outra e tudo ficou mais fácil.
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Das intenções do Armando, nunca desconfiou. Não havia por quê. Fora ela quem se vira obrigada a terminar. Armando não queria. Por isso também, viveu aquela vida dupla. Durante dez anos Armando, sempre que solicitado, estava presente. Ela solicitava bastante. É verdade que era sempre muito rapidinho, mas bem frequente também.  Aceitava aquela vida dupla. Por ela, tudo bem. Sua imagem era ótima. Apontada como exemplo de moça. De casa para o trabalho, do trabalho para casa. Nunca mais nenhum namorado. Nada de festas ou bailes. Todos os domingos no coral da igreja. Era a solista. Com moda, nunca se importou. A saia continuava comprida, bem abaixo do joelho. As poucas calças compridas, bem largas. Nada que modelasse o corpo, nada que chamasse a atenção.  Ninguém desconfiava de nada.
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O alto-falante da rodoviária trouxe-lhe a realidade. A voz monótona convidava os passageiros a tomarem seus lugares.  Às vezes percebia desejos em certos olhares dos homens. Sabia-se desejada. O recato que a envolvia tornava-a cobiçada. Nada interessava; Armando era tudo o que queria. Ao chegar, surpreendeu-se com a presença da prima na rodoviária. Antes mesmo dos cumprimentos, a voz ofegante da prima:
- Rosângela, o Dr.Raul telefonou. Está me esperando. Quer porque quer. Disse que tem que ser hoje, agora. Estou atrasada. Tome a chave. Vá para casa. Quando o Antônio chegar, diga-lhe que estou com enxaqueca e fui ao médico. Volto no fim da tarde.
Pegou a chave e, desconcertada, viu a prima afastar-se, quase correndo.
Uma hora da tarde. Em horário daquele, pensou, quem poderia desconfiar? Entrou na fila do táxi. Que coisa...viera atrás do apoio da prima, precisava desabafar. Viera buscar solidariedade e encontrara problemas para resolver. Laura abusava. Antônio não merecia. Mas quem era ela para fazer qualquer julgamento? Sentou-se no banco de trás. Percebeu que pelo retrovisor o motorista olhava para ela. Arrumou a saia e amarrou a cara.
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Como Laura havia previsto, Antônio ainda não havia chegado. Arrumou suas coisas no quarto de hóspedes que já conhecia muito bem e foi para a sala. Serviu-se de uma dose de Martini. Era a bebida de que mais gostava. Era lembrança forte do Armando. Quando iam a motel, Armando deitava-se, derramava Martini sobre a peito e mandava que ela lambesse. Colocou um disco na vitrola. Não... em hipótese nenhuma conseguiria cantar no casamento do Armando. Serviu-se de uma segunda dose. O barulho de chave na porta anunciou a chegada do Antônio:
- Oi, Rosângela...como vai?
Oi Antônio. Tudo bem? A Laura não está. Precisou sair. Foi à policlínica. Estava com dor de cabeça muito forte. Quis ir com ela. Não aceitou. Pediu-me que o aguardasse e que lhe servisse o almoço.
Antônio nada respondeu. Sentou-se e apontando para a bebida opinou:
- Martini é traiçoeiro, sobe muito.
A seguir perguntou-lhe se estava com algum problema, estava achando-a triste, bebendo e ouvindo música de dor de corno. Foi a primeira risada de Rosângela naquele dia. Contou-lhe que Armando ia se casar, já deveria estar se casando.  Antônio conhecia toda a história. Inúmeras vezes Armando apanhou Rosângela ali, na sua casa. Antônio balançou a cabeça, sorriu, levantou-se e trocou o disco. Colocou um bem alegre e disse:
- A vida é a vida. Não adianta chorar. A vida é para ser vivida. Vamos celebrar. Vou abrir uma cerveja. Vai ser a primeira de um fim de semana que há de ser primoroso e surpreendente. Você vai encontrar outro amor, um homem muito melhor do que o Armando e vai ser muito feliz.
Rosângela sorriu pela segunda vez dizendo-lhe que enquanto ele tomava a cerveja ela iria aquecer o almoço e jogar, rapidamente, uma água no corpo.
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Quando entrou no banheiro, sorria. Os drinques lhe fizeram bem.  Após tirar a roupa, olhou-se no espelho. Analisou o próprio corpo. Olhou-se de frente, de perfil e de costas e deu um sorriso de aprovação. Estava muito inteira. O Armando que se danasse. Quem perderia seria ele. Sorrindo, entrou no boxe. Não chegou a abrir a torneira. Lembrou-se da fala do Antônio: “...um fim de semana que há de ser primoroso e surpreendente”.
Nos lábios um sorriso. Saiu do boxe e apanhou o banquinho. Com ele alcançou os fios do chuveiro e soltou uma das pontas. Voltou com o banquinho para o lugar. Passou uma colônia no ventre. Abriu a maçaneta da porta do banheiro, deixou-a apenas encostada. Abriu a torneira do chuveiro e, inteiramente nua, de dentro do boxe, falou bem alto:
- Antônio... o chuveiro não está esquentando... vem aqui ver se você consegue dar um jeitinho. 

