Foi tudo muito
tumultuado e demorado, inclusive a queima de fogos. Amigos e correligionários,
na base aérea de Guarujá, preocupados com a demora, tentavam comunicação. Os
celulares não respondiam. De repente, a queima-roupa, a notícia na televisão
marcou, definitivamente, no final da manhã chuvosa, a quarta feira, 13 de
agosto.
Imagens, confusas e
fragmentadas, não comprovavam nada. Em nenhuma o avião caído, os corpos dos
sobreviventes. Um terreno vazio levou alguém a falar no espírito humanitário do
piloto. As primeiras explicações vieram com os moradores do bairro do Boqueirão
em Santos. Uma disse ter visto o avião em chamas. Outro, o avião passando de
lado entre dois prédios. Alguém falou em meteoro, pensou que já era o fim do
mundo. Todos falaram em uma grande explosão. A aeronave havia se fragmentado.
Com os corpos o fenômeno foi mais severo; fragmentações humanas foram
encontrados a mais de um quilômetro do local da queda.
Cinquenta legistas
isolados e em tempo integral, com uma missão impossível. Com grandes
expectativas televisivas, anunciaram ingênuas radiografias dentárias. Era
preciso mais, muito mais. Talvez Deus ou então cerrar os olhos para que se
pudessem fechar os caixões. Eram sete. A política tinha pressa. Recife queria
os corpos, precisava do velório, queria fazer o sepultamento. Lacraram os
caixões.
Do alto, a visão do cortejo, lembrava os gigantescos
blocos carnavalescos que, nas quartas, encerram os carnavais de Recife.
Parecia, tanta gente junta e tantos políticos, um
comício. As vaias dadas a um deles mostravam o outro lado da moeda. No meio da
tragédia o poder estava em jogo.
Tão forte como a comoção, próxima aos familiares, a
presença frágil da mulher que lembra Gandhi e que, predestinada, como fora em
toda a sua vida, renascia naquela tragédia.
O foguetório parecia não acabar, e enganava a todos
com falsas pequenas paradas, fazendo com que os aplausos, última homenagem
antes da descida do caixão, se repetissem em série e atrasassem o ponto final de
uma tragédia que já demorara tanto e que parecia não querer mais ter fim.
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O tempo estava fechado. Chovia e o
vento não era favorável ao pouso. A aeronave, entretanto era uma máquina
moderna, tinha pilotos experientes e não teria problemas. Descontração total,
preocupação nenhuma. O avião é pequeno e estreito. Os bancos ficam enfileirados
dois a dois com um corredor de acesso entre eles. A aproximação é muito forte.
Os passageiros conversavam animadamente curtindo o sucesso das entrevistas dadas,
na véspera, na televisão. Eram quatro além do candidato. Já haviam afivelado os
cintos de segurança quando ouviram a voz do piloto:
- “Não vai dar para fazer o pouso.
Vou arremeter e reiniciar os preparativos para uma segunda tentativa”.
O copiloto, até então tranquilo,
aprumou-se e ficou em uma espécie de emergência. Não notou que seu companheiro,
naquele exato momento, havia tombado a cabeça, para frente e para o lado
esquerdo. Percebeu, então, que o avião, ao invés de subir, estava imbicado, em
alta velocidade, aproximando-se do chão. Olhou para o companheiro e só então o
viu com a cabeça tombada. Constatou, então, que o piloto estava inconsciente, a
aeronave estava à deriva. O copiloto viu os dois prédios e, instintivamente,
inclinou o avião. Após passar com sucesso pelos dois prédios, o avião
projetou-se, de bico, no único terreno vazio na área residencial.
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Ronaldo deu por encerradas a sua
fala e a sua caminhada. Considerou que havia descrito, razoavelmente bem, o que
achava que havia acontecido. Já havia completado suas oito voltas. Durante
quase todo o tempo falaram na queda do avião. Tinha um encontro, no bar do
clube, marcado com "Claudionor". Não podia faltar.
Nestor que o acompanhara na
caminhada dominical, naquela manhã ensolarada, cheia de vida, decidiu parar
também, mas antes se posicionou:
- É possível, tudo é possível. Já
ouvi falar em atentado, em bomba, até em tiro derrubando o avião. Alguns
moradores garantiram que, antes de cair, o avião já vinha pegando fogo. Vai ser
mais um caso sem solução.




Cybele Pimentel escreveu: -" O texto está muito bom com recursos de feedback e com o relato do mal súbito do piloto. O veneno da dúvida da sabotagem e a coragem da análise da urgência de se fazer o enterros de corpos inexistentes dão o sabor do humor negro que puxam o leitor para o drama da vida real. E o maldito foguetório que parecia não acabar mais transmitirá aos que estiverem lendo o seu bonito texto a sensação de que há pessoas que não percebem a hora de acabar. Ronaldo Ayres vai adorar ter virado personagem do seu relato".
ResponderExcluirÓtimo! Estava muito interessado no conto, me senti ali dentro daquela aeronave, ouvindo a conversa. De repente tudo se transforma em fragmentos...minha nossa! Sete caixões lacrados, sendo que: num deles as possíveis partes de um todo do grande líder...o texto segue para o desfecho final, o enterro...o cortejo fúnebre seguindo o ataúde...sonhos e planos,encerram ali...Mas, eis que de repente me vejo dentro do texto...rsrs. Fiquei surpreso e confesso que me senti envaidecido. Meus parabéns, ficou muito bom!!!
ResponderExcluirNatália Nami escreveu - sobre seu conto:
ResponderExcluir"A política tinha pressa. Recife queria os corpos, precisava do velório, queria fazer o sepultamento. Lacraram os caixões." Releio suas palavras, com um arrepio. Medo de, um dia, quando lacrarem os nossos, alguém disfarçadamente relancear o relógio, com horror de perder a novela. O café. O jogo. O inútil inadiável nosso de cada dia.