quarta-feira, 10 de junho de 2015

GRANDE SERTÃO:VEREDAS - Anotações de leitura.



Não...não é livro de leitura fácil e muito menos de fácil compreensão. O romance de João Guimarães Rosa é o que se costuma dizer; “uma pedreira”.
Estas anotações de leitura se basearam na edição de 2012 da Editora Nova Fronteira que é constituída por 608 páginas.
O livro, único romance de Rosa, é muito mais comentado do que entendido. É muito mais comprado do que lido, e, entre os que tentam a leitura, o articulista ousa palpitar, há uma desistência de no mínimo noventa por cento antes que se atinjam as primeiras trinta páginas do livro.
O leitor, não iniciado na obra Roseana, começa a leitura animado e com o máximo de boa vontade, mas depois de muito esforço e desconforto para vencer dez ou quinze páginas, desiste frustrado, envergonhado, duvidando do nível cultural que até então entendia ter, ficando-lhe uma espécie de culpa, uma meia vergonha que, raramente confessa, por não ter conseguido ler
“Grande Sertão:Veredas”.
Entendo que a leitura do romance deve ser diferenciada. Não basta fazer uma simples leitura, é necessário um estudo do autor. Há regras básicas e preliminares que precisam ser seguidas. “Grande Sertão: Veredas” se tornará de leitura menos difícil, se o pretendente a leitura do romance, começar, primeiro, lendo as obras iniciais de Rosa, entre as quais, destaco os livro “Sagarana”, “Corpo de Baile I” e “Primeiras histórias”. Sugiro mais...em “Sagarana” começar com “A hora e vez de Augusto Matraga” e “Duelo”. No “Corpo de Baile”, iniciar com “Campo Geral” que é a história de Miguilim. Em “Primeiras histórias”, começar com “Os irmãos Dagobé” e “O famigerado”. Penso que facilitaria muito o empreendimento maior; a leitura do imortal romance.
Em “Grande Sertão: Veredas”, a história não é contada de maneira linear. A leitura do livro não segue nem respeita a sequência do passar do tempo. O romance, também, não é dividido em capítulos, o que torna a leitura, no meu entender, mais difícil. Pode-se perguntar: Valerá a pena tanto esforço para conhecer o universo Roseano? Penso que sim. “Grande Sertão: Veredas” é um livro único. Acredito que nunca mais se escreverá algo semelhante, como também acredito que “Grande Sertão:Veredas” é uma obra para todo o sempre.
ANOTAÇÕES SOBRE O ROMANCE
Inicia-se com Riobaldo já idoso, casado com Otacilia, morando na fazenda São Gregório,  que herdou de seu “padrinho”, que na verdade era o seu pai. No entorno de sua fazenda reuniu, na condição de amigos e meeiros, alguns dos companheiros, jagunços como ele nos tempos da mocidade. Riobaldo está recebendo visita ilustre, possivelmente do autor do livro, que esta em viagem para conhecer o Sertão. Entende que o visitante chegou tarde, que o sertão já não é mais o Sertão e começa a falar do Sertão do seu tempo, contando, de forma desordenada, passagens da sua vida. É isto, em síntese, o romance
Deixa-nos, patenteado,de cara, uma das suas grandes dúvidas; a existência ou não do diabo e volta e meia questiona o seu interlocutor(que não se pronuncia, apenas escuta) sobre o assunto. Registra, também, amizade feita,  quando havia abandonado a jagunçagem; trata-se do seu compadre Quelemém, que mora um pouco mais distante, é kardecista e seu mentor espiritual. Por fim, fala de Reinaldo (Diadorim), por quem sentia uma atração amorosa muito grande, coisa que homem macho só pode sentir por mulher e que escondia e contra a qual lutava desesperadamente.