sábado, 17 de maio de 2014

TRÊS CALCINHAS

Foi no café da manhã que a história de Teresa começou:
- Aninha recomendou um dentista. O consultório fica longe, mas, mesmo com as passagens, ficou mais barato. Marco horário que não atrapalhe o almoço. Uma vez por semana. Talvez resolva em duas ou três idas. Quando eu engravidar, vai ficar tudo mais complicado.
Roberto sorriu em concordância. Levantou-se e foi tirar o carro do quintal que servia, também, de garagem. Seu primeiro carro zero. Comprado em consórcio. Devia mais da metade, mas era carro novo. Morava afastado, não era luxo. Não podia depender de ônibus. Contador. Sala alugada no centro da cidade. Abria as oito e ia até ao anoitecer. Uma única funcionária. Ao meio dia, voltava para almoçar. O resto da tarde no escritório. Sua clientela ainda era pouco numerosa. Comerciantes pequenos, proprietários de micro empresas.
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Teresa tirou a mesa do café sorrindo. Lavou a louça com pressa e foi para o quintal. Encostou-se ao muro dos fundos e assobiou. A cara do Paulão apareceu em cima do muro. Teresa foi direto ao assunto:
- Roberto concordou. Agora é você dizer dia e hora. Na hora do almoço, quero contar que já marquei a consulta. E então?
Paulão sorriu: - Fala que vai ser na terça, depois do almoço.
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Ao ouvir o barulho do carro, foi para frente da casa:
- Fiz chuchu recheado para o meu amor.
Era um dos seus pratos preferidos de Roberto. Pendurou-se no pescoço do marido e continuou falando:
- Marquei com o dentista. Na próxima terça. Vai me atender às três horas.
Com o braço nos ombros de Roberto, entraram.
Quase dois anos de casados e ainda o mesmo carinho. Teresa havia sido um achado. No dia em que a conheceu, não pretendia ir ao culto. Acabou indo, sabe lá a razão. Dedo de Deus? Pouca coisa para a felicidade completa; o herdeiro que estavam tentando.
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Queria calcinha moderna, impressionar Paulão. Precisava estar linda.  Há três meses estavam naquela paquera. Paulão estava enlouquecido. Imagina, queria ir a casa dela. Não permitiu. Risco demais. Não era maluca. Fez bem em resistir. A ideia do dentista deu certo. Roberto era muito devagar. Coitado, não tinha culpa. A igreja era muito exigente. Orientava para apagar a luz do quarto. Tudo era pecado. Falou ao marido que ia fazer umas comprinhas. Coisa pouca, calcinha e sutiã. Queria que ele escolhe-se a cor. Estava em dúvida entre preta, vermelha ou branca. Roberto lembrou-se do filho que estavam tentando.
- Compre uma de cada cor.
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Na terça, no fim do almoço, Teresa lembrou a Roberto:
- É hoje que vou ao dentista. 
Roberto ofereceu-lhe carona até a rodoviária. Recusou. Só iria no ônibus das duas. Não queria ficar de bobeira na rodoviária. Não pegava bem para mulher casada. Levou o marido até a porta. Quando o carro virou a esquina, foi direto para o banho. Cedinho se depilara. Na véspera tomara laxativo. Já tinha feito efeito. Nada mais era obstáculo. Escolheu a calcinha preta. Não ia usar sutiã. Paulão fica louco quando vê que está sem. De cima do muro estica o braço, quer tocar, pede para mostrar. É um tarado. Levaria o sutiã para usar na volta. Na bolsa, também o lubrificante e duas camisinhas. Não queria correr risco. Saiu de casa em direção ao ponto de ônibus. O carro de Paulão estava parado no local combinado. Ninguém na rua.  Aproximou-se cabreira. Abriu a porta, deitou-se no banco traseiro. Sobre ela, Paulão jogou um lençol. O motor já estava ligado. Acelerou e disse: – Na estrada, passa para o meu lado.
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Três horas e meia depois, parou quase no mesmo lugar. Havia gente na rua. Tiveram que aguardar para que Teresa pudesse sair. Teresa, deitada no banco de traz, por baixo do lençol, escutou  Paulão falar:
- Gostei. Você não me decepcionou. Diga para o corno que na próxima terça vai de novo ao dentista. Agora já dá, ninguém na rua, pode sair.
Confiando, afastou o lençol e, rapidamente, saiu. Caminhou em sentido contrário ao carro que se afastou rapidamente. Com as mãos, ajeitou os cabelos. Já estava de sutiã. Em casa, direto para o banheiro. Olhou-se no espelho e sorriu pensando; o quarto banho do dia. Dois no motel. Precisava tirar o cheiro do Paulão. Uma loucura! Parecia um touro no cio. Teve que dançar conforme a música. E que música!  Pegou a calcinha preta e cheirou.Foi a primeira coisa que Paulão a fez tirar. Ficou jogada em um canto. Podia voltar com ela para a gaveta. De banho tomado, foi para a cozinha. Mexeu com alho e cebola propositadamente. Passou as mãos no coentro, colocou lenço na cabeça. Quando Roberto chegou, contou :
- O Dr. Homero achou melhor fazer radiografia. Disse que demorei muito. Para salvar o dente, só fazendo tratamento de canal. Marcou na próxima terça. Disse-lhe que estamos querendo encomendar filho. Falou que não seria problema. O canal vai custar trezentos reais. Devo dar a metade na próxima terça. No final, devo completar o pagamento.
- Vamos fazer o que for preciso. Quero a mãe do meu filho saudável.
Quando trouxe a comida, falou: - Você é o melhor marido do mundo.
Assim que começaram a comer, levantou-se e segredou no ouvido de Roberto:
-Não coma demais. Hoje vamos tentar fazer o nosso Júnior. Quero estrear calcinha nova. Pode ser a preta?
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A outra terça exigiu a repetição do ritual. O motel foi o mesmo. Era o mais próximo. Mudaram apenas o local do embarque. Achou mais prudente. A volta foi semelhante. Deitada no banco traseiro escutou:
- Não gostei do que me contou. Quando ele chegar, queixe-se do dente, diga que a cara pode inchar. Vá logo dormir. Não quero saber de safadeza sua com o corno.
Em casa, riu. Não querer que transasse com o marido. Que loucura! Não devia ter contado. Não imaginava que fosse ficar com ciúme. Não devia, também, ter falado do dinheiro do dentista.  Paulão, no final, acabou não lhe devolvendo o dinheiro.  
- Quem está tratando do seu canal sou eu, então sou eu que vou ficar com o dinheiro.
Brincando, acabou ficando. Havia ido com a calcinha vermelha. Foi guardá-la. Para abrir a gaveta, precisou sentar-se na cama. Gemeu. Estava dolorida. Paulão havia pegado pesado. Não quis camisinha e nem lubrificante.
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Esperou o marido de banho tomada e perfumada. Ao ouvir o carro, foi encontrá-lo. Foram entrando abraçadinhos.  
- Correu tudo bem. Começou a mexer no canal. Não doeu nada. O homem é muito bom. A Aninha estava certa.
Já dentro de casa, abaixou o tom da voz e continuou:
 - Hoje vou colocar a calcinha vermelha. Você decide se vai ser antes ou depois do jantar. Precisamos encomendar o nosso Júnior.
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Na outra semana, no fim do almoço, Teresa voltou a lembrar:
- Benzinho, hoje é dia do dentista.
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Dessa vez ia exigir que Paulão usasse o lubrificante. Passara quase toda a semana dolorida. Paulão que tivesse paciência, mas ia ter de usar o lubrificante. Por mais que insistisse, não conseguira que Paulão lhe devolvesse o dinheiro do dentista. Iria usar a calcinha branca.  Cor da paz. Poderia dar sorte: devolução do dinheiro e uso do lubrificante.
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No meio da tarde, Roberto, em seu escritório,recebeu a visita inesperada do irmão que, sem nem mesmo dar boa tarde, chegou perguntando por Tereza. Roberto falou do dentista. O irmão retrucou:
- Cruzei com o carro do seu vizinho. Tereza estava com ele. Não me viram. Contornei e, de longe, os segui. Entraram no motel.
Roberto, surpreso, olhou para o irmão.
 –Tem certeza de que era a Tereza?
 – Absoluta, certeza absoluta.
O irmão era polícia civil. Seu trabalho, investigação. Depoimento muito forte. Ainda assim, voltou a questionar. Em resposta, o irmão intimou:
- Não acredita? Vamos lá agora. Vamos tocaiar e você vai ver.
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Roberto viu o carro saindo e, ao lado de Paulão, Tereza rindo.
O irmão perguntou: - O que vamos fazer?
-Agora nada. Dá tempo para que eles se afastem e vamos voltar.
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Em casa Roberto chegou dizendo não estar bem, não ia querer jantar. Teresa se prontificou a fazer um chá. Roberto perguntou pela ida ao dentista. Ficou sabendo que correra tudo bem, que o canal estava quase pronto. Foi deitar-se. Teresa ficou na sala vendo televisão. De nada desconfiou. A calcinha branca ficaria para outra oportunidade. Foi até bom. Estava toda dolorida. Paulão jogou o lubrificante no vaso e deu descarga. Não aceitou argumentos. Fez o que bem entendeu. Não quis camisinha. Não teve forças para impedir. Fez o que mandava.  Ficou em pé, deitada, de frente, de costas, de quatro.  Não lhe devolveu o dinheiro. Disse ter precisado.
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Roberto acordou mais cedo. Manteve-se na cama. Fingiu que dormia. Durante 
o café disse a Teresa que não voltaria para o almoço. Quando entrou no carro, 
já sabia o que devia fazer. Almoçou com o irmão. Falou que queria dar flagrante. Queria coisa legal.  Foram para a Delegacia.  Quando voltou, estava tudo planejado. Agora, só paciência, muita paciência para aguardar a próxima terça feira.

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No domingo, estavam assistindo ao “Fantástico”. Teresa envolveu a cabeça do marido com as duas mãos e perguntou-lhe se podia desligar a televisão.
- Ainda não estreamos a calcinha branca. Precisamos dar oportunidade para a vinda do Júnior.
Ficou olhando para Roberto, aguardando. Roberto, de imediato, não se pronunciou. Depois, olhou para Teresa e sorriu. Levantou-se, deu-lhe a mão e caminharam para o quarto.
Não apagou a luz. Sentou-se na cama e disse:- Tire a roupa. Quero ver o seu corpo.
Teresa adorou. Sorrindo, tirou a roupa lentamente. Surpreendeu-se ao ver Roberto se despindo. Foi a primeira vez que viu o marido nu e em ereção.
 A última coisa da qual se lembra foi a ordem do marido: - Quero você de quatro.
Foi um Roberto desconhecido, uma noite inesquecível, a melhor de toda a sua vida.
Na terça, Roberto antecipou-se e perguntou-lhe se iria ao dentista. Confirmou.
- Não volto para almoçar. Na mesinha de cabeceira deixei os cento e cinquenta restantes.
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O irmão iria primeiro, com dois policiais e um fotógrafo. Roberto só queria participar na hora de abrir a porta do quarto. No escritório, aguardava a hora. Quando achou adequado, foi de carro para a casa dos pais de Teresa. O relógio marcava duas horas. Certamente os sogros já haviam almoçado. Deveriam estar descansando. Foi recebido com alegria. Sorridente, falou que queria fazer uma surpresa para a esposa e que precisava da presença deles.
A sogra, sorrindo, perguntou: - Mas qual é a surpresa?
Sorrindo também, falou que não podia adiantar nada. Surpresa é surpresa. Reafirmou que era importante que participassem. Concordaram e foram para o carro. Roberto antecipou-se e abriu a porta traseira. Os pais de Teresa se acomodaram. Entrou no carro e orientou aos sogros: - Coloquem o cinto de segurança.
Pelo espelho retrovisor Roberto viu que os sogros, os pais de Teresa estavam de mãos dadas, sorridentes, antecipando a alegria que propiciariam a filha.
Roberto respirou fundo, ligou o carro e tocou para o Motel.

