domingo, 11 de maio de 2014

ROSEMAR PIMENTEL



Rosemar Muniz Pimentel nasceu em 20 de Novembro de 1905 em Niterói. Desfaz-se aqui, um equívoco frequente que dá Rosemar Pimentel como paulista, nascido em Lorena. Lá, Rosemar Pimentel passa apenas parte de sua infância e as férias escolares de sua juventude e adolescência. Deste equívoco não se livrou nem Pedro de Alcântara que em seu livro - "232 Poetas Paulistas" às páginas 475 e 476, publica os versos - "Prece" e "Versos a um poeta doente" - de Rosemar Pimentel e o dá como nascido em Lorena.
O primeiro e único livro publicado por Rosemar Pimentel tem o título de ILUSÕES MORTAS. Foi editado em 1922 pela Papelaria Brazil, então situada na Rua da Quitanda, no Rio de Janeiro. Trata-se uma coletânea de versos, feitos aos dezessete anos, e com a qual, Rosemar Pimentel nunca se encantou. Na realidade, são versos que apenas esboçam o grande poeta que eclodiriam oito anos depois.
Aos quatorze anos, órfão de pai, vê-se obrigado a lutar pela vida. Vai para o Rio de Janeiro onde, paralelamente aos seus estudos, exerce diversas atividades. Trabalha como revisor em diversos jornais. Já na época, com bom conhecimento da língua francesa e da vida boêmia do Rio de Janeiro, serve de guia aos oficiais dos navios que com alguma frequência atracavam no cais da Praça Mauá. Em seu próprio dizer, eram dias de "opulência e fartura" que contrastavam com o quarto de pensão barata que dividia com mais três colegas.
Outro equívoco que, a bem da verdade me compete desfazer, é o tão decantado amor por Lorena. Na última página de um caderno, onde reuniu alguns de seus poemas, durante um período de férias passadas em Lorena, o poeta escreve:
"-São 3h45min da tarde. Rio! Ainda bem que não te demorarás muito tempo, ó cidade da maravilha e do perfume."
Acrescente-se, a isto, o fato de que, durante todo o seu período de vida em nossa cidade, Rosemar Pimentel nunca manifestou o desejo de rever Lorena, nem mesmo em simples viagem de fim de semana.
A verdade é que Rosemar Pimentel ligou-se, afetivamente, a apenas dois lugares: Rio de Janeiro, durante sua juventude, e Barra do Piraí durante o resto de sua vida.
Em 1924 reúne em caderno 25 poesias que deveriam constituir o seu segundo livro de versos. Receberia o título de Poemas do Tédio. Entre eles, um de seus melhores trabalhos poéticos: "POEIRA". Contava o nosso poeta com apenas 19 anos:

POEIRA

Esquece, o meu amor que te consome
Nem bom, nem mau, há de passar, querida
 Apenas outro anseio apague o nome
De mim, do meu olhar, da minha vida.

Há de passar... Depois de uma saudade,
 E depois esquecida e indiferente
Hás de me olhar na mesma ansiedade
Com que vives olhando a toda gente.

  E depois ao reveres a memória
De ti, de mim, do nosso pobre amor,
Hás de te rir da nossa humilde história
Sem nome, sem tumulto, sem valor...


Em princípios de 1930 reúne em outro caderno, 42 poesias, as últimas que faria com a intenção de publicar. Nestes manuscritos evidencia-se que, aos vinte cinco anos, o poeta Rosemar Pimentel está completamente formado. O livro receberia o título de Poemas da Melancolia. Entre estes, os mais divulgados foram: "Num Adeus" e "Eterna Ausente".

 NUM  ADEUS

Vai... Sê feliz... Que a vida mentirosa
Ponha um rosal de estrelas no caminho
Por onde foges pálida e nervosa
Da aleluia pagã do nosso ninho.

Vai... Não te punja a mágoa dolorosa
De quem viveu teu sonho e teu carinho
E não terás mais pétalas de rosa
Para enfeitar o coração sozinho

E eu que te amei, agora que te vejo
Partir... E a nossa história terminar
Sufoco a voz da carne e do desejo

E como um doido beijo-te a chorar
Como se a dor imensa do meu beijo
Fosse capaz de te fazer voltar.