O INÍCIO DA NARRATIVA
Começa a narrativa da sua vida, pelo meio da sua história, quando, sob a chefia de Medeiro Vaz, o bando tentam surpreender Hermógenes, antigo companheiro que, revoltado, vinga-se  assassinando o chefe de todos, Joca Ramiro. Medeiro Vaz, antes de alcançar o seu objetivo,já envelhecido e doente morre. Riobaldo recusa a indicação dos seus amigos para ser o sucessor na chefia. Quando menos se espera, torna a aparecer Zé Bebelo, com mais alguns homens que, sabendo da empreitada de Medeiros Vaz, volta ao bando para participar da vingança contra Hermógenes, e, diante da recusa de Riobaldo, assume a chefia do bando.
Riobaldo faz, então, digressão na narrativa e lembra, a sua meninice pobre, até os14 anos, junto da mãe. Narra seu encontro com o Reinaldo, menino da sua idade, porém rico e de seu passeio com Reinaldo, de canoa, nas águas do São Francisco. Fala da morte de sua mãe e do seu envio para a Fazenda São Gregório do seu padrinho Selorico Mendes. No dizer de Riobaldo, “a minha vida mudou para uma segunda parte”. Na fazenda do Padrinho recebe fino trato e é mandado (era analfabeto) para estudar na cidade. Anos depois, estudos concluídos, é convidado para dar aulas a meninos de uma fazenda e se apresenta como professor na fazenda de Zé Bebelo. Ao chegar lá, constata não haver crianças. Era uma fazenda de treinamento militar para combater e exterminar os jagunços do Sertão. Riobaldo se torna professor de Zé Bebelo, o chefe, que era analfabeto e queria, com a façanha de derrotar os jagunços, candidatar-se e eleger-se deputado.  
Depois de algum tempo, já tendo tomado afeição e admiração por Zé Bebelo, aceita convite para participar da tropa comandada por Zé Bebelo que vai partir para acabar com a jagunçada no Sertão. Com Zé Bebelo presencia o ataque aos jagunços de Hermógenes que fogem após muitas baixas. Posteriormente não apenas presencia, mas participa  do ataque aos jagunços de Ricardão que, também conseguem fugir. . Desgostoso com a matança que considera inútil dos jagunços, resolve abandonar o “exército” de Zé Bebelo e sai pelo Sertão, sozinho, sem destino certo.
A ENTRADA NO GRUPO DE JOCA RAMIRO
Em estalagem encontra com alguns jagunços de Joca Ramiro e entre eles reconhece Reinaldo, o menino que conheceu aos 14 anos. A amizade entre os dois se reativa e Reinaldo leva Riobaldo para os comandados do bando de Joca Ramiro. O primeiro contato é com o grupo de Hermógenes,que já vira ser posto para correr por Zé Bebelo e, por quem, de imediato, nutre um mal querer. Enquanto aguardam a chegada do chefe maior, o chefe de todos, Joca Ramiro, vai conhecendo os outros chefes de grupos. Conhece a turma de Ricardão, outro que ele  ajudou Zé Bebelo botar para correr. Conhece, também, os homens de Sô Candelário e de Medeiro Vaz entre outros. Durante este período fica-lhe, cada vez mais claro o seu bem querer por Reinaldo. Neste período conhece Otacilia com quem se compromete e, la na frente, quando já havia abandonado a jagunçada, torna-se sua esposa.
A GUERRA CONTRA ZÉ BEBELO
Começa a combater, sob a liderança de Hermógenes, o grupo de Zé Bebelo. Depois, passa para o comando de Sô Candelario e participa da ação que derrota e prende Zé Bebelo que é levado a julgamento sob a liderança de Joca Ramiro. Hermógenes e Ricardão votam pela morte de Zé Bebelo e são votos vencidos, o que deixa Hermógenes muito aborrecido. Zé Bebelo é libertado sob a condição de ir para Goiás e não voltar mais para a Bahia até contra ordem ou morte de Joca Ramiro. Terminada a guerra, o grupo de mais de 500 jagunços se divide com seus respectivos chefes. Hermógenes e Ricardão seguem com Joca Ramiro. Riobaldo e Reinaldo ficam no grupo de Titão Passos.
A MORTE DE JOCA RAMIRO
Passam-se dois meses e chega notícia da morte de Joca Ramiro, assassinado em emboscada, com tiro nas costas por Hermógenes que guardou mágoa, contrariado com o julgamento de Zé Bebelo.