                                                                     






sexta-feira, 16 de maio de 2014

A VEREADORA

Sete dias sem resposta. Para Sávio, uma única explicação; Sophia se aborrecera com o seu último e-mail. Fora bastante quente em suas palavras. Em alguns momentos, pornográfico. Deus do céu! Recordara, apenas, momentos do encontro. Difícil... relacionamento muito difícil. Casada, ela temia os riscos.  Já ficaram meses afastados. Não permitia que ele ligasse. O “sem número” a protegia. Em outra ocasião, achou que ela havia desistido. Enviou-lhe e-mail com uma única frase: 
- Resolveu acabar?
A resposta veio com duas:
- Acabar com o quê? Nunca começamos nada.
Foi o início de mais um reatamento. Dias depois, novamente na cama. Trocava de carro com amiga. Apanhava-o em lugares diferentes. Sávio ia deitado no banco traseiro. Os vidros escurecidos e o horário ajudavam. Conheceram-se durante a campanha eleitoral. Em passeata, pediu-lhe o voto. Pouco depois, voltou com camisa na mão. Estendeu-a sorrindo:
- Para não esquecer. Tem a minha foto, o nome e meu número.
No outro dia, Sávio foi ao comitê. Assim começou o envolvimento. Engajou-se na campanha. Um único objetivo: conquistar Sophia. Era voluntário para todas as empreitadas. Júlio, o marido, volta e meia, participava das passeatas. Quando ocorria, marido e mulher iam à frente, mãos dadas. Sávio se recolhia. Sem a presença do marido, crescia, assumia a liderança, era o mais ativo em todos os momentos. Conquistou, primeiro, a confiança. Tornou-se importante, imprescindível. Sophia não resistiu. Encantada, entregou-se. 
Sávio, professor de educação física, dez anos mais novo, residia com os pais. Aquela mulher caíra do céu. Amor nunca sentira. Sophia intuía. Devia doer-lhe a constatação. Culpava-se.  Ele não romperia. Na cama, nada nem parecido. Uma leoa.
Quase sempre precisavam de dias de acertos, para encontro de duas horas. Na volta, sempre a mesma história:
- Não sei onde estou com a cabeça. Precisamos acabar com isso. O Júlio não merece. É um bom homem. Se souber, o mata. Só você não, a mim também.  Você não tem ciúmes?  Quero ouvir dizer que me ama. Vamos, fala que me ama.
Deitado no banco de trás do carro , tentava contornar a situação:
- É claro que amo. Mas, como posso sentir ciúmes do seu marido?
 Pisou no freio.
- Vai... desce. Desce aqui mesmo. Já me encheu.  Sai logo.
As despedidas, sempre assim. Ela aborrecida e ele indo para a casa dos pais.
Foi assim no último encontro. A mensagem enviada não fizera a pacificação. Desistiu de aguardar. Enviou outra:
- Não entendo o seu silêncio. Aborreceu-se com o que escrevi? Falei de fatos nossos, cenas que vivenciamos. Nada demais, nada que justificasse tamanha reação.  
A resposta não se fez esperar:
- Você não me ama. Só quer saber de mim na cama. Não sou sua prostituta. Cansei. Você não faz mais sentido.
Sophia, mais uma vez, estava encerrando o caso.
Dias depois, viu-a na rua. Entrava entrando em um prédio de clínicas. Provavelmente levava o filho ao médico. Não o viu, foi o que ele pensou.
No outro dia, a comunicação tão esperada:
- Estou me preparando para congresso em Brasília. A previsão é de três mil vereadores.  O tempo anda escasso. Na volta nos falamos. Beijos. 
Precisava agir rápido. Sabia que o texto não correspondia a realidade. Sophia estava abrindo uma possibilidade. Queria tê-lo antes da ida para Brasília. Sabia como lidar com ela.  Respondeu sem falar em encontro.
- Fico feliz com o seu entusiasmo. O Congresso é importante, vai abrir horizontes.  Espero vê-la, um dia, em Congresso de Prefeitos. Faça uma ótima viagem. Na volta quero que me conte tudo.
Bem cedinho corria no calçadão quando o celular vibrou. Era Sophia marcando encontro para o outro dia. Na hora combinada apanhou-o e levou-o para o motel. Pouco depois das 16 horas, deixou-o dizendo que ia para o Shopping. Já no estacionamento procurou e localizou seu carro. Procurou vaga para deixar o da amiga. Estacionou. Caminhou para seu . Abriu a porta. No banco do carona, estava o marido Júlio. Assustada, tentou mostrar tranquilidade.  Perguntou quase sorrindo:
 - O que está fazendo aqui?
- Safada !
Lívida, em pé ao lado do carro :
 - O que houve ?
- Vadia!
Quando viu a arma na mão do marido, iniciou corrida que não alcançou a quarta passada. Os estampidos ecoaram no estacionamento. Júlio saiu do carro. Caminhou, lentamente, até o corpo inerte. Acertara os três tiros. Todos nas costas. Uma poça de sangue. Ao lado do corpo, com a arma na mão, ficou parado. Não esboçou nenhuma reação com a aproximação dos seguranças.
Na casa dos pais, Sávio, em frente ao computador, digitava:
- Foi uma tarde inesquecível. Você conseguiu se superar. Não vejo a hora do seu retorno.

CHAPÉU-DE-PALHA

O carro antigo seguia pelas ruas empoeiradas do distrito. Da janela,o aceno automatizado, o sorriso sem jeito, o chapéu-de-palha protegendo a papada vermelha do sol: 
-Bom dia. Como vamos? ... Bom dia. Recomendações à esposa.
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Alguma coisa lhe dizia que chegara a sua vez. O pressentimento da 
vitória, entretanto, o assustava. Não era a primeira vez que tinha aquela sensação. Lembrava-se bem da primeira campanha. Sentira o mesmo. Chegara a se sentir eleito. As pesquisas mostravam o seu nome na frente. Abraços para todos os lados. Já o chamavam de prefeito. No fim, aquela decepção. Fora o mais votado. O partido perdera na legenda. Não, desta vez não se deixaria emprenhar pelos ouvidos. Não era marinheiro de primeira viagem. Era a terceira tentativa. Eleição é caixa-de-surpresas. Fizera a sua parte na última vez. Os dois companheiros falharam. Merda de companheiros! Cambada incompetente.
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Em cada parada, repetia-se o ritual. O sacrifício dos movimentos, só Deus sabe. Quase dois metros e mais de cento e trinta quilos. Os setenta e quatro anos martelavam sem parar:

-Burro! Quem mandou se meter nisto novamente? Não tem mais idade. Vá para casa descansar estas pernas.

A mão esticada do correligionário trazia-o de volta à realidade, fazia com que se animasse e reiniciasse a cantilena.

-Como vai? Como está vendo a coisa? É, realmente estão dizendo que desta vez vai. Vamos aguardar a hora. O que é do homem o bicho não come. Você me conhece. Não peço voto. Vim procurar o amigo para dizer que sou candidato. O partido, novamente, tem três.Sou um deles.
A resposta pouco variava. Quase sempre a mesma coisa:

- O senhor nem precisava perder tempo com este seu amigo. O senhor sabe da minha fidelidade. Aqui em casa os nossos votos são todos seus. Este ano vai aumentado... o Alencar tirou o título”.

