Desde o planejamento, a distância foi o que o preocupou mais.
A informação o assustou. Dois dias para se chegar à China, quarenta e oito
horas. Diante do seu assombro e questionamento, o amigo, que já havia ido, confirmou:
- Saí de casa em uma quinta feira às 15 horas e cheguei ao
hotel em Xangai, no sábado, também às quinze horas. É preciso
coragem.
---
Foi um ótimo voo. As primeiras onze horas vencidas com muita
facilidade. O avião não estar lotado, deve ter ajudado. Transformou em cama
quatro poltronas vazias no final do avião e dormiu quase o tempo todo. Chegou
bem ao Charles De Gaulle. A espera para a segunda etapa foi pouca; duas horas e
meia. Para Xangai, o avião lotou. Quase todos, chineses. O que sentou-se
ao seu lado falava espanhol. Seu nome Xiang Meng. Estava há cinco anos na
Espanha. Morava com a avó. Seu primo era o motivo da viagem. Desaparecido. Há
mais de mês não ia ao trabalho, não atendia ao telefone. Em Xangai pegaria
outro voo com destino a Guangzhou, cidade onde morava o seu primo. Sua missão,
tentar descobrir o que havia acontecido com o primo sumido. Tinha o endereço da
residência e do trabalho. Deu a impressão que temia pelo pior. Foi essa a
conversa que travaram.
---
Acordou com a movimentação
para o pouso, com a voz do comandante anunciando
a chegada a Xangai. Havia sido alertado para os riscos da densidade
demográfica. A China tem, extra oficialmente, um bilhão e oitocentos milhões de
habitantes. Nove vezes mais do que o nosso Brasil. Foi a primeira contradição.
O aeroporto vazio. Táxis para todos os lados. Chegou ao Shanghai Park Hotel,
número 170, na Nanjing Road sem nenhuma dificuldade. Foi ao apartamento para um
breve reconhecimento e desceu para conhecer a maior cidade da China e, talvez,
a mais bonita. Vinte milhões de pessoas, duas vezes a população de São Paulo.
Caminhou por três horas. Fácil de andar, sem risco de se perder. Uma enorme
avenida, como a nossa Av. Paulista dava o norte. Referenciou o hotel e foi em
frente. Fez pequenas compras. Pagou, em duas oportunidades, com nota de
quinhentos yuan pois precisava de dinheiro trocado. Voltou para o hotel, escolheu
um dos três restaurantes, foi jantar. Quando foi pagar, duas notas de cem,
das que recebeu nas trocas, foram recusadas.
Falsas. Na recepção do hotel, orientaram-lhe como identificar as falsas.
Confiscaram as que havia recebido. No primeiro dia, a primeira lição a custo
relativamente baixo. Duzentos Yuan equivalem a pouco mais de cinquenta reais. Na
verdade, não chamam o dinheiro de Yuan, falam em “renmimbi”, e o abreviam com RMB.
---
No dia seguinte, após o café, conheceu a intérprete que
seria, também, o seu guia. Uma chinesa que havia cursado línguas. Era especializada
em português do Brasil. Como intérprete, adotou o nome de Mariana.
Na hora do almoço Mariana sugeriu-lhe o “bairro dos franceses”,
onde ambiente e gastronomia eram ocidentalizados. Uma praça com diversos restaurante.
Na entrada de um deles, bela escada mostrava um segundo andar. Subiram. Perguntou a Mariana, enquanto aguardavam o
atendimento, pela cidade de Guangzhou. Além de ser a próxima etapa da sua viagem, havia sido citada pelo chines que, no avião, vaijou ao seu lado. Após breve descrição
da cidade, Mariana contou-lhe a seguinte história:
- Um ex-professor, de nome Chang, também intérprete,
participa de curso que se realiza, em Guangzhou, todas as quintas. Nos dias do
curso Chang pernoita no apartamento de um amigo dele. Chang tem a chave do
apartamento de seu amigo, de nome Lee. Há algumas semanas não consegue vê-lo. O
estado de abandono do apartamento dá-lhe a certeza de que o amigo não tem aparecido.
Os vizinhos nada souberam informar. Na última semana Chang foi procurar Lee no
trabalho. Lee é massagista. Chang foi informado que Lee não estava indo trabalhar
há mais de mês. Estavam todos preocupados com o desaparecimento do massagista.
Foram interrompidos pela chegada do garçom com o almoço. Mariana deixou-o no hotel e orientou-o para,
na parte da noite, fazer passeio de barco no rio Huangpu. Falou-lhe que o
acender das luzes dos prédios era espetáculo imperdível.