 ETERNA AUSENTE

Vens... Não virás... A dúvida me invade
Faz frio lá por fora, tanto frio...
E a chuva tonta de serenidade
Molha a varanda em que teu vulto esguio
Era a saudade quieta, era a saudade
das últimas cigarras desse estio...  

Vens... Não virás... Não sei... Eu sempre espero
(Ah!  Pouco importa que te espere em vão...)      
E quem sabe se em tua meninice
Tenhas piedade assim dessa aflição
E venhas aquecer minha velhice
Dentro do outono do teu coração

Vens... Não virás... Aquela história ida
Foi o único amor que a gente quis...
Durou tão pouco essa ilusão, querida,
Ah!  Depois  que partiste comovida
Eu nunca mais me pude ver feliz...

Vens... Não virás... E a chuva continua
é o inverno que volta, é o fim do outono...
Canta uma voz de mãe no fim da rua...
(Ah!  Quem me dera que neste abandono
eu tivesse uma voz igual a tua
para embalar o tédio do meu sono...)

Vens... Não virás... O amor é como o espinho
Enche a vida de pétalas e ais
Tens decerto outro amor, tens outro ninho.
Não vens... Mas eu te espero entre os rosais
Como esse alguém que a gente espera sempre
E que se sabe que não volta mais.

Em fins de 1930 Rosemar Pimentel chega em Barra do Piraí. O porquê de Barra do Piraí foi e ainda é uma incógnita. Em brilhante necrológio a Rosemar Pimentel, publicado no nº. 2 da Revista Cultura, o saudoso professor Wilson Nóbrega, no primeiro parágrafo da página quatro, escreve:
"- Da sua meninice, da sua juventude, das razões que o trouxeram, nunca disse muito. Uma vaga notícia de que sua alma sensível e ingênua passara por um frêmito, um alvoroço."
O ilustre Wilson Nóbrega que foi, indubitavelmente, quem melhor entendeu a figura humana de Rosemar Pimentel, referia-se a uma grande paixão que, a partir de 1926, como um turbilhão, invade o coração de Rosemar Pimentel."
Não foi este, em meu pensar, o motivo da vinda de Pimentel para Barra do Piraí. Sem nenhuma comprovação, levantando apenas mais uma hipótese, creio que Rosemar Pimentel deixa o Rio temeroso de tornar-se vítima dos vitoriosos da Revolução de 1930.
Baseio meu raciocínio nos seguintes fatos:
Rosemar Pimentel, legalista, escrevia em alguns jornais. Como homem de imprensa ficou extremamente vulnerável. A Revolução de 1930 eclode em outubro e, às pressas, Rosemar Pimentel deixa o Rio de Janeiro. Estava a um mês de se tornar bacharel em Direito pela Faculdade Nacional. Não aguarda as solenidades de formatura e nem retorna ao Rio para participar delas. Segue direto para um sítio em Ipiranga, sem se deter em Barra do Piraí e lá fica, por mais de um mês como quem aguarda a poeira assentar. Só depois aparece em Barra do Piraí. Leva mais de um ano para retornar ao Rio de Janeiro. Só o faz para ir a Secretaria da Faculdade e, sem aviso-prévio, retirar o seu diploma.
Em 1933 participa da fundação do Ginásio Municipal Nilo Peçanha. No dizer de Wilson Nóbrega, "foi a obra que o realizou e em relação à qual seu entusiasmo foi permanentemente juvenil. Ninguém o superou como professor. Ensinava a pensar , a falar e a escrever. Estimulava seus alunos para a Literatura, a Arte, a Beleza, esquecido de que o maior estímulo era ele mesmo, exemplo vivo, a palavra fácil, clara, fluente, bonita e correta".
Com o surgimento do mestre, desaparece o poeta. Não que a inspiração, como um passe de mágica, houvesse sumido. As mensagens vanguardistas vindas da Europa e o linguajar dos Modernistas na Semana de 1922 trouxeram a Rosemar Pimentel a impressão de que a era romântico-parnasiana chegara ao fim. Seus poemas, caso se confirmasse sua impressão, estavam irremediavelmente condenados antes mesmo de sua publicação. Nosso poeta prefere esperar uma definição mais nítida das tendências literárias. Disto, nunca se arrependeu. João Cabral, Manuel Bandeira e Drummond, todos modernistas, foram para ele os grandes da poesia. Inúmeras vezes o ouvi citar, como exemplo do Belo, a frase poema de Drummond: - "Itabira hoje é apenas um quadro na parede. Mas, como dói".