-É uma ótima notícia... por um se ganha, por um se perde.
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No carro, voltavam às dúvidas. Sabia que desta vez a surpresa da legenda não se repetiria. O partido estava forte, organizado. Não houve erro na escolha dos companheiros. Só homens de bem, gente séria. Nenhum cabeça de vento para jogar fora as eleições. Cachaçada em campanha só para o eleitor. Para candidato, nunca. Da segunda vez foi traído dentro do próprio partido. Como o mais votado, tinha de ser o candidato de frente. Disseram que estava velho. Trocaram os seus setenta anos de retidão pelos trinta e seis do cachaceiro. Deu no que deu. Agora, quatro anos mais velho, ninguém questionava a idade. Ao contrário, tapinha nas costas e o grito de guerra:
“O velho vem aí”.
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Nova parada. O sacrifício se repetia. Antes mesmo do aperto de mão, já vinha anunciando:
- Seu Paulo... vim lhe dizer que sou candidato. É a terceira tentativa. Época de eleição é hora de procurar os amigos. Voto eu não peço. O nosso partido tem três candidatos. Vim avisar ao companheiro que sou um deles.
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Naquele distrito ganhara as duas eleições passadas. Haveria de ganhar a terceira e, agora, em todo o município. Cuidado precisava tomar com o Heleno. A campanha do companheiro estava crescendo. O risco era crescer demais. Nos comícios, apelava para a idade. Apenas cinquenta anos. Diz ser o único do partido a vir para as ruas levantar a bandeira do povo. Demagogia, pura provocação do sacana. Quer me pressionar, me obrigar a fazer comícios, tirar partido por ser mais jovem, forçar a comparação. Engana-se quem pensa que vou cair nessa. Comício não ganha eleição. Voto se ganha é ao pé do ouvido. É bom que o sacana cresça. Vou precisar daqueles votos para engrossar a legenda.
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No fundo, a vontade era a de estar em casa, descalço, sem camisa, chupando manga e ouvindo o correr do rio. Já não mais em idade para aquilo. Se ganhasse, seria ainda pior. Uma loucura. A primeira briga, com o comércio ilegal. Parecia estar ouvindo a voz do Toninho Camelô:

-“Seu Dudu... vim saber se podemos votar no senhor. Estão dizendo que se o senhor ganhar, acaba com o camelódromo”.

Merda! Com a eleição ameaçada pelo Heleno e naquele beco sem saída. Sabia que podia estar perdendo a eleição, mas não podia recuar. A frase saiu num repente, mas parecia estudada:

- Seu Toninho... o senhor não vote em mim não, pois se eu ganhar, não fica um camelô no centro da cidade .
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Nova parada do Chevrolet:

-Seu Dudu, o nosso partido vai dar um vareio. Quem está mais perto do senhor é o Heleno, que também é do partido. Certamente vai ficar em casa”.

Era só o que faltava. Ganha o Partido e perco eu. Puta que pariu... vai ser muito azar. Caveira de burro? Será que lutava conta a vontade de Deus? Não estaria em seu destino a prefeitura de Barra? Não... não podia acreditar que o Heleno ameaçasse sua campanha. Homem fechado, antipático. Além do mais, doutor. O povo não gosta de votar em doutor. Preocupação besta.
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O diabo era sua idade. Heleno conclamava a juventude. Na última reunião parecia o dono da verdade. A máscara de humildade não conseguia esconder o clamor do já ganhei no fundo dos seus olhos. Presunçoso sempre fora. O pior é que se eu vencer vou ter de engoli-lo. Não sou homem de duas palavras. Cumpro o combinado, nomeio-o Secretário de Obras. Vai ser gozado ver o Heleno acatando minhas ordens. Não aguenta três meses. Muito vaidoso. Inventa doença e pede demissão.
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- “Pai... acorda pai...são cinco horas”.
Era a filha. Arrumando-se, procurava por a cabeça em ordem, rememorar o planejado. O pessoal precisava comparecer em massa. Queria todos de chapéu-de-palha. O impacto, no dia, é fundamental. Arrasta os indecisos. O povo quer votar no que vai ganhar, quer sentir-se vencedor.
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- Então Zaca? Quantos homens temos?

- Seu Dudu... meia hora antes de iniciar teremos três homens em cada seção.

- Arranjou chapéu para todos? Ótimo... então vamos... vamos ganhar esta eleição.
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Sentado ao lado do rádio ouvia, nervoso, notícias das apurações. Lá não iria. Só no fim, com tudo sacramentado. Desta vez não repetiria o mesmo erro. Vitória, só cantaria depois de apurado o último voto.
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Há oito anos o terno estava guardado. A certeza da vitória o havia feito comprar. Era para a posse. Foram mais duas campanhas para poder usá-lo. A vida é gozada. Fizera fé no “chapéu-de-palha” e o que pegou foi a arma criada pelos adversários:  “O velho vem aí”.
Queriam destacar a minha idade. Quebraram a cara. No dia da eleição, na cidade inteira, era só o que se escutava: 
                                    “O velho vem aí”.
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Não nascera para usar terno. Sentia-se incomodado. Gozado! O que a emoção faz com o homem. A mão trêmula, o coração disparado. Não conseguia arrumar o nó da gravata. Talvez precise tomar um calmante. A emoção não poderia prejudicar seu discurso. Precisava agradecer ao povo.

- Belinha, minha filha; um suco de maracujá. Estou tenso.
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Meia hora depois, a boataria na cidade. Mais tarde, a confirmação da notícia. O prefeito estava morto. A cidade inteira, em fila organizada, estava na Câmara dos Vereadores onde o corpo do seu Dudú, vestido com o terno da posse, estava sendo velado. O caixão seguiu nos braços do povo pelas ruas da cidade. Ao aproximar-se do cemitério, no muro caiado, a marca registrada da campanha:
                                  “O velho vem aí”.