---
No barco, fazendo o passeio, vieram-lhe a cabeça as duas
histórias: a que Mariana havia lhe contado no restaurante e a que ouvira durante
a viagem no avião. Perguntou-se:- “Será que o tal do massagista Lee é o primo
desaparecido do passageiro que viajou ao meu lado”. As duas histórias mostravam
pontos em comum. A cidade, também, era a mesma. Decidiu que voltaria ao assunto
com Mariana.
---
No outro dia, no saguão do hotel, logo após o café, Mariana o
aguardava. Agradeceu-lhe a recomendação e disse-lhe que havia ficado encantado
com o espetáculo das luzes. Perguntou-lhe se poderiam caminhar no calçadão do
rio que lhe parecera muito bonito.
Durante a caminhada Mariana mostrou-lhe a estátua de Mao Tsé
Tung e disse-lhe da sua importância no início da recuperação da China. Falou,
com mais entusiasmo ainda, de Deng Xiaoping, seu sucessor e criador das Zonas
Econômicas Especiais que possibilitaram, a partir da década de 80, o crescimento
de 9% ao ano na China. Foi quem abriu os portos ao comércio internacional e
cunhou a célebre frase que mudou a vida dos chineses:
- “ Enriqueçam...não
tenham vergonha de enriquecer.”
Quando surgiu a oportunidade, lembrou-a de que havia começado
a lhe contar uma história no restaurante, no dia anterior. Pediu-lhe que a concluísse
e deu-lhe suas razões. Estaria havendo uma grande coincidência?
Mariana sorriu e falou
que, provavelmente, estava imaginando coisas. Que havia contado a história
porque, naquele dia, lendo o jornal, ficou muito impressionada com uma das notícias.
Na primeira página, com uma das manchetes, tomou conhecimento de que, em Guangzhou,
a policia investigava rico comerciante suspeito de haver mandado matar um homem.
A reportagem informava que a suposta vítima era massagista da esposa do
comerciante. Parece que eles estavam tendo um romance. O comerciante teria
descoberto. A polícia havia recebido filmagem feita durante a madrugada,
provavelmente com um celular, que mostrava a chegada de carro a um dos
restaurantes do comerciante. Três homens desciam do carro e retiravam um saco
grande e, carregando o saco, entravam pelo acesso lateral do restaurante. Com o
filme, uma folha de papel assegurando que, no saco, estava o massagista
desaparecido.
Após fazer esse relato, Mariana respirou fundo e, sorrindo,
disse-lhe ter feito ligação dessa reportagem com o que lhe havia contado seu
colega Chang, mas que, certamente, era tudo imaginação dela. Que ele a
perdoasse, pois essa história não deveria fazer parte do “pacote”.
Já no hotel, despediu-se de Mariana. No outro dia, de acordo
com o roteiro. seguiria viagem.
---
Em Guanghzhou, ficou
em hotel mais popular. No entorno do saguão do hotel, uma série de corredores com
lojas e serviços. Na primeira manhã, sem sucesso, tentou trocar dólares no
hotel. Foi orientado para fazer a troca em agência bancária próxima. No Banco,
constatou que o formulário precisava ser preenchido em “mandarim”. Recorreu à
funcionária do setor de informações para o preenchimento do formulário. Em pouco tempo saía do banco com a troca
feita. Ao sair do banco, logo à sua esquerda, o rio Pérola margeado por um belo
calçadão. No calçadão, deu pequena caminhada para a direita e localizou um restaurante
especializado em frutos do mar. O nome: Hong Xing Seafood Restaurant. Ao
retornar ao hotel, conheceu seu novo guia e tradutor. Um chinês de Hong Kong
que havia morado, por dez anos, na Argentina. Seu novo guia atendia por
Carbajal. Aparentava ter sessenta anos. Sem a desenvoltura de Mariana,
expressava-se em mistura de português e espanhol. Contou ao guia sua ida ao
banco. Disse-lhe que havia ido ver o rio, falou-lhe do restaurante. Carbajal disse-lhe
que o restaurante era uma peixaria típica, conhecida por Bicho-Vivo, um ponto da
cidade muito frequentado por turistas. Apresenta, em sua entrada, em aquários,
ainda vivos, os frutos do mar que vão ser consumidos. Sorriu e disse,
zombeteiro, que agora o restaurante tinha uma atração extra. O proprietário
estava envolvido como mandante de um crime. Não lhe ficou nenhuma dúvida de que
estavam falando da mesma história ouvida no avião e narrada por Mariana. Contou
para Carbajal as histórias que haviam lhe contado. Perguntou-lhe se achava possível que
estivessem falando do mesmo caso. Carbajal sorriu e lhe disse que a China era
muito grande, mas que tudo era possível.
