segunda-feira, 4 de agosto de 2014

COM O DEDO NO GATILHO


Quando estava saindo, a casa é de dois andares, pediu ao marido que fechasse a porta de entrada. Não queria levar o chaveiro. A porta fica em uma varanda ampla, acessada por uma escada lateral, bem visível para quem passa pela rua. O esposo disse que sim, mas deixou o fechamento da porta para depois e continuou procurando os óculos que ainda não havia encontrado. Já no andar de baixo a esposa que tem 68 anos parou e começou a colocar a coleira na cadelinha quando, de repente, em uma bobeada, a cadelinha fugiu em disparada pela rua. A senhora correu atrás da cadelinha e o portão do andar térreo também ficou aberto. Um transeunte ocasional, um desconhecido, atentou para todo o ocorrido, sobretudo para o portão e a porta, ambos abertos.

 Em seu quarto o marido, ainda procurando os óculos, resolveu levantar a cortina da janela do quarto e não deu outra. Lá estavam os óculos caído. Apanhou-o, sentou-se na cama para examina-los e convenceu-se de que estava tudo bem. Colocou os óculos no rosto. A televisão que estava ligada,  começou a apresentar reportagem sobre uma ginasta que havia sofrido acidente esquiando e estava tetraplégica. Interessou-se, deitou na cama parra assistir ao programa e esqueceu-se da porta que continuou aberta. Era uma manhã, domingo, por volta de 10 horas. O quarto da acesso, pela porta que também estava aberta, para a sala. O marido, como já se disse, no quarto, deitado, vendo TV. De repente, a cabeça de um homem aparece na porta do quarto e se recolhe rapidamente, provavelmente por ter visto o homem deitado e não saber se ele estava dormindo ou acordado e, no segundo caso, se o homem o teria visto. O marido viu a cabeça aparecendo e desaparecendo e  tomou-se de uma certeza; há um estranho dentro da sua casa. Levantou-se em silêncio e foi, pé ante pé até a porta do quarto. Constatou a sala vazia e a porta da casa, aberta, escancarada. Pensou: Pode ter se assustado e ido embora, mas pode estar acoitado na salinha aguardando algum tipo de reação minha, tipo gritar perguntando quem está aí. Se não houver reação vai achar que estou dormindo.  Vai ser uma questão de tempo, se consego apanhar a arma a tempo ou se ele vai considerar que estou dormindo antes que eu consiga me armar. Andando de costas esgueirou-se pelo corredor até o escritório onde estava o revólver. Um trinta e oito.  Com toda a calma e silêncio do mundo, abriu a gaveta, apanhou o revólver, engatilhou e caminhou, novamente pelo corredor arrastando-se pela parede, em direção a sala, com o objetivo de ver se o ladrão estava na saleta ou se havia ido embora (a porta da sala continuava aberta). Quando, de revólver na mão, estava em frente à porta do quarto, meio escondido e protegido pelo beiral da porta, viu o homem sair da saleta e caminhar em sua direção. O homem não o havia visto. Era um mulato alto, de uns 25 anos, de bermuda, com uma camisa de mangas compridas e gola rolê na cor cinza, bem desbotada.  Certamente ia olhar no quarto, pois deve ter achado, pela ausência de reação, que o homem estava dormindo. Deixou que o intruso desse mais um passo. O ladrão só o viu quando esticou os braços com as duas mãos empunhando o revólver e mirou em sua direção. Ai o ladrão entrou em pânico e, muito assustado  tentou se justificar
 -“Estou aqui procurando...”.
Foi interrompido pelo homem que, pausadamente falou:
- Vai morrer, seu ladrãozinho de merda.
Apavorado o rapaz levantou os braços e gritou: “Não, não”. Virou as costas e fugiu em desesperada disparada pela porta aberta da sala. O homem não atirou. Não quis atirar. Acho que se apiedou do descuidista que considerou um pobre infeliz. Devem ter pesado, também, os seus setenta anos e a experiência adquirida durante todo este tempo. Ficou satisfeito por não ter atirado, feliz com a sua atitude, com a maneira com a qual solucionou o problema. Caminhou lentamente para a varanda e ainda pode ver, no fim da rua, em disparada, o invasor já dobrando a esquina. Voltou para o escritório. Guardou a arma. Poderia ter atirado, estava dentro de sua casa, um revólver que conhecia muito bem e com munição nova. Certamente mataria o homem. Se tivesse ocorrido há alguns anos provavelmente teria atirado e estaria com um corpo baleado no peito, estendido no meio de sua sala. Uma bravata que certamente traria, apesar de todos os fatos que o favoreciam, problemas, os mais diversos. Por exemplo, o legista. Quantas horas, em pleno domingo levaria o legista para aparecer e autorizar a retirada do cadáver estendido no meio da sala. Quantas vezes a cena se repetiria em seus sonhos/pesadelos?
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 Pouco depois  a mulher, assustada, subiu as escadas com a cadelinha no colo. O vizinho já havia lhe contado: -“O seu marido, armado, botou um ladrão para correr que já estava dentro da casa de vocês”. O marido a encontrou na varanda. A casa já estava em normalidade. O marido falou: Já passou, não aconteceu nada. Abraçou-se ao marido e nada falaram. Entre os dois, a cadelinha.


Um comentário:

  1. Este conto narra uma tentativa de roubo, que por pouco não se transforma em tragédia. No final se expõe o que poderia acontecer se não houvesse o controle emocional. Gostei, meus parabéns!

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