A VIZINHA


O gosto pela leitura foi herança paterna. Na estante do pai, Paulo selecionara uma das pastas: Textos de Nelson Rodrigues.
O pai utilizava-se de técnica própria para memorizar.  Resumos com utilização das palavras do próprio autor. A página manuscrita pelo pai, exemplo típico. Com sorriso saudoso, com a imagem do pai na cabeça, dirigiu-se com o texto para o sofá da varanda.
- “A Alaíde de Vestido de noiva precisou morrer para realizar a sua mais doce e secreta utopia. A heroína fora atropelada. Quase agonizando, ela se imagina num prostíbulo. Antes de morrer a jovem e exemplar senhora precisava viver o seu momento de prostituta.”
A mãe interrompeu sua leitura com a indagação:
- Reparou o monte de areia na calçada em frente? A casa vai receber reforma.
Olhou para o casarão. A data justificava a aparência: 1926.
O relógio da sala bateu. Dona Marta ofereceu o braço para o filho:
- Uma hora. Vamos entrar. O almoço vai estar servido.
Mostrando a pasta para a mãe, disse:
- Vou guardar. Esse Nelson Rodrigues era um louco.
Sorrindo, a mãe retrucou:
- Não era o que seu pai achava. Gostava, e muito.
A visita à mãe, aos domingos, era sagrada. Filho único e solteirão, invariavelmente cumpria o ritual. Naquele, um motivo especial. Aniversariava. A mãe fez o prato preferido; bacalhoada. Além do almoço, o tradicional bolo. Ia ter que apagar as velas. Cinquenta anos! Uma data emblemática. Assustava-se com o fato. O tempo passou como num átimo.
Ver-se cinquentão era muito esquisito. Pensava que não ocorreria com ele.
Não que pensasse morrer antes. Achava coisa distante, inatingível, que não chegaria nunca. De repente, cinquenta anos. Não podia reclamar. Estava bem. Fizera por onde. Não fumava, não bebia e dormia cedo.
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Independente da sua vontade acabou acompanhando as obras da casa vizinha de frente. Aos domingos, da varanda, observava os avanços. Não era obra de porte. Pequenos reparos. De acordo com a mãe, um único pedreiro.  Não havia pressa ou o dinheiro era pouco. 
Um certo domingo, não vendo progresso, achou que haviam desistido. A mãe explicou que o pedreiro já havia terminado. Esperavam que o pintor concluísse obra já iniciada em outro cliente, para então, começar na casa da vizinha.  Dois domingos depois, pintada, a casa parecia outra. Assistiu à chegada da mudança. Caminhão velho. Por ser domingo, achou ser coisa de amigo. Móveis simples, antigos como a casa. No outro domingo, os moradores já haviam se instalado.  O homem, sentado na varanda, lia jornal. A mulher, na mesinha, jogava alguma coisa com a filha. Os três pareciam-lhe uma cena de filme mudo. A menina aparentava cinco anos. O homem parecia ser alto. Dava a impressão de desleixo. Ela clara, magra, com os cabelos em rabo de cavalo. O homem olhou o relógio, falou alguma coisa e entraram. A varanda vazia, a casa silenciosa. Pouco tempo depois, o homem voltou à varanda. Sim, era alto. Sua aparência mudara. Provavelmente tomara banho. Talvez tenha feito à barba. A seguir apareceram mulher e filha. Nada falaram. Desceram a escadinha de poucos degraus. Na calçada, mãe e filha de mãos dadas. O homem um pouco adiantado.  Deu tempo para que se afastassem e desceu ao portão. Observou que a mulher não se juntou ao homem. Manteve-se o quadro. Um pouco à frente, era como se o homem não fizesse parte do grupo.
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O relógio deu o sinal. Durante o almoço, a mãe falou-lhe sobre os vizinhos: - Que haviam chegado no sábado, que já lhes dera as boas-vindas. O homem é seu xará. Chama-se Paulo, também. Paulo Renato. A esposa, Yolanda , é uma simpatia. A menininha educadíssima, muito quieta para a idade. 
Após o almoço, Paulo voltou à varanda. Viu o retorno do casal. O mesmo afastamento entre o homem e a mulher. Entraram.  A casa continuou parecendo desabitada.
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As visitas de domingo ganharam essa nova atração.  Quando não estava na varanda, debruçava-se na janela.  O jornal, agora, era apenas disfarce. Sentia-se atraído pelo que via. Com o passar do tempo, mais e mais. Passou a ir à casa da mãe, também, durante a semana. Na parte da tarde, chegava com desculpa de pão fresco para o café. Dona Marta, feliz, achou que, aos cinquenta, o filho se aquietava, se aproximava mais dela. Imaginava que, talvez, pudesse até voltar a morar com ela. Não estabeleceu relação nenhuma com a chegada dos vizinhos.
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A mulher sempre bem cuidada. Não era padrão de beleza, mas chamava a atenção. Tipo que os homens costumam chamar de gostosa. Provavelmente, não trabalhava, saía pouco. Levava e buscava a filha no colégio. O marido retornava no fim da tarde. Quando caminhando, o afastamento de sempre; homem na frente, mulher e filha recuadas. 
Esse detalhe o fez concluir que eles não eram felizes.
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A mulher, com o tempo, passou a aparecer mais na varanda. Brincava com a filha, cuidava das plantas, varria a frente da casa. Aparentemente ignorava sua presença. Mas, não era nisso que ele acreditava. Achava que se exibia para ele. Intuição. Fez certeza da possibilidade.
Naquele domingo, chegou bem mais cedo. Participou do café. A mãe ofereceu-lhe pedaço de bolo e disse:
- Foi Yolanda quem me trouxe.
Manteve aparente indiferença. Para ele era um recado claro. A mulher estava correspondendo. Seus pensamentos entraram em efervescência. Olhando o bolo, perguntou como se não soubesse:
- Quem é Yolanda?
- É a nova vizinha, meu filho. Já lhe falei dela. A mulher do seu xará, Paulo Renato. É muito simpática. Outro dia me trouxe salada de berinjela e, ontem, esse pedaço de bolo. 
Sentiu-se vitorioso, fortalecido. Agora, o que mais queria era ir para a varanda. 
-Você não é fácil, mãe. Já conquistou a moça.
Dona Marta sorriu :
- Não... foi ela quem me conquistou.
Estava eufórico. Não havia dúvida. Tudo era claro. Ela também estava interessada. Paulo traduziu o que o bolo simbolizava :
 - Sei que você está me olhando e estou gostando.
Debruçou-se na janela Não aguardou muito e a vizinha apareceu.  Desta vez, Paulo não disfarçou, não fingiu ler o jornal. Fixou o olhar na mulher. Foi correspondido. Olhos nos olhos. Paulo não esperava reação da vizinha. Tentou manter o olhar. Segundos que pareciam não ter fim. Não resistiu. Abaixou a cabeça. Com o coração disparado, voltou para dentro de casa. Foi direto para o banheiro. Nervosíssimo. Descobriu, ali que estava vivendo uma paixão. Uma avassaladora paixão em apenas seis meses. Sem que tivessem trocado uma única palavra, estava apaixonado. Paixão de adolescente. Olhando para o espelho sobre a pia do banheiro, sorriu e falou baixinho:
- Yolanda, a minha Yolanda.
Lavou o rosto. Buscava equilibrio. Queria revê-la. Rodou pela sala, foi na cozinha, conversou com a mãe, mas não conseguiu coragem para voltar à varanda.
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A novidade veio pela mãe. Empregada na casa de Paulo Renato. Yolanda começou a sair mais e sem a filha. A troca de olhares já se tornara frequente. Não o assustava mais. Esboçava sorriso que era sempre correspondido com entusiasmo. Nada ousou, além disso, mas sabia que precisava dar um passo a mais. Teve a ideia de enviar telegrama.  Evitaria o cara-a-cara. Postou em cidade vizinha, próxima. Sentiu-se mais protegido. Os funcionários da agência não o conheceriam. Nada poderia incriminá-lo. O texto uma única frase plagiada da Rita Lee: - "Você me dá água na boca".
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No retorno, já estava arrependido. Burrice. Ousadia sem tamanho. Ela iria se aborrecer. E se o marido abrisse o telegrama? Uma grande besteira. Levou uma semana para arranjar coragem para voltar à casa da mãe. Medo da reação de Yolanda. Deu como desculpa, para a mãe, gripe. No domingo em que reapareceu, quem não apareceu foi Yolanda.  Nem na janela, nem na varanda. Com certeza aborrecida. E com razão. O telegrama fora uma estupidez.
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Alguns dias depois, na área comercial da cidade, viu Yolanda entrando em cafeteria.  Entrou também. Posicionou-se do outro lado do balcão. Impossível que não o visse. Fixou os olhos. Ela correspondeu e ainda sorriu. Entrou em pânico novamente. Abaixou a cabeça e não mais olhou. Quando ela saiu, aguardou alguns segundos. Apressou o passo, alcançou-a. Sem parar de andar, olhando para frente como se assim pudesse não ser percebido pelos outros, e ao lado dela, falou:
- Meu nome é Paulo.
Sem parar e sem lhe dirigir o olhar Yolanda respondeu:
- Eu sei, com licença. Entrou em uma loja. 
Paulo continuou andando como se nada houvesse acontecido. Lembrou-se, novamente, do maldito telegrama. Yolanda, realmente, havia ficado aborrecida. Não havia outo motivo para ela cortar o diálogo, entrar na loja. Besteira sem tamanho o maldito telegrama. Precisava se desculpar. Mas, como?
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Presenciando um show musical em clube, surpreendeu-se com a presença do casal sentado em uma das mesas. Havia dito para a mãe que iria ao show. Provavelmente ela comentara com Yolanda. Só podia ser isto. Estava ali por causa dele.  Trocaram olhares a noite toda. Só saiu depois que o casal se foi. Em casa, não conseguiu dormir. A imagem de Yolanda não deixava. 
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Dois dias depois, ainda na calçada da casa da mãe, assustou-se com a voz de Yolanda que, da varanda de sua casa e com a filha, dirigiu-lhe a palavra:
- Paulo... tenho uma coisa para você. Espere um pouco que vou buscar em meu quarto.
Empalideceu.  Atravessou a rua e ficou parado na calçada, em frente ao portão de Yolanda, aguardando. E se a mãe o visse? O tempo passando e nada. Vontade de sumir. Yolanda apareceu, chegou até o portão e, sem sair de casa, falou:
-Vi o seu interesse no show. Acredito que tenha gostado. Eu adorei. Tenho o CD do cantor. Fiz uma cópia para você.  Esticou o braço com o CD na mão. 