---
A primeira visita foi em mercado típico da cidade onde se
compra e se come quase de tudo. Pequenos boxes e todos com fila dos frequentadores. Levou-o a um
onde a fila era ainda maior. Tomavam uma espécie de sopa de cobra. Servem mil
pratos por dia. Em caldeirão imenso e fumegante, a funcionária enfia concha grande
e coloca o conteúdo em tigela. É a maneira tradicional. No meio do caldo amarelado, pedaços de ossos
e carne semelhante a peito de frango desfiado.
Foram conhecer o metrô e, por ele, foram ao Mercado de Jade. Uma oferta imensa de jóias. Uma delas despertou-lhe a curiosidade. Um colar protegido por pequena caixa de vidro. Perguntou o preço. Desinteressado o vendedor mostrou-lhe uma calculadora e digitou o número 80. Perguntou, incrédulo, apenas para tirar qualquer dúvida, se Yuan ou dólar.
Foram conhecer o metrô e, por ele, foram ao Mercado de Jade. Uma oferta imensa de jóias. Uma delas despertou-lhe a curiosidade. Um colar protegido por pequena caixa de vidro. Perguntou o preço. Desinteressado o vendedor mostrou-lhe uma calculadora e digitou o número 80. Perguntou, incrédulo, apenas para tirar qualquer dúvida, se Yuan ou dólar.
Resposta: - Dólares americanos.
Pediu para ver. Em suas mãos, confirmou; uma peça magnífica.
Pensou: há algum engano. Tentou negociar.
Pediu preço para quatro peças. Contendo sorriso o vendedor, tornou a mostrar a
calculadora e digitou: 80 x 4 = 320 . Fez
uma pequena pausa. Lentamente, olhando em seus olhos, foi acrescentando zeros.
Acrescentou um, dois, três zeros. Parou quando a calculadora mostrava o número
320.000,00. Estava, agora, claro. Quando
digitou oitenta, referia-se a oitenta mil dólares. Devolveu-lhe a peça sorrindo.
Mais uma lição: os chineses são espirituosos.
---
Ao anoitecer, sem o guia, foi ao Mac Donald, bem ao lado do
hotel. Pediu o trio, como fazemos aqui. Pão
com carne e queijo, batatas fritas e coca cola. Cobraram-lhe 16 Yuan, ou seja,
quatro reais. Achou que havia algo errado. Dessa feita, não. Apenas quatro
reais realmente. Ao voltar para o hotel, foi para o bar fazer hora. Era muito cedo
para ir dormir. Pediu, primeiro, uma cerveja que considerou mal gelada. Olhou o
cardápio que é feito com fotos. Ia escolher um uísque. Na procura, viu a foto
de garrafa de licor de absinto. Foi a sua escolha. Tomou três doses.
---
Chegando ao quarto, ligou a televisão para esperar o sono
chegar. Sem legenda e sem entender a língua é impossível gostar de televisão na
China. O programa que passava mostrava máquinas diferenciadas, máquinas
extraordinárias, todas fora do comum. As doses do absinto foram ajudando a
trazer o sono. A televisão mostrava, naquele momento, uma trituradora, uma
espécie de máquina de moer imensa, capaz de transformar em carne moída um
leitão inteiro. A potente máquina triturou ossos, cabeça, pele, tudo. Do outro
lado, saiu massa com o aspecto de carne moída. De repente, o programa foi
interrompido. Era o Jornal Nacional entrando em edição extraordinária. O
apresentador informou:
- “Comprovada a morte do massagista Lee que estava
desaparecido. O massagista foi assassinado na cozinha do restaurante “Bicho-Vivo”.
O açougueiro do restaurante
encarregou-se de esquartejá-lo
e foi jogando, na máquina trituradora, as partes: pernas, braços, tronco e
finalmente a cabeça. Do outro lado da máquina, o infeliz massagista saiu
transformado em mistura de proteína e cálcio, utilizada para alimentar peixes e
siris”.
De olhos arregalados, estava bestificado com a coincidência
incrível, pela maneira como foi tomando conhecimento dos fatos, até chegar a
saber da maneira com a qual sumiram com o corpo do massagista. Intrigava-se,
também, com o fato do apresentador ter se expressado na língua portuguesa, do
Jornal Nacional ter se preocupado com o assunto.
