sábado, 5 de julho de 2014

EM 1980 A UMBANDA AINDA IA À PRAIA


      
Sol a pino e a praia de Muriqui já quase que totalmente loteada pelos centro espíritas. Seu Zeca informou:
      
-“Já têm quarenta e um centros na praia.”
      
Quando começou a escurecer caiu um “toró” digno do dilúvio bíblico. Pensei:

-“Pena... Tantos preparativos, tantos gastos, e tudo por água abaixo.”.
       Mal a chuva terminou, para surpresa minha , os primeiros sons dos atabaques anunciaram os inícios das festividades.
       Notícias trazidas pelos vizinhos davam conta de que nos calçadões da outrora pacata praia de Muriqui vendia-se e comprava-se de tudo: velas, churrasquinho, flores, goiaba, cachaça, espelho, caranguejo, foguete, horóscopos camisinha e, sobretudo, bebida. Muita bebida.
       Meu filho de dez anos entrou em casa pedindo o jantar e falou:

- “Tem um homem morto aí no portão.”.
      
Após tentar absorver o impacto da notícia, ainda incrédulo, dirigi-me ao portão. Um rapaz de cor parda, só de calção, em total embriagues, dormia na calçada. Dos males o menor. Após agradecer a Deus por meu portão não ter sido utilizado para “desova” voltei para a tranquilidade do lar.
       Pouco depois das vinte e duas horas resolvemos, minha mulher e eu, dar uma olhada na praia. No portão constatei que o da bebida ainda dormia a sono solto. Dei-lhe uma ligeira cutucada com o pé para me certificar se estava vivo mesmo. Uma pequena contração em seu joelho me tranqüilizou.
       O quinto ou sexto centro nos chamou a atenção. Iluminação obtida por gerador próprio, um imenso toldo colorido para proteger de possível chuva, baianas de diversas cores, demonstrando requinte e bom gosto acima dos demais.
Minha mulher exclamou:

-“Aposto que o dono é bicheiro.”.
      
No meio das tradicionais “comidas de santo” uma imensa torta destacava-se. Alguém do centro pediu licença para o céu e abriu uma garrafa de champanha. Não essa champanha tradicional, mas aquela utilizada no “podium” das Fórmulas 1.
Minha mulher reforçou:

-“Bicheiro e de Nilópolis.”.
      
Foi anunciado o aniversário de alguém. A mais bem vestida das baianas levantou-se e foi aplaudida. Tratava-se de uma senhora alta, forte e de aproximadamente cinqüenta anos. Entre os espectadores a baiana foi apanhar um rapaz junto do qual cortou o bolo.

Minha mulher sentenciou : -“Deve ser o filho dela.”
      
Novos aplausos e a baiana começou a oferecer pedaços de torta aos do centro e, depois, aos espectadores. Alguns minutos se passaram e a distribuição se aproximou de nós. A barba recém-feita e os pelos do braço permitiam a conclusão de minha mulher:

-“Meu Deus... A baiana é um baiano.”
      
Retornamos para casa. O aumento do foguetório anunciou a aproximação da passagem do ano. Resolvemos voltar à praia para ver os barquinhos que são lançados ao mar à meia-noite. Agarrado ao meu portão, com cara de quem está assistindo ao fim do mundo, o “ex-falecido”, assustado com o foguetório da virada de ano, perguntou: “Senhor... o que é que está acontecendo?”.
      
Limitei-me a responder-lhe:

“Feliz 1980.”.
      


      
      


4 comentários:

  1. Retratou muito bem as manifestações religiosas de fim de ano. O loteamento das praias...rsrs Gostei muito, meus parabéns!

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  2. Vera Monteiro escreveu: -"Ká, ká,ká. A barriga tremeu de tanto rir, pois estava deitada. Escreveu tão bem que pude visualizar todas as cenas Kkkkkkk. Saudades... Passei a limpo em minha mente aquele tempo tão bem aproveitado. Vivemos mt. Obrigada " Tio Orlando" de vc proporcionar tanta alegria que veio lágrimas nós meus olhos. Betoca era assim mesmo falava dando-nos alegria de dar boas gargalhadas."

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  3. Márcia Tavares escreveu: -"Parabéns Orlando! Sou sua fã. Adoro seus contos e poemas. Nos anos 80 ia à praia de Icaraí para que meus filhos apreciassem essa manifestação cultural."

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  4. Maria Célia Marques escreveu: -"Que maravilha de conto tão bem narrado por você Orlando. Também me senti lá em Muriqui nos anos 80. Sabe que meus pais nos levavam frequentemente em Muriqui nos finais de semana para tomarmos banho de mar. Apenas uma vez, no carnaval, nos hospedamos numa Pousada com chalezinhos distribuídos ao longo de um espaço onde visualizávamos o mar. Somente eu, mamãe e papai. Foi como um sonho."

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