O carro antigo
seguia pelas ruas empoeiradas do distrito. Da janela,o aceno automatizado, o
sorriso sem jeito, o chapéu-de-palha protegendo a papada vermelha do sol:
-Bom dia. Como vamos? ... Bom dia. Recomendações à esposa.
-Bom dia. Como vamos? ... Bom dia. Recomendações à esposa.
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Alguma coisa lhe
dizia que chegara a sua vez. O pressentimento da vitória, entretanto, o assustava. Não era a primeira vez que tinha aquela sensação. Lembrava-se bem da primeira campanha. Sentira o mesmo. Chegara a se sentir eleito. As pesquisas mostravam o seu nome na frente. Abraços para todos os lados. Já o chamavam de prefeito. No fim, aquela decepção. Fora o mais votado. O partido perdera na legenda. Não, desta vez não se deixaria emprenhar pelos ouvidos. Não era marinheiro de primeira viagem. Era a terceira tentativa. Eleição é caixa-de-surpresas. Fizera a sua parte na última vez. Os dois companheiros falharam. Merda de companheiros! Cambada incompetente.
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Em cada parada,
repetia-se o ritual. O sacrifício dos movimentos, só Deus sabe. Quase dois
metros e mais de cento e trinta quilos. Os setenta e quatro anos martelavam sem
parar:-Burro! Quem mandou se meter nisto novamente? Não tem mais idade. Vá para casa descansar estas pernas.
A mão esticada do correligionário trazia-o de volta à realidade, fazia com que se animasse e reiniciasse a cantilena.
-Como vai? Como está vendo a coisa? É, realmente estão dizendo que desta vez vai. Vamos aguardar a hora. O que é do homem o bicho não come. Você me conhece. Não peço voto. Vim procurar o amigo para dizer que sou candidato. O partido, novamente, tem três.Sou um deles.
A resposta pouco
variava. Quase sempre a mesma coisa:
- O senhor nem precisava perder tempo com este seu amigo. O senhor sabe da minha fidelidade. Aqui em casa os nossos votos são todos seus. Este ano vai aumentado... o Alencar tirou o título”.
-É uma ótima notícia... por um se ganha, por um se perde.
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No carro,
voltavam às dúvidas. Sabia que desta vez a surpresa da legenda não se
repetiria. O partido estava forte, organizado. Não houve erro na escolha dos
companheiros. Só homens de bem, gente séria. Nenhum cabeça de vento para jogar
fora as eleições. Cachaçada em campanha só para o eleitor. Para candidato,
nunca. Da segunda vez foi traído dentro do próprio partido. Como o mais votado,
tinha de ser o candidato de frente. Disseram que estava velho. Trocaram os seus
setenta anos de retidão pelos trinta e seis do cachaceiro. Deu no que deu.
Agora, quatro anos mais velho, ninguém questionava a idade. Ao contrário, tapinha
nas costas e o grito de guerra:
“O velho vem
aí”.
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Nova parada. O
sacrifício se repetia. Antes mesmo do aperto de mão, já vinha anunciando:
- Seu Paulo... vim
lhe dizer que sou candidato. É a terceira tentativa. Época de eleição é hora de
procurar os amigos. Voto eu não peço. O nosso partido tem três candidatos. Vim
avisar ao companheiro que sou um deles.
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Naquele distrito
ganhara as duas eleições passadas. Haveria de ganhar a terceira e, agora, em todo o
município. Cuidado precisava tomar com o Heleno. A campanha do companheiro
estava crescendo. O risco era crescer demais. Nos comícios, apelava para a idade.
Apenas cinquenta anos. Diz ser o único do partido a vir para as ruas levantar a
bandeira do povo. Demagogia, pura provocação do sacana. Quer me pressionar, me
obrigar a fazer comícios, tirar partido por ser mais jovem, forçar a
comparação. Engana-se quem pensa que vou cair nessa. Comício não ganha eleição.
Voto se ganha é ao pé do ouvido. É bom que o sacana cresça. Vou precisar daqueles
votos para engrossar a legenda.
