No
vagão de segunda, no banco de madeira, lutava contra o sono. Temia o roubo da
mala. Nela as roupas e o dinheiro que tinham. Ao seu lado, a mãe dormia. Nem o
apito da máquina, nem o sacolejar do vagão pareciam perturbar o sono de Dona
Gigida.
Melhor
assim. Desligava-se daquela desgraceira toda. Foi sorte o padrinho ter sabido e
corrido para lhe dar a notícia. Arrumou a mala, pegou a mãe, o dinheiro e
embarcou no primeiro trem. Medo que corresse mais sangue. O dele, o da mãe e o
dos irmãos. A morte do pai poderia ser
só o início da vingança. Quem sabe o que passava na cabeça dos filhos do
vereador. Gente violenta de façanhas reconhecidas em toda a região. Brigavam
entre eles mesmos. Um irmão já matara o outro por discussão besta, em plena
mesa do almoço. Os quatro malucos já podiam estar atrás dele. Não ia ficar
aguardando para ser morto, para ver a mãe morta. Fizera o que era certo. Sorte
também estar na hora da partida do trem. Política é só problema. Não fosse por
ela o pai não teria matado, não estaria morto. Fizera bem em fugir no trem. Já
haviam feito três baldeações. Pouco provável que alguém seguir, com
êxito, seu rastro. Agora, já com dois dias afastado de Santa Madalena, o
coração não mais o oprimia, não sentia o peso da ameaça. Fizera bem. Lá não
poderia continuar. Acabaria sendo morto. Os do Silva não brincavam no serviço.
O cheiro da vingança estava no ar. Não se limitariam ao pai. Matariam ele, a
mãe e os irmãos. Tocaia ou provocação.
Nunca conseguira entender aquela paixão
do pai pela política. Uma trabalheira de louco a troco de nada. Em época de
eleição sumia de casa por quase três meses. –“Sou cabo eleitoral”, dizia.
Largava tudo: a horta, as galinha, e os porcos. Só voltava tarde da noite. Cedo,
caía fora. O que ganhava? Nada. O terno único, ainda era o do casamento. Cedo
ia de casa em casa anunciar o comício da noite. Distribuía os “santinhos” e
estufava o peito para dizer: -“Sou cabo eleitoral”.
Em casa as panelas vazias, a mãe no tanque ralando para pagar o aluguel. Nestas épocas Walter trabalhava ainda mais. Acordava, cuidava da horta e da criação, varria o quintal e ia para a rua revirar latas de lixo procurando resto de comida para dar para os porcos. Depois ia a cidade vender verduras e ovos que nunca podia comer. Sete quilômetros percorridos a pé.
Em casa as panelas vazias, a mãe no tanque ralando para pagar o aluguel. Nestas épocas Walter trabalhava ainda mais. Acordava, cuidava da horta e da criação, varria o quintal e ia para a rua revirar latas de lixo procurando resto de comida para dar para os porcos. Depois ia a cidade vender verduras e ovos que nunca podia comer. Sete quilômetros percorridos a pé.
Não
se lembrava de ter brincado, de ter tido um único amigo. De brinquedo só a bola
de meia. Esta ia onde ele fosse. Fora a bola, trabalho e barriga doendo. Fome.
A mãe se matando no tanque e o pai cabalando votos nos botequins.
(Foto - Jardim do Paço Episcopal - Castelo Branco - Portugal)
(Foto - Jardim do Paço Episcopal - Castelo Branco - Portugal)
Quando o padrinho trouxe a notícia só pensou em cair fora. O pai, esbofeteado, revidou com uma canivetada. Debaixo da mama, bem no coração . Foi fatal. O velho Silva não pode nem ser socorrido. O pai foi levado para a delegacia. Em minutos os filhos invadiram a delegacia. Fuzilaram o pai. Foi o que o padrinho contou. Não adiantava querer saber mais nada. Pegou a mãe e tratou de ganhar mundo. O padrinho, homem de posse, deu-lhe algum dinheiro. Não recusou. Não podia. Agradeceu e disse que tomava como um empréstimo. O padrinho saiu de lá para avisar aos seus irmãos. Os dois, se tiverem juízo, também deverão cair fora.
A mãe não derramou uma única lágrima.
Nada questionou. Arrumou a mala em silêncio. Certamente
entendia a gravidade do momento. Sabia que não havia alternativa. Ficar era
esperar a morte. O filho Walter, sempre fora sua verdadeira companhia. Devia saber
o que estava fazendo. Sempre muito correto. Pena não ter podido completar os
estudos. O pouco que sabia fora ela que lhe ensinara. Inteligência não lhe
faltava. Nas revistas velhas aprendeu a ler, decifrando as palavras. Se tivesse
tido chance ia longe. Quando foi servir o exército aprendeu a cortar cabelos e
a dirigir. Lia e escrevia. Já o marido, um grande trapalhão! Tanto procurou que
encontrou. Os do Silva eram muito violentos. Sabiam da impunidade. Sentiam-se
os donos da cidade. Ninguém ousava censura-los.