É no depoimento de Dalma, uma de suas alunas, que busco crédito para meus argumentos. Em discurso-poema pronunciado por ocasião de seu ingresso na Academia Barrense de Letras, a professora Dalma Portugal do Nascimento assim se expressa:

"- E assim... as pugnas estéticas transcorriam exacerbadas até que Rosemar Pimentel, também da confraria, foi amenizando às repulsas ao Modernismo da geração do Bar Lili. O brilhante Pimentel introduziu, nos companheiros da noite e nos seus discípulos do Ginásio Municipal Nilo Peçanha, a linguagem neológica, o adensamento da frase, a efabulação mágica de Guimarães Rosa, estabelecendo ponte de paz entre Barra e o Modernismo já firmado".

Já consagrado como mestre, na segunda metade da década de 1940, Pimentel começa a se projetar como criminalista.  Cria uma escola de oratória que deixa inúmeros discípulos entre os quais: Dr. Ivanyr Gussem, Dr. Gabriel Villela e Dr. Raphael D'Amatto, para citar apenas os que permanecem em nossa cidade e cuja carreira temos acompanhado.


Atinge o ápice como criminalista com o crime de Toneleros que envolve Carlos Lacerda e leva o Presidente Getúlio Vargas ao suicídio. A defesa de José Antônio Soares, um dos envolvidos, esteve a cargo de Rosemar Pimentel e Cândido Camargo.
No livro "Getúlio Vargas e o Crime de Toneleros", Hugo Baldessarini, às páginas 315 e 316 assim se expressa:
"- O advogado Rosemar Pimentel se constituiu em agradável surpresa. Produziu a melhor de quantas defesas foram produzidas no Processo de Toneleros. Erudito e profundo ao examinar a doutrina, foi o único que investiu contra o excessivo rigor do Código Penal, agradando a todos aqueles que conhecem alguma coisa de Direito. Não agradou, porém, ao público, particularmente, porque não mentiu, não mistificou nem fez pilhérias".

Na década de cinquenta, Rosemar Pimentel rende-se, incondicionalmente ao modernismo. Surge, então, o Rosemar Pimentel contista, inédito e ainda desconhecido em sua própria cidade. Em dezembro de 1955 recebe de Guimarães Rosa carta em que é estimulado como contista:
"- que ultime com espírito feliz o preparo dos Contos e com eles saia para a vitória certa. Este, o da arte, é um grande mundo. Deus nos prospere".

Em outra carta, datada de fevereiro de 1964, Guimarães Rosa chega a sugerir um nome para o livro de contos de Rosemar Pimentel:
"- Já andava com saudades de Você, muitas ...  Dele me valho, para vir todo a Você, à Barra. E, por falar nisso, quando é que vamos ganhar, frementemente impresso, a "BARRA", seu, de grandes contos, de que as nossas letras neste momento precisam?".

Em busca da perfeição da forma, na procura incessante da síntese, Pimentel escreve e reescreve seus contos por mais de 20 anos. Morre sem publicá-los e quando considerava, como em "Forma Definitiva", apenas 08 entre os 22 contos escritos. Os que Pimentel considerava como prontos são: "A mulher do terceiro andar", "O Barqueiro", "A Vendedora de Café", "Três Pães", "Depois", "Caixão de Segunda", "Visita de Domingo", e "Ninguém".

Mais do que poeta, mais do que professor, mais do que criminalista, mais do que contista, Rosemar Pimentel foi, no dizer de Wilson Nóbrega "- A mais natural e mais espontânea vocação para o bem, para a correção, para a grandeza dos gestos e a beleza das atitudes. Espírito de eleição circulou entre nós, compreendeu nossas limitações, soube ser infinitamente bom, generoso e paciente. Foi a herói da adaptação de um mundo que não era evidentemente, o seu".

Na primeira metade da década de 70 escreve, semanalmente, para o Jornal Centro Sul de nossa Cidade. Com o pseudônimo de Cyrano de Bergerac, escreve prosas tão impregnadas de poesia que, com um pouco de audácia, poderíamos denomina-las PROESIAS.