De cabeça baixa pegou o CD. Agradeceu sem ter coragem de olhar para Yolanda. Atravessou a rua trêmulo, o suor escorrendo em suas costas. Naquele dia, não foi à varanda, não chegou à janela. Colocou o CD no bolso para escondê-lo da mãe. Tinha certeza de que era uma mensagem gravada para ele. Uma declaração de amor. Inventou desculpa com a mãe e apressou a volta para a sua casa. Andava rápido, ansioso. Certamente era uma declaração. Chegando, colocou o CD para tocar. Decepção. Apenas reprodução de um CD. Minutos depois, mudou a percepção. Não havia a declaração ansiada, mas o gesto fora muito forte. Custou para dormir. Acordou certo de que não podia continuar naquela situação. Agora, obrigação moral. Continuar assim não era possível. Yolanda ia achar que ele era um bestalhão. Tinha que tomar uma atitude. 
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No fim da tarde, ficou aguardando próximo a uma padaria onde sabia que ela costumava, naquele horário, ir comprar pão. Como previra, ela chegou e sorriu para ele antes de entrar na padaria. Era o que esperava. Iria abordar Yolanda. Começaria agradecendo o CD. Conforme fosse recebido, esticaria a conversa. Não...não conseguiu coragem para entrar na padaria. Da calçada viu Yolanda pagar os pães, sair e caminhar, vagarosamente, para casa. Pensou que, apressando o passo, poderia alcançá-la. Não o fez. Achou melhor. Poderiam ver maldade. Era mulher casada. Não queria trazer-lhe problemas. Já bastava o maldito telegrama. Viu-a distanciar-se sem ter coragem de dar um único passo. Só depois que Yolanda dobrou a esquina, iniciou caminhada, devagar, no sentido da casa da mãe. Chegando, viu que Yolanda não havia entrado. Estava na calçada, parada em frente ao portão.  Pensou se deveria falar-lhe ou apenas dar-lhe boa tarde e entrar na casa da mãe. Não havia decidido, quando ouviu a voz de Yolanda :
-  E aí Paulo, já ouviu o CD?
Olhou para a casa da mãe, temeroso de que ela houvesse escutado. Não sabia o que fazer.  Foi Yolanda quem atravessou a rua e aproximou-se de Paulo falando:
- Achei que a gravação ficou abafada. Minha aparelhagem tem poucos recursos.
Ainda estava com os pães. Retardou-se de propósito, concluiu Paulo. Aguardou-o, provocou o encontro. Estava cara a cara com ela. Olhando para o chão, respondeu:
- Não... A gravação está ótima. Gostei muito. Queria lhe agradecer, mas não sabia como.
- Ora, mas é tão fácil. Você pode me telefonar.
O coração disparou.
 - O telefone é 2403-0303. Fácil de guardar. Um horário bom é às 17h. A empregada já terá ido e meu marido ainda não terá chegado.
Não conseguiu responder. Yolanda aproximou-se mais e sussurrou:
- Espero o seu telefonema amanhã.
Yolanda virou-se, atravessou a rua e entrou em sua casa sem olhar para trás.
Paulo estático. Só quando Yolanda fechou a porta, saiu do transe. Dirigiu-se para casa da mãe pisando em nuvens. Era o mais feliz dos homens. A mãe não havia ouvido nada. Com dificuldades, anotou o telefone. A mão tremia. Na cabeça a voz martelando: - Espero o seu telefonema amanhã.
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Em sua casa, pensava em como deveria conduzir o telefonema? Não queria se mostrar atrevido. Temia assustar Yolanda. Era uma situação especial. Mulher casada, casada e com filha. Não podia se precipitar. Poderia colocar tudo a perder. Tinha que pensar bem no que ia falar. Precisava transmitir segurança, fazê-la perceber que, com ele, não correria nenhum risco. Que era homem de responsabilidade, de educação. Acabou tomando “rivotril” para conseguir dormir.
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O dia seguinte foi tenso. Desmarcou todos os compromissos. Precisava de tempo para escrever um roteiro do que seria o telefonema. Passou a manhã escrevendo, rasgando e tornando a escrever. Na hora do almoço, estava mais tranquilo. Conseguira escrever o roteiro para o telefonema.  Uma hora antes do telefonema tomou uma dose dupla de uísque. A situação justificava, precisava estar relaxado.  Na hora combinada, ligou. O telefone tocou cinco vezes. Não atenderam. Amedrontou-se. Desligou com o coração disparado.  Dois minutos depois, fez uma segunda tentativa. Atendeu a criança. Desligou de imediato. Afastou-se do aparelho. Andou de um lado para o outro sem saber o que fazer. Decidiu por mais uma tentativa, a última. Logo após o primeiro toque atendeu a voz suave de Yolanda:
- Oi, Paulo. Que bom que você telefonou.
- Pois é, queria agradecer a fita. Foi muita gentileza.
Yolanda cortou e fez, com naturalidade, a afirmação:
- O telegrama foi você quem mandou.
Paulo arregalou os olhos e emudeceu. Yolanda continuou:
- Você também me dá água na boca. Já há muito tempo você me dá água na boca.
Diante do silêncio de Paulo, continuou:
- Na próxima semana, na quarta feira, vamos nos ver. Precisamos estar juntos. Na terça torne a me ligar neste mesmo horário para combinarmos os detalhes. Um beijo... na sua boca.
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Uma hora antes, Paulo já estava no lugar combinado. Ela iria de ônibus. O relógio não andava. Entrava e saía do carro. Havia levado dois vidros. Um com uísque. Precisava estar relaxado. Já havia tomado. O outro, com antisséptico bucal. Queria estar com o hálito perfumado. Havia a possibilidade de beijo. O ônibus parou. Yolanda desceu de óculos escuros. Atravessou a rua. Paulo, do outro lado, ao lado do carro, indeciso, não sabia se deveria ir ao seu encontro ou se a aguardava. Yolanda, sem falar com Paulo. foi direto para o carro. Abriu a porta do banco do carona e, sentando-se falou :
-Você não deveria ter saído do carro.
Paulo entrou em silêncio. Yolanda o recebeu com um breve sorriso. Tocando no joelho de Paulo, disse:
- Há um motel logo ali. É em local bem resguardado. Siga em frente e dobre na primeira à direita.
Em silêncio Paulo dirigia e pensava em como proceder. Se deveria entrar de mãos dadas ou ir apenas ao lado de Yolanda. Veio-lhe a imagem do marido. Também a de sua mãe. Parou na portaria do motel. Procurava um atendente. Foi Yolanda quem orientou:
 - Não... Paulo, segue, vamos, entre.
Paulo seguiu passando por diversas garagens. Yolanda, atenta, parecia estar escolhendo. De repente, definiu:
- Entre nesta. O quarto é ótimo.
Dentro da garagem, Paulo saiu do carro para abaixar a porta. Quando voltou Yolanda já havia saído do carro. Estava em pé em frente à porta do quarto. Paulo lamentou. Pensava em abrir-lhe a porta do carro, como faria um cavalheiro. Aproximou-se sem saber, ainda, se segurava na mão de Yolanda. Ela sorriu para Paulo. Esticou os dois braços e envolveu-lhe o pescoço. Tornou a sorrir, cara a cara. Rápidamente, virou o corpo e, de costas para ele, jogou os braços para trás e puxou-o pelo quadril. Apertou-o contra o seu corpo e começou a movimentar, bem devagar, os quadris. Foi, aos poucos, acelerando o movimento. Quando já rebolava despudoradamente, apoiou a cabeça no ombro de Paulo, aproximou a boca do seu ouvido e falou:
- Aperta meus peitinhos, fala que você é  meu macho, me chama de vadia.
Yolanda o surpreendera. Se pudesse adivinhar, jamais teria ido.  Uma desequilibrada, uma louca. Começou a despi-lo ainda na garagem. Chegou ao quarto com a camisa desabotoada, a correia aberta, a calça caindo. Jogou-o na cama. Assustado, tentava ser participativo. O palavreado, entretanto, o desconsertava.
- Olha para mim, olha. Bate na minha cara, me chama de vagabunda.
A cabeça rodava. Não acreditava no que estava acontecendo.  No comando Yolanda, cada vez com mais determinação, com mais autoridade:
- Fala alto. Mais alto. Diz que você é meu macho. Fala alto.
Deitado, já inteiramente nu, assistia àquela mulher fazer tudo para excitá-lo:
- Meu macho, meu homem, meu gostoso. Diz que eu sou sua.
Yolanda não logrou êxito, embora tentasse por mais de hora. Parou. Paulo continuou deitado, humilhado, amedrontado. Sentada na cama, ficou olhando para ele.
- Você se arrependeu, não é?
Paulo balançou a cabeça, afirmativamente.                                     
Yolanda, agora com a voz pausada, parecia ter saído do transe:
-  Sou uma mulher experiente, mulher de muitos homens. Vou ter muita paciência. Você vai ser meu.
Levantou-se, serviu-se de água. Trouxe para ele. Procurou ser amável e gentil. A trégua não durou muito. Recomeçou a investida.  Fez gato e sapato e não conseguiu dar-lhe uma ereção, não uma que possibilitasse a penetração. Desistiu.
- Acontece. Vai ficar para outra oportunidade. Agora temos que ir. Meu tempo está esgotado. Não fique aborrecido. Vamos ter outras oportunidades.
Deixou-a no mesmo lugar onde a apanhou. Yolanda não o deixou esperar a chegada do ônibus. Mandou-o ir. Paulo seguiu. Conferiu no relógio. Durou três horas o martírio.
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No domingo só foi para a casa da mãe na hora do almoço. Quase chegando, já próximo ao portão, abriu o jornal para fingir estar lendo. Não queria correr o risco de encarar Yolanda. Não saberia como proceder se ela estivesse na varanda. Por sorte,  não estava. Subiu rapidinho a escada da casa da mãe. Neste dia faltou coragem.  Não ousou chegar nem à janela. Depois do almoço, tentou tirar cochilo. Não conseguiu. A proximidade de Yolanda o assustava. Foi até a estante procurar livro e lendo encontrar o sono. Lá reencontrou a “Coletânea de Nelson Rodrigues”. Só podia ter sido aviso do pai. Abriu a pasta para procurando o trecho que já havia lido. No folhear, encontrou um outro:
O brasileiro finge um desejo indiscriminado e voraz por todas as mulheres. Mas, eis a verdade: - ele tem amor e não desejo. Ela percebe tudo; ama-o mais por isso, porque sente todas as fragilidades luminosas do homem amado. Ele foi apenas o espectador atônito. Era ela, com sábia obstinação, quem ousava tudo o que nenhuma outra mulher imaginaria.
 Fechou a pasta. Sim, só podia ser aviso, coisa do pai tentando alertá-lo.
Após o lanche, cautelosamente, olhou pela janela. A casa da vizinha parecia vazia. Aproveitou. Despediu-se da mãe e se foi. Durante a semana não retornou. No outro domingo, novamente chegou quase na hora do almoço e usou a mesma tática. Jornal aberto como se, ao caminhar, estivesse concentrado na leitura. O objetivo era um só; não correr o risco de ser abordado por Yolanda no caso dela estar na janela ou na varanda. 