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No fundo, a
vontade era a de estar em casa, descalço, sem camisa, chupando manga e ouvindo
o correr do rio. Já não mais em idade para aquilo. Se ganhasse, seria ainda
pior. Uma loucura. A primeira briga, com o comércio ilegal. Parecia estar
ouvindo a voz do Toninho Camelô:
-“Seu Dudu... vim saber se podemos votar no senhor. Estão dizendo que se o senhor ganhar, acaba com o camelódromo”.
Merda! Com a eleição ameaçada pelo Heleno e naquele beco sem saída. Sabia que podia estar perdendo a eleição, mas não podia recuar. A frase saiu num repente, mas parecia estudada:
- Seu Toninho... o senhor não vote em mim não, pois se eu ganhar, não fica um camelô no centro da cidade .
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Nova parada do Chevrolet:
-Seu Dudu, o nosso partido vai dar um vareio. Quem está mais perto do senhor é o Heleno, que também é do partido. Certamente vai ficar em casa”.
Era só o que faltava. Ganha o Partido e perco eu. Puta que pariu... vai ser muito azar. Caveira de burro? Será que lutava conta a vontade de Deus? Não estaria em seu destino a prefeitura de Barra? Não... não podia acreditar que o Heleno ameaçasse sua campanha. Homem fechado, antipático. Além do mais, doutor. O povo não gosta de votar em doutor. Preocupação besta.
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O diabo era sua
idade. Heleno conclamava a juventude. Na última reunião parecia o dono da
verdade. A máscara de humildade não conseguia esconder o clamor do já ganhei no
fundo dos seus olhos. Presunçoso sempre fora. O pior é que se eu vencer vou ter
de engoli-lo. Não sou homem de duas palavras. Cumpro o combinado, nomeio-o
Secretário de Obras. Vai ser gozado ver o Heleno acatando minhas ordens. Não aguenta
três meses. Muito vaidoso. Inventa doença e pede demissão.
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- “Pai... acorda
pai...são cinco horas”.
Era a filha.
Arrumando-se, procurava por a cabeça em ordem, rememorar o planejado. O pessoal
precisava comparecer em
massa. Queria todos de chapéu-de-palha. O impacto, no dia, é fundamental.
Arrasta os indecisos. O povo quer votar no que vai ganhar, quer sentir-se
vencedor.
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- Então Zaca? Quantos
homens temos?- Seu Dudu... meia hora antes de iniciar teremos três homens em cada seção.
- Arranjou chapéu para todos? Ótimo... então vamos... vamos ganhar esta eleição.
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Sentado ao lado
do rádio ouvia, nervoso, notícias das apurações. Lá não iria. Só no fim, com
tudo sacramentado. Desta vez não repetiria o mesmo erro. Vitória, só cantaria
depois de apurado o último voto.
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Há oito anos o
terno estava guardado. A certeza da vitória o havia feito comprar. Era para a
posse. Foram mais duas campanhas para poder usá-lo. A vida é gozada. Fizera fé
no “chapéu-de-palha”
e o que pegou foi a arma criada pelos adversários: “O velho vem aí”.
Queriam destacar
a minha idade. Quebraram a cara. No dia da eleição, na cidade inteira, era só o
que se escutava:
“O velho vem aí”.
“O velho vem aí”.
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Não nascera para
usar terno. Sentia-se incomodado. Gozado! O que a emoção faz com o homem. A mão
trêmula, o coração disparado. Não conseguia arrumar o nó da gravata. Talvez precise
tomar um calmante. A emoção não poderia prejudicar seu discurso. Precisava
agradecer ao povo. - Belinha, minha filha; um suco de maracujá. Estou tenso.
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Meia hora
depois, a boataria na cidade. Mais tarde, a confirmação da notícia. O prefeito
estava morto. A cidade inteira, em fila organizada, estava na Câmara dos
Vereadores onde o corpo do seu Dudú, vestido com o terno da posse, estava sendo
velado. O caixão seguiu nos braços do povo pelas ruas da cidade. Ao
aproximar-se do cemitério, no muro caiado, a marca registrada da campanha:
“O velho
vem aí”.
Ronaldo Ayres escreveu:"Este é o meu preferido, pois acompanhei de perto esta campanha e votei nele...aqui você ressuscitou o que minha memória gravou. Ao ler este conto vi os fantasmas ganharem vida...parece uma visão absíntica!!!"
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirSempre relei-o acho-o fantástico!!!
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