Todos os grupos, se dirigem para o encontro com Sô Candelário e seus trezentos jagunços. O grupo já está reunido, faltando apenas Medeiro Vaz que estava muito distante, quando cai em emboscada da polícia que veio para vingar a prisão de Zé Bebelo. Após muita lutas e recuos, os jagunços, decidem mandar um grupo para encontrar Medeiros Vaz que ficara encarregado de vingar Joca Ramiro enquanto o grosso da tropa fica combatendo a polícia. Entre os que vão ao encontro de Medeiro Vaz estão Riobaldo e Reinaldo. É neste ponto, como já vimos, que o romance “Grande Sertão, Veredas” se inicia.
Medeiro Vaz parte em busca de Hermógenes para vingar a morte de Joca Ramiro.  Já envelhecido e adoentado, morre no caminho. Reaparece, então, Zé Bebelo que, alforriado pela morte de Joca Ramiro, sem mais o sonho de se tornar deputado, volta para ajudar a vingar a morte de Joca Ramiro e assume a chefia no lugar do falecido Medeiros Vaz.
NOVAMENTE AO LADO DE ZÉ BEBELO
Percebendo a tropa exaurida, Zé Bebelo resolve dar descanso em casa grande de fazenda abandonada e lá, sem esperar, são cercados pelos jagunços de Hermógenes e Ricardão. Em desvantagens perdem muitos homens. Zé Bebelo utiliza estratégia de mandar bilhete assinado por ele, informando a presença ali de grande agrupamento de jagunço, ao promotor e ao delegado. Riobaldo desconfia de traição. Quando os militares chegam pegam, de surpresa os do Hérmógenes e Ricardão pela retaguarda o que dá a oportunidade a Zé Bebelo e seus homens escaparem, rastejando, durante a noite. A estratégia armada por Zé Bebelo havia dado certo. Mais pra frente conseguem montaria e seguem procurando por lugar onde consigam arreios e munição.  Riobaldo entende que Hermógenes, para escapar sempre, só pode ter pacto com o diabo e que para derrota-lo ele precisa, também, fazer o pacto.Vai, sozinho, à meia noite para o meio do mato e invoca o diabo para o pacto. A partir de então a personalidade de Riobaldo sofre grande transformação a ponto de leva-lo a desafiar Zé Bebelo, seu ídolo, para poder ser o novo chefe do bando. Zé Bebelo entrega a chefia e se retira do grupo que, agora sob a chefia de Riobaldo, vai em direção à fazenda onde estão os parentes de Hermógenes, para atraí-lo e concretizar a vingança de Joca Ramiro.
Diadorim percebe e fala com Riobaldo que ele parece estar com o Diabo no corpo. Riobaldo se sente poderoso e não quer saber de ouvir mais a ninguém, só faz o que sua cabeça manda. Reinaldo antes de se afastar, diz a Riobaldo que quando eles consumarem a vingança, vai lhe contar um grande segredo, o maior de sua vida.
O bando de Riobaldo atinge de surpresa a fazenda de Hermógenes, mata os jagunços ali presentes, aprisiona a  esposa de Hermógenes e passa a se preparar, sabendo que o “Judas” virá para tentar salvá-la, para a grande e derradeira batalha.  Hermógenes vem e batalha sangrenta se dá. Reinaldo se ataca com Hermógenes em briga de faca. A luta é mortal para os dois. Ao lavar o corpo de Reinaldo,que ficou muito sujo de sangue pelas facadas sofridas, Riobaldo fica sabendo que Reinaldo, na verdade era uma mulher, que fora criada por seu pai como homem, para melhor protegê-la. Curte luto pela dupla perda; a do amor que imaginava impossível e a morte de Reinaldo. Recebe notícias do falecimento de seu pai e da herança que lhe deixou; duas fazendas. Abandona a vida de jagunço, leva alguns com ele e vai se instalar em uma das fazenda herdadas de seu pai. Casa-se com Otacília, conhece Seu Quelemém e, já velho, recebe a visita “de homem ilustre” que é como se inicia o romance.