Novamente deu sorte. Começou a subir a escada da varanda da mãe quando, no terceiro degrau, quando já se considerava salvo, surpreendeu-se com a voz da mãe:
- Oh, Paulo. Que bom que você chegou...estamos precisando de você.
Tirou os olhos do jornal e viu, na varanda, sentada com sua mãe, Yolanda.
- Imagina que o gás do fogão da Yolanda acabou. O Paulo Renato não está, foi com a filha ao clube. Disse-lhe que você já trocou o meu várias vezes, que resolveria o problema do gás dela em um piscar de olhos. Yolanda, olhando para o chão, falando com muita ternura, parecia outra pessoa:
= Não, dona Marta. Eu espero o Paulo Renato chegar. Não quero dar esse trabalho para o seu filho.
- Não Yolanda... o Paulo vai trocar o botijão. Quando o seu marido chegar você já estará com o seu almoço pronto. Vai, Paulo, vai com a Yolanda.
Paulo, aturdido, acabou de subir a escada. As duas estavam sentadas. Beijou a mãe e esticou a mão para a vizinha:
- Como vai, dona Yolanda. Não vai ser trabalho, é coisa simples. Em um minutinho resolvo. A hora que a senhora quiser, podemos ir.
Ainda cabisbaixa, Yolanda falou:
- Se não lhe causa transtornos, eu agradeço. Vai resolver um problema. Já estava fritando os bifes. Se for possível, então, podemos ir? A senhora nos dá licença, Dona Marta?
Levantou-se e, sem olhar para Paulo, começou a caminhar para sua casa.
Atravessou a rua e, só no portão de sua casa, olhou para trás. Viu Paulo se aproximando e ninguém na rua. Esperou Paulo chegar e bem baixinho disse:
- Estou sem sutiã. Sei que ficou louco com os meus seios. Você é um tarado. Meus peitinhos, ficaram doloridos por mais de três dias.
A seguir, com a voz mais alto do que o normal:
-Vamos entrar seu Paulo e desculpe pelo trabalho.
Subiu os degraus. Abriu a porta, entrou, deixando a porta entreaberta. Quando Paulo entrou, já a encontrou com um dos seios à amostra. Yolanda fechou a porta apertando o seu corpo contra o dele. Agarrou-o pelos cabelos e trouxe sua cabeça para o seio desnudo:
- Morde meu peitinho, coloca ele todo dentro da sua boca.
Depois, virou-se de costas, encostou-se em Paulo e começou a contorcer-se. Entre a porta já fechada e o corpo ondulante, assustado, Paulo obedecia ao comando:
 - Aperta meu peitinho, aperta com força, tarado.
Não demorou mais do que alguns minutos. De repente, Yolanda se afastou, recompôs-se. Parecia saída de transe. Deixou o vestido novamente cobrir-lhe os seios.
- Eu já havia trocado o botijão. Foi desculpa para te trazer aqui. Você sumiu, me abandonou. Quis fazer a provocação. Quero ser sua novamente. Acho que você me enfeitiçou. Assim que der invento viagem e você vai se encontrar comigo. 
Afastou-se e, com quem conclui uma entrevista, falou: 
Agora vá. Está quase na hora de Paulo Renato chegar. Diga para sua mãe que você trocou o botijão. Agradeça a ela por mim.
Abriu a porta e falou alto: - Obrigado seu Paulo.  
Apalermado, Paulo saiu. Atravessou a rua como um robô. Subiu a escada e sentou-se na cadeira em que havia estado sentada Yolanda. Pegou o jornal com as mãos trêmulas. Tentava equilíbrar-se, entender aquela loucura. 
- Trocou o botijão, Paulo?
Confirmou e informou que donaYolanda pedira para agradecer.
Para ganhar tempo, recuperar-se, falou que, antes de almoçar, gostaria de tomar uma bebida. A mãe voltou com uma taça de vinho :
- É o Periquita. É português. Era o preferido de seu pai.
Paulo custava a acreditar na ousadia do que ela fizera. A mãe retornou com a garrafa, colocou na mesinha ao lado do filho. 
Paulo viu João Renato chegando com a filha. Assustou-se. Pegou copo e garrafa e entrou. Não demorou, tocaram a campainha. Dona Marta pediu:
- Vá ver quem é, meu filho.
Quando Paulo chegou à varanda, encostado em seu portão, o marido de Yolanda.
Arregalou os olhos, o coração disparou. O suor, quase de imediato, aflorou-lhe a testa. O silêncio foi quebrado por Paulo Renato:
- Olá xará... vim agradecer. A Yolanda me contou que você fez a gentileza de trocar o nosso botijão. Fico devendo essa.
Paulo reuniu todas as suas forças para conseguir dizer:
- Coisa atoa. Nada para agradecer.
Entrou. As pernas trêmulas, o suor escorrendo nas costas. Falou com a mãe:
-Paulo Renato veio agradecer a troca do botijão.
A mãe elogiou o casal.  Paulo, ainda perturbado, falou:
- Estou com dor de cabeça. Não vou almoçar agora. Vou deitar. Assim que melhorar, almoço.
Da cama, ouviu a mãe comentando:
- Será que foi o cheiro do gás? O vinho não pode ter sido. É coisa de primeira.
Pouco depois estava vomitando. A mãe cancelou o almoço, fez chá para o filho.
A mãe insistia: - Só pode ter sido o cheiro do gás.
Ao anoitecer, recuperado, ao sair, pediu para a mãe:
- Não diga para a dona Yolanda que o cheiro do gás me fez mal, não diga que vomitei. Ela pode ficar chateada.
Beijando a testa do filho, disse:
-Você é um verdadeiro cavalheiro. Poucos são os homens com o seu caráter. Tenho muito orgulho de você.
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Por quatro vezes retornaram ao motel. Encontros espaçados. Quase trimestrais. Em todos, o mesmo constrangimento. Ela parecia não se incomodar. Dava ordens, fazia com que usasse joelho, língua, dedos.  Compensava a paciência de Yolanda com a sua impotência, com submissão total.
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Falou com amigo das dificuldades que estava tendo. Ganhou um comprimido de Viagra, um filme pornô e a oferta de empréstimo das chaves de um apartamento. Viu o filme várias vezes. Foi com ele que tomou, verdadeiramente, conhecimento da anatomia dos órgãos sexuais femininos. O filme mostrava em close e em cores. Falou com Yolanda sobre o apartamento. A princípio, Yolanda recusou, disse ser perigoso, que não poderia correr risco. Que justificativa daria para estar lá, caso fosse vista por conhecida? Descartou a possibilidade. Dias depois perguntou o endereço do apartamento. No outro dia, abriu possibilidade:
- Você tem de chegar uma hora antes. Entrar da maneira mais discreta possível e ficar quieto. Vou uma hora depois. Deixe a porta fechada, mas não trancada. Quando chegar, entro. Não quero tocar campainha nem bater na porta. Depois que eu sair, você espera mais uma hora e só, então, sai.  Já estive olhando o prédio. Não vai haver problemas. Na terça, você me liga para confirmarmos. Irei na quarta ao meio dia. É um horário ótimo. As pessoas estarão almoçando. Você chegue antes das onze horas.
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Voltou a procurar o amigo. Pediu a chave do apartamento.
 -Você ainda tem o Viagra?
Após ouvir a confirmação, concluiu:
- Vai ser bom para você. Vai ter uma boa ereção. Vai fazer bem para o seu ego.
Na quarta feira, pouco depois das dez, entrou no apartamento. Não foi visto por ninguém. Em sua cabeça as principais cenas do filme pornô.  Fora orientado para tomar o Viagra uma hora antes. Iria tomá-lo às 11horas. O relógio do apartamento batia com o seu. Na hora prevista, meteu a mão no bolso e não encontrou o Viagra. Havia ficado na outra calça. Não podia voltar em casa. Havia o trato, de chegar uma hora antes e ficar quietinho.
Quarenta minutos depois, o barulho na maçaneta da porta o assustou. Ela entrou. Paulo exclamou:
- Veio mais cedo!