Ouviu, então, um som abafado de campainha. Pareceu-lhe que um
telefone havia tocado por perto, talvez dentro do programa da televisão. O
mesmo toque se repetiu, agora, um pouco mais alto. Procurou identificar melhor.
No terceiro toque, abriu os olhos. Era o seu despertador. A televisão ainda estava
ligada. Dormira sem desligar o televisor. Eram sete horas da manhã.
---
Após o banho ainda
estava intrigado com o ocorrido. Que coisa estranha! Que história mais louca, que
sonho mais maluco!
Quando o guia chegou, ainda sob o impacto do sonho, perguntou-lhe
se havia alguma novidade sobre o crime do restaurante. Talvez, pensou sem nada
falar, tivesse tido uma premonição, o que explicaria o seu sonho.
Disse-lhe Carbajal: - Não vai dar em nada. O comerciante é
muito rico, é influente no Partido. Contrariando as leis, tem três esposas e
ninguém faz nada. Esta história só vai fazer com que ganhe mais dinheiro. O
restaurante está mais frequentado do que nunca. Acontecido ou não, nada será
provado. Punição? Nem pensar.
Não teve coragem de falar-lhe sobre o sonho, mas disse-lhe
que queria ir almoçar no tal restaurante “Bicho-Vivo”. O sonho, certamente,
continuava mexendo com a sua cabeça.
Carbajal disse-lhe: -
Você vai gostar muito. É diferente pela possibilidade da escolha do peixe que
vai ser consumido, mas é bem ocidentalizado na maneira de atender e servir.
Uma boa escolha. Certamente vai gostar.
Quando chegaram, havia mesa na varanda. A vista do rio Pérola
era uma atração extra. No térreo, além da varanda com as mesas, um vasto salão
com diversos aquários dos mais variados tamanho. No primeiro, o mais destacado,
três enormes garoupas. Peixes com mais de dez quilos. Dezenas de outros aquários com os mais
diversos frutos do mar. Os camarões, separados por tamanho. Em cada aquário o
custo do quilo. Com puçá o garçom retira a porção, pesa e encaminha para a
cozinha com uma espécie de romaneio indicando a maneira de fazê-los e o número
da mesa do pedido. No meio dessa confusão, uma escada larga e suntuosa leva ao
andar superior onde se situam as mesas dos comensais. Escolheu quatro siris de
tamanho médio. Voltando para a mesa, pediu ao guia que lhe mostrasse a tal acesso
lateral, o local por onde teriam entrado com o massagista. Carbajal sorriu,
levantou-se e falou:
- Vamos lá.
Ao voltarem para a mesa, disse ao guia que iria ao banheiro .
Carbajal apontou para o saguão dos aquários informando que aquele era o mais
fácil de ser localizado.
Procurando, acabou passando pela cozinha. Uma imensa área fechada
por vidro para possibilitar, aos clientes, a observação da confecção dos
pratos. Muitos cozinheiros. O restaurante é muito grande. Uma espécie de açougueiro fatiava a cauda de
um jacaré. Na mesa auxiliar, a cabeça do bicho. Voltou-lhe o sonho. Seria
aquele o açougueiro que esquartejou o massagista? O açougueiro percebeu que ele
o olhava. Sorriu-lhe enquanto, com movimentos harmoniosos, fatiava o jacaré com
grande habilidade.
Pedindo licença, ao seu lado, passou funcionário empurrando
carrinho com um grande caldeirão. Parou em frente aos aquários dos siris. Com
uma concha, foi retirando e servindo a ração, aquário por aquário. Aproximou-se.
A ração parecia-se bastante com carne moída. O funcionário olhou-o e, como o
açougueiro, sorriu. O sonho voltou-lhe inteiro, mais vivo do que nunca. Voltou
para a mesa abalado, sem ter ido ao banheiro. Pediu uma dose de uísque. Trouxeram
o litro e deixaram na mesa. Serviu-se de dose dupla. Logo depois, outra. Buscava
equilíbrio, coragem para comer o que havia pedido. Pouco depois, quando pensava
em tomar uma terceira dose, chegaram os siris pedidos. O prato estava bonito,
mas a história do massagista não lhe saía da cabeça. Arroz e a carne dos siris
por cima. Deu a primeira garfada. Achou ótimo. Na quarta garfada, sentiu algo
diferente. Trouxe para a ponta da língua. Segurou com os dedos. O guia atento
tentou ajudar:
-“É pedacinho da casca do siri”.
É...pensou: e se for um pedacinho de unha do massagista?