Com o próprio nome faz-se necrologista de todos a quem admirou. Referindo-se a Antônio Gomes:
"-Graças a bondade dele e de dona Morgana, sua esposa, o ensino médio nasceu nesta cidade".

Sobre a folclórica e sofrida figura do Tio Zé: "-Pelo nome que lhe deram, ninguém o conhecia. Mas o velho Tio Zé, de cabelos grisalhos, olhar de menino, era uma presença no dia-a-dia da cidade. Quando as crianças  de hoje se fizerem homens, talvez ouçam coisas sobre o Tio Zé. O túmulo em que o sepultaram já terá desaparecido. Sim, porque o velho Tio Zé, se não estiver num ramo de sempre-vivas, há de estar descansando em uma daquelas estrelas que a noite imensa acende no céu."

Em outro necrológio: "- Da época que tento relembrar, três coisas ficaram: a poesia de Ovídio Mello, o linguajar do advogado Álvaro Rocha e o coração de Mário Novaes. Mário Novaes não fazia versos, não era bacharel. Mas foi a Bondade em forma de gente. Ninguém o superou na arte de enxugar lágrimas, de compreender a angústia humana".

Ainda no dizer brilhante de Wilson Nóbrega, a vida de Rosemar Pimentel "é um momento culminante de intensidade humana, um instante de tensão aguda, uma espécie de clarão mágico de vitalidade nervosa. Porque soubesse que o mundo não aceita os místicos nem os santos, disfarçou-se quanto pôde. Nós que lhes acompanhamos os passos, nós que tivemos a graça de perceber-lhe o estro evangélico e a suavidade extra-humana de que nimbou toda a sua vida, sabíamos dos seus diálogos com São Francisco de Assis."

Pimentel morreu em 18 de Maio de 1975, em noite de domingo. As palavras que Rosemar Pimentel dedicou a Diazuzá Marques da Costa serviriam, com perfeição, para ele próprio:

"- De repente, sem o desespero que a chegada da morte sempre traz, fechou os olhos como alguém que se cansou da paisagem, das horas iguais. Alguém que buscasse na paz inorgânica do túmulo o que o mundo não lhe poderia dar. Nem com as estrelas brilhando muito longe, nem com o rumor das coisas grandes que vêm até nós na lufada do vento, no vôo aflito de um pássaro perdido na noite."


Em 11/05/2014,Maria José Andrade Pimentel, aos 92 anos, conhecendo e aprovando a mini biografia de seu esposo Dr. Rosemar Pimentel

BIBLIOGRAFIA:

- Revista Cultura - Ano I, nº. 2,  de Setembro de 1975 - Publicação do Centro Cultural de Barra do
  Piraí.

- 232 Poetas Paulistas, de Pedro Alcântara Worms - Ed. Conquista - 1968.

- Discurso de posse na Academia Barrense de Letras de Barra do Piraí, da professora Dalma
  Braune Portugal do Nascimento.

- Crônica de Uma Época - Getúlio Vargas e o Crime de Toneleros - Hugo Baldessarini -
  Companhia Editora Nacional - São Paulo - 1975.

6 comentários:

  1. Maria Vera escreveu: "Encantada... tamanha riqueza...poesias feitas com a alma o coração...muito romântica...tempos que não voltam jamais...saudades...saudades <3"

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  2. Maria Nina escreveu: "Parabéns, Orlando. Muito justa sua iniciativa de registrar, ainda que brevemente, facetas tão variadas da vida do seu pai."

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  3. Parabéns! Um ato importante, este trabalho de resgate à memória do ilustre Rosemar Pimentel.

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  4. Lilian Aparecida Braga Ciotola escreveu: - " Belo trabalho de composição. Rosemar Pimentel foi e continua sendo, por meio de homenagens como a sua, personalidade das mais respeitadas e ilustres no âmbito literário e jurídico de nosso Estado. Tal pai, tal filho. E o que dizer de d. Zeze legitimando o seu trabalho? Parabéns!!!

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  5. Parabéns!!! Muito bom e esclarecedor sobre a vida do brilhante jurista, professor e escritor!!! Ronerio

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  6. Faltou um detalhe http://www.ugb.edu.br/web/historia_missao.html

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