- Eu disse em torno do meio dia.
 Deu um rápido beijinho em Paulo e saiu olhando o apartamento. Percorreu todas as dependências. Enquanto olhava, ia falando:
- Acordei menstruada. Minha menstruação é muita. Sem condições.
Paulo, quase aliviado, disse:
- Não tem problema... fica para outra oportunidade.
Ainda vasculhando tudo, retrucou:
- Nada disso. Já estamos aqui. Antes de ir, vou dar um trato em você.
 Meia hora depois, quando ela saiu, Paulo, ainda segurando a calça, passou a chave na porta e se preparou para aguardar o tempo combinado. A pergunta de Yolanda não lhe saia da cabeça:
- Quer que eu enfie o meu dedo em você? Há homens que adoram.Quem sabe?
Foi a primeira vez que disse um “não”, um “não” decidido para Yolanda.
A sugestão de Yolanda, também ficou gravada em sua mente:
- Acho que você deveria procurar um analista. Você ainda é muito jovem. Pouco mais de cinquenta. Não há justificativa. Eu, modéstia parte, sou um pedaço de mulher. Deve estar havendo algum bloqueio que um psicanalista poderia resolver.
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Quando devolveu a chave, mentiu. Disse que tudo havia corrido conforme o previsto. Na realidade, de nada adiantara o aprendizado com o filme. O Viagra acabou indo para a lavanderia, esquecido no bolso da calça.
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Decidiu-se por um psiquiatra recém-formado. Achou que se sentiria mais confortável com um jovem. Sua intuição não o induziu a erro. Duas vezes por semana as sessões de uma hora com o Dr. Walter ganharam a sua confiança. Os progressos foram aparecendo, lenta, mas progressivamente. O médico lhe disse que seus problemas estavam relacionados a diferença de sintonia. Duas personalidades muito distintas. Um puro, um homem fora da época e uma mulher com sexualidade exacerbada e mutações de personalidades. Enquanto se tratava, os encontros, embora esporádicos, continuavam. Ela incentivava, dizia que o tratamento estava sendo eficiente.
Paulo tinha uma certeza. Foi bom que Yolanda se mostrasse, logo no primeiro encontro, como era. Se ocorresse o que imaginava, teria ido procurar João Renato, dizer-lhe de sua paixão.  Teria sido uma burrice imensa. Essa descoberta e a ereção que já começava a acontecer, mudaram a condução do seu relacionamento.  Quando isso ocorreu, já estava com três anos de tratamento. Entendeu que o que a psicanálise poderia fazer por ele, já havia feito. Agradeceu ao médico e deu por encerrado o tratamento. Nada falou com Yolanda. Procurou o urologista que lhe haviam recomendado. Outro sucesso. Receitou o Viagra e ensinou-lhe a filosofia da ação do medicamento dizendo:
- Para que funcione, há necessidade do clima de erotismo. Se tomar Viagra e for a uma missa, certamente nada ocorrerá. O clima é fundamental para que a medicação funcione em toda a sua plenitude. Se na hora do encontro você estiver se questionando se alguém o viu, pensando em sua mãe ou no marido da moça, o efeito esperado não ocorrera. Precisa estar tranquilo. Sentir-se como se estivesse assistindo a um filme, onde tudo o que ocorre, por mais estranho que pareça, está totalmente sob controle, e é apenas um filme. Há um começo, um meio e um fim. Terminada a “sessão”, a vida volta ao normal. Tudo continuará em normalidade até que em um outro dia você resolva ter, se quiser, um novo encontro. Conseguido esse estado de espírito, tendo esta tranquilidade, o medicamento fará o resto. Você terá ereções como as que tinha aos dezoito anos.
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Marcou encontro. Tomou o medicamento. Foram para motel afastado, tranquilo, endereço novo. Sentiu-se seguro. Ainda no carro trouxe, para a mente as cenas do filme. Logo percebeu que estava em ereção. Uma ereção como nunca tivera. O Viagra funcionara. Ganhou confiança. Inverteu o jogo. Na garagem do motel, falou-lhe no ouvido:
- Hoje eu vou lhe dar uma surra.
Ainda no carro, dentro da garagem, Paulo investiu. Surpreendida, Yolanda levou a mão para tocá-lo. Já o encontrou com a calça aberta, uma ereção até então desconhecida.
- Meu Deus, você está lindo!
No quarto, utilizou-se de todos os recursos que vira no filme. Não deu chances para Yolanda que se limitava a gemer e a se contorcer. Foi o comandante de todo o embate. Antecipou-se o tempo todo. Na saída, percebeu, no lençol, um aguado de sangue.
- Está ficando menstruada?
- Não, você é que estava impossível, me tirou sangue, seu tarado. 
- Me perdoe, não tive a intenção.
- Não faz mal, bobinho. É assim que eu gosto. Bem selvagem. Você estava maravilhoso.
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Continuou visitando a mãe com frequência. Não mais para ver Yolanda. O encantamento já se dissolvera. Após o almoço, Dona Marta falou:
- A sobremesa é torta da festa de aniversário da filha de Yolanda. Foi ontem. Fez treze aninhos.
Em sua casa Paulo fez as contas. Se a menina tinha treze, aquele seu caso já tinha oito anos. Um milagre que ninguém ainda suspeitasse de nada. Assustou-se com as contas feitas. Já era mais do que hora de por fim naquela loucura.
O interesse dela, ao contrário do que ocorrera com Paulo, aumentou. Queria encontros mais frequentes. Ele não. Surgiram os conflitos. Quando achava que nada mais o surpreenderia, veio o pedido de Yolanda:
- Quero um filho seu.
Fingiu não ouvir. A solicitação foi repetida. Olhando para ela, sorriu. Não disse sim nem não. Seus pensamentos trabalhavam:
- É ainda mais louca do que pensei.
A partir daí teve a certeza de que deveria terminar. Excluiu a possibilidade de conversa. Não daria certo. Precisava se afastar de imediato. Resolveu radicalizar. Decidiu por fazer-se de morto. Afastou-se sem dar nenhuma explicação. Não mais telefonou, não atendeu as ligações e rareou as visitas à casa da mãe. Yolanda apelou para as mensagens no celular.  Recebeu três e não respondeu. A última dizia:
- "Não sei o que houve. Deve ter sido coisa muito séria. Gostaria de ter a oportunidade de me defender. Nunca corri atrás de homem, não haverá de ser agora. Se você não me retornar, não vou importuná-lo novamente".
Manteve-se em silêncio. Passaram-se quarenta dias e Yolanda, também, como anunciara, em silêncio. Não pensou que seria tão fácil. Temia um escândalo. Nada ocorreu. Yolanda cumpriu o prometido; não mais o procurou, não mais apareceu na varanda. 
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Naquele domingo, já estava há três meses sem, nem ao menos, ver Yolanda.
Deixara de ir na casa da mãe durante a semana. Alegando compromissos passou a ir almoçar domingo sim, domingo não. Quando ia, chegava quase na hora do almoço. Artifício para evitar Yolanda. Foi assim, também, naquele domingo. Na casa da vizinha, aparentemente, ninguém. O que não contava era com a novidade que a mãe lhe trouxe:
- Ontem encontrei-me com Yolanda, o marido e a filha. Estavam todos muito alegres. Seu xará todo orgulhoso. Yolanda está grávida. Haviam acabado de saber que a criança é um menino. Yolanda está felicíssima. A menininha não esconde a alegria com a vinda do  irmãozinho. O filho vai se chamar Paulo. Mais um xará. O pai está todo orgulhoso.
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