O passar dos anos não corroeu a beleza, mas fez estragos na reputação. Com o casamento, passou a ter o comportamento questionado. Fazia cobranças. Decote generoso, sem sutiã e sem pressa. Nunca deixara de receber, era o que diziam.
Ciclismo e academia das sete ao meio dia. Na parte da tarde, as cobranças.
Sem aviso prévio, sem explicações, Carlinda desapareceu. Depois de sumiço de trinta dias, reapareceu com os seios aumentados. Grandes demais, os comentários. Desagradou a muitos. Com os seios pequenos, livres, causava grande expectativa. O novo tamanho exigia o sutiã.Para muitos, perdeu a graça.
A cirurgia foi após o aniversário de dois anos da filha. A amamentação teria enfeado seus seios. Aproveitou e realizou sonho da adolescência; seios maiores. O que não se podia imaginar é que os queria tão grandes.
O casamento manteve-se por muitos anos, quase trinta. Mais não deu. Não ficou claro o motivo. De certo, um alvoroço certa noite em sua casa, gritos da filha que já havia debutado, palavrões. Os comentários ficaram por conta dos vizinhos.
---
Era dela a casa, herança de família. Pai e filha foram os que saíram. Nunca mais notícia dos dois. Certamente, mudaram de cidade.Ficou um tempo recolhida. Não muito. Reapareceu de namorado, um solteirão bem mais velho. Os amigos acataram com alguma incerteza. O caso durou pouco mais de ano, mas parece ter sido uma longa lua-de-mel. De hora para outra, deixaram de circular juntos. O coroa voltou às antigas rodinhas. Parece que foi ele quem jogou a toalha. Os amigos acham que não aguentou o repuxo. Parece que ela exigia demais e que ela não era só noturna. Tomava remédio,ficou com medo de enfartar.
A versão dele, outra. Muito gastadeira, acima das suas posses. O certo é que Carlinda estava, novamente, sozinha. Os olhos em cima, não eram poucos. Reatou flerte do tempo de adolescente. Cinquentão como ela. Os amigos aplaudiram. Finalmente, final feliz. Não foram morar juntos. Visitavam-se. O fim das noites podia ser em qualquer uma das casas. Os dois se esmeravam para dar, um ao outro, o melhor possível.
---
Naquela manhã, foi pedalar no clube. Quando passou por Paulinho, que caminhava no mesmo sentido, cumprimentou-o sorrindo:- Bom dia, Paulinho.
Sem saber quem o cumprimentava, limitou-se a responder:
-Bom dia.
Surpreendeu-se ao identificar Carlinda. Sempre a olhara, mas, nunca, nenhuma receptividade. Aquele bom dia adocicado, sorridente e ainda acompanhado do seu nome, mudava tudo. Inverteu o sentido da sua caminhada. Queria cruzar de frente com Carlinda. Não demorou. A iniciativa, agora, foi dele:
- Bom dia de novo, coisa linda!
A isca foi mordida. Durante quatro dias seguidos pedalou no clube. Repetia o horário na esperança de revê-lo. Sempre o sorriso, o mesmo “coisa linda”. Sentiu-se bem com a novidade. Talvez, valorizada. Os homens da sua vida, sempre mais velhos. Paulinho, pouco mais de vinte. Quase trinta de diferença. As coisas se invertiam. Feliz com a cobiça do garoto. No sábado, quando cruzaram, Paulinho quase que ao seu ouvido segredou:
- Domingo vou caminhar na parte da tarde. Quero você aqui.
Riu sem parar de pedalar. Paulinho deu a missão por cumprida. Inverteu o sentido da caminhada. Quando tornaram a se cruzar, reforçou:
- Amanhã quero você aqui.
Carlinda não confirmou. Nem precisava. A alegria não deixava dúvidas. Paulinho foi embora. Parte da estratégia. Carlinda continuou pedalando. Em cada volta, a esperança frustrada de cruzar com ele, de ver novamente aquele seu menino lindo.
---
Era julho, domingo de tarde fria. Quatro horas quando chegou. Preocupava-se por não ter mencionado a hora. Falou apenas em domingo na parte da tarde. Sorriu. Paulinho estava na pista, parado. Quando foi se aproximando, sem que entendesse a razão, ele saiu da pista e entrou no bambual ao lado, como se quisesse esconder-se. Diminuiu a velocidade, sem parar, e olhou tentando entender o que havia ocorrido. Ficou com a impressão de que ele estava urinando. Continuou pedalando:- Mas era hora de urinar? Não podia segurar um segundinho? Que coisa estranha!
Na segunda volta ele estava no mesmo lugar e ao vê-la, tornou a entrar no bambual.
Diminuiu, novamente, a velocidade. Paulinho, decomposto, falou:
- Estou te esperando.
Acelerou as pedaladas, perplexa:
- Meu Deus! Não estava urinando. Estava se exibindo para mim. O que é que é isso? Esse menino é mais louco do que eu. Meu Deus, que loucura!
Parou em frente ao bicicletário. Precisava refletir. Acomodou a bicicleta e foi ao banheiro.
Tremia. Lavou o rosto. Tirou um dos brincos e o guardou no bolso. Precisava da justificativa. Voltou à pista caminhando, sem a bicicleta. Foi questionada:
- Já parou?
A resposta estava preparada:
- Perdi um brinco. Vou dar uma volta caminhando. Pode ser que ache.
Caminhava bem devagar, como se realmente procurasse o brinco. Próxima ao bambual olhou para trás. Ninguém. Diminuiu o passo. Paulinho não estava. Ficou parada com o brinco já em sua mão. Aproximou-se da entrada do bambual. Uma pequena trilha reta e no fim, uma curva.
Entrou. Percorreu, com cautela, até o ponto em que se formava a curva. Ninguém. Girava o corpo para retornar quando ouviu a voz:
- Sabia que você viria.
Assustou-se. Paulinho ainda decomposto e em ereção.
- É... perdi um brinco. Vim procurar. Já achei.
Mostrou o brinco.
- Que bom! Você hoje está com sorte! Venha cá.
Com o coração disparado, olhou para a entrada da trilha. Guardou o brinco no bolso. Sorriu. Primeiro um sorriso sem graça, nervoso. Depois, com certa dificuldade em função da irregularidade do chão, caminhou em direção a Paulinho.

Gosto muito deste conto, estava relendo ...rsrs, me prendeu a atenção. Bem imaginado e perfeitamente narrado!! Meus aplausos!!!!
ResponderExcluir