---
-“Barra
do Piraí... passageiros com destino a Barra do Piraí... estação de Barra do Piraí
dentro de dez minutos”. O grito do bilheteiro acordou a mãe.
-“Walter...
estamos chegando”?
Olhou
para a mãe e sorriu. Segurou sua mão e falou:
-“Está
cansada, não é mãe? É uma tal de Barra do Piraí. O que você acha?
A
mãe devolveu-lhe o sorriso e disse: -“É um nome bonito... Barra do Piraí! Quem
sabe aqui vamos ter sossego! O que você acha”?
Aquilo lhe pareceu um bom presságio. A
mãe ter acordado logo ali. Podia ser coisa de Deus. A mãe achara Barra do Piraí
um nome bonito. Ali, ninguém pensaria em procurá-los. Não
tinha mesmo um destino certo. A última passagem comprada foi para Volta
Redonda. Quem sabe Barra do Piraí? Chamou o bilheteiro.
-
“Chefe...minha passagem é para Volta Redonda”
-
“Volta Redonda? Trinta minutos depois de Barra do Piraí”.
Perto, pensou. Se vier a se arrepender
mais tarde continua a viagem. Alguma coisa lhe dizia para saltar em Barra do
Piraí. A escolha por Volta Redonda fora em função da siderúrgica. Lá poderia
conseguir emprego com mais facilidade. Barra do Piraí... quem sabe?
-
“Mãe... vamos descer em Barra do Piraí”?
A
mãe sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Walter olhou para a mãe e
também sorriu. Beijou-a na testa.
-
“Então Barra do Piraí é o nosso destino”.
---
Quando
o padrinho emprestou o dinheiro, perguntou-lhe o destino. Não soube responder.
Saíra sem saber para onde. Sabia apenas que em Santa Madalena não
mais poderia ficar. O grito do bilheteiro decidiu por ele:
-
Barra do Piraí... próxima parada Barra do Piraí.
Já
fora da estação constatou que a rua era movimentada e cheia de hotéis.
Pareciam-lhe hotéis simples, de preços bons. Um dia de descanso faria bem para
os dois. Consultou Dona Gigida que aceitou a sugestão. O quarto onde ficaram
era o 204. Por sugestão da mãe resolveu fazer uma “fezinha” na centena.
Acomodou a mãe na cama, tomou um banho e foi conhecer a cidade. Quase ao lado
do hotel, um ponto de bicho. Jogou no número do quarto. Caminhou, informou-se e
foi a uma imobiliária. Abriu o jogo com o atendente. Precisava de uma casa
pequena, ele e a mãe e de aluguel barato. Podia ser coisa simples pois não
estavam acostumados com luxo.
-Acho
que o senhor deu sorte. Tenho uma casa modesta de sala, dois quartos, cozinha e
banheiro. E ainda tem um quintal. É uma casa bem antiga, mas está em bom estado.
O problema é que é afastada, bem afastada, mas o preço é convidativo.
Viu a foto da casa. Simpatizou com ela.
-
Há ainda um outro problema...o antigo morador era barbeiro. Abandonou a casa
sem pagar três meses de aluguel. Deixou na sala, que usava como barbearia, uma
cadeira de barbeiro. Coisa pesada, não deu para ele carregar na fuga.
-
Mãezinha, seu palpite estava certo. Você ganhou.
Deu-lhe
o envelope: - Conte. É muito dinheiro. Guarde. Vai ser a nossa reserva. Pode
ser que ainda venhamos a precisar.
---
Naquele terceiro sábado de barbearia
aberta, batera o seu recorde. Cortou onze cabelos e fez cinco barbas. Já ia
fechar quando entraram mais dois clientes. Sorriu feliz, ofereceu, com gesto
amigável, a cadeira. Um deles sentou-se. O outro ficou nas cadeiras dos que
aguardam e informou:
- Não
vou cortar. Estou apenas de companhia.
Walter acomodou o cliente na cadeira, colocou-lhe o avental branco e indagou:
– Qual
o corte?
O
cliente, encoberto pelo avental, mexeu com as mãos e, por baixo do avental, apertou o gatilho. Disparou
dois tiros no peito do barbeiro. Walter, com o impacto das balas, foi jogado
para traz. O homem, sem pressa, levantou-se da cadeira, jogou o avental para o lado e, quase a
queima roupa, deu mais três tiros no rosto do barbeiro. Embora com algum atraso,
estava se colocando uma “pá de cal” na tragédia de Santa Madalena.
(Foto - Jardim do Paço Episcopal - Castelo Branco - Portugal)
