O ocorrido se deu antes da
construção do sambódromo, quando o desfile das Escolas de Samba era realizado
na Presidente Vargas. O sonho, que há uma década vinha sendo acalentado, desta
vez se tornaria realidade. Era a década de 70. Duas semanas antes, já tomara
conhecimento do preço e absorvera com a “fleuma” necessária o absurdo do preço
do ingresso.
A esposa achou meio para
justificar: - Sim... vale pelo conforto. Lugar marcado. Afinal são doze horas
de desfile e ninguém é de ferro. É pagar para ser feliz.
Três dias antes estavam de
posse dos ingressos, o que deu certa tranquilidade: setor 23, fila Y, nº6 e nº7.
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Chegaram com duas horas de
antecipação. Coisa de iniciante. A primeira impressão foi a melhor possível. O
bilheteiro desejou um bom carnaval e seu auxiliar entregou-lhes uma belíssima
revista que tinha como título: -“Todas as informações sobre o Desfile das
Escolas de Samba”. Na arquibancada, o primeiro impacto. Os lugares ficavam à
altura de um prédio de cinco andares.
Desnecessário dizer; foi mais fácil do que escalar uma montanha. O ingresso dava direito a trinta centímetros quadrados de uma madeira do tipo das utilizadas para andaime nas obras. Por sorte, nenhuma ponta de prego. Nas costas, as pernas e, principalmente, os joelhos dos ocupantes da fila de cima.
Desnecessário dizer; foi mais fácil do que escalar uma montanha. O ingresso dava direito a trinta centímetros quadrados de uma madeira do tipo das utilizadas para andaime nas obras. Por sorte, nenhuma ponta de prego. Nas costas, as pernas e, principalmente, os joelhos dos ocupantes da fila de cima.
Pouco antes de se iniciar o
desfile já tinha uma certeza. Ou se havia vendido ingressos em excesso ou a
área destinada a cada um era insuficiente.
- Estava lindíssima. Você perdeu!
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Quando começou a passar a primeira
Escola, três horas e meia depois da chegada, não sem dificuldades, encontrara e
estava na fila do banheiro. Apenas dois por setor. Um para cada sexo. Em cada
setor umas duas mil e quinhentas pessoas. Quando saiu do banheiro, a primeira
Escola já era. A mulher, entusiasmada, quase aos gritos, o recebeu exclamando:- Estava lindíssima. Você perdeu!
No meio do desfile da segunda
Escola, o cavalheiro que estava com os joelhos em suas costas passou mal. Os
sintomas eram feios. Suspeitou-se de um enfarte. Na falta de socorro oficial, resolveram
utilizar um inofensivo “Sonrisal” que estava no bolso da camisa de vítima.
Foi encarregado de arrumar um copo de água para dissolver o “Sonrisal”. Fizeram com que o cavalheiro engolisse a água efervescente e o deram como devidamente medicado e esquecido, deitado, em canto mais afastado. Pouquíssimo
viu da segunda Escola.
O desfile da terceira escola
também não pode ver. Cinco japoneses retardatários, em pé, discutiam com
argentinos que estavam sentados nos lugares que seriam deles. A discussão, na sua
frente, se arrastou por mais de meia hora e ficou feia. Foi um francês que,
desfazendo o equívoco dos ingressos, acomodou as coisas.
Quando começou o desfile da
quarta escola, um dos japoneses, justamente o que estava sentado em sua frente,
por absoluta falta de espaço, colocou, sobre a cabeça, o enorme “isopor” que portava.
A princípio, nada fez. Achou que era coisa temporária. A Escola já estava na
metade da sua apresentação e não conseguia ver nada por causa do isopor do japonês.
Tocou, então, no ombro do japonês e, por gestos, tentou informar que não estava
podendo ver. Sem nada entender, evidentemente, o japonês limitou-se a sorrir e
a continuar com o isopor na cabeça. Na terceira cutucada o japonês, sempre
sorrindo, colocou o isopor no colo, abriu a tampa, tirou um ovo cozido com
casca, deu para o reclamante, e voltou com o isopor para a cabeça dando o
assunto por encerrado.
Às duas horas da madrugada, vencidos pelo desconforto e pelo
cansaço, os japoneses e outros estrangeiros debandaram e as coisas, então, se
acomodaram melhor. Começaram a aparecer vendedores ambulantes. Até aquele momento, para
eles também, era quase impossível o movimento. A sede era grande, mas a lembrança da fila e
do estado do banheiro não lhe permitiram ousar tomar uma garrafinha de água.
Limitou-se ao cafezinho, o pior e mais caro do mundo. Às oito horas da manhã,
sob o castigo inclemente de um sol causticante, viram passar a Imperatriz que
encerrou o desfile.
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No carro, voltando para casa,
já com os olhos fechados, a mulher perguntou-lhe: - Valeu?
Respondeu: - Sim... Sobretudo
pelo constante e quase contínuo contato com Deus.
Os olhos dela se arregalaram
e, como se tivesse duvidando das condições mentais do marido, indagou:
- Como assim?
- Como assim?
- Rezei quase que o tempo
todo.
- Você tem certeza que está
se sentindo bem, perguntou ela?
Indagou-lhe se ela não
percebera como a estrutura, que suportava as arquibancadas, balançava a
proporção que a platéia dançava com o passar das escolas. Disse-lhe de seu medo
de uma catástrofe, com o desabamento de tudo aquilo.
- Cruzes... Nem pensei nisto.
Com um longo bocejo, com os olhos novamente fechados, perguntou:
-Afinal, do que você gostou?
A resposta veio franca e
imediata:
- Da hora que acabou.
- Da hora que acabou.

Muito bom! No início do conto me veio a preocupação da arquibancada ceder, mas ñ imaginava que seria a maior preocupação dele...rsrs. Gostei muito, meus parabéns!
ResponderExcluirMaria Célia Marques escreveu: -"Quando li, lembrei de tudo que passei assistindo ao desfile, pela primeira vez, na Av.. Presidente Vargas. Um sufoco! Mas, valeu a pena.
ResponderExcluirCybele Pimentel Sá escreveu: -"Como sempre bem escrito, real e hilário. Celinha deve ter passado por sufocos semelhantes. A falta de conforto e a cara de pau dos organizadores que jogam os preços lá em cima afastam pessoas menos crédulas como eu de ambientes assim. Mas sofri com a personagem suas angústias e aflições. Como terá terminado o caso do quase infartado?"
ResponderExcluirDéa Lucia Amaral escreveu: -"Orlando passei por isso em 1980 grávida da minha filha Juliana !!! Eu quase matei Julio, meu marido, porque queria ir ver o desfile e depois quase matei porque ele cedeu !!!! Só quando o meu amado Brizola contruiu o Sambódromo é que voltei assistir !!! Agora só tomando um vinhozinho em casa no ar condicionado !!!! bjs
ResponderExcluirRosana Bensiman escreveeu: -"quem dera que as suas crônicas virassem produções para a TV! São geniais! Aplausos de pé, meu amigo!"
ResponderExcluirJoão Bosco Sene Alice Sene escreveu: -"Sensacional! Sua habilidade, em situar o leitor dentro do conto, é sobrenatural!"
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