domingo, 29 de junho de 2014

BICHO-VIVO

                                                                       
Desde o planejamento, a distância foi o que o preocupou mais. A informação o assustou. Dois dias para se chegar à China, quarenta e oito horas. Diante do seu assombro e questionamento, o amigo, que já havia ido, confirmou:
- Saí de casa em uma quinta feira às 15 horas e cheguei ao hotel em Xangai, no sábado, também às quinze horas. É preciso coragem.  
---
Foi um ótimo voo. As primeiras onze horas vencidas com muita facilidade. O avião não estar lotado, deve ter ajudado. Transformou em cama quatro poltronas vazias no final do avião e dormiu quase o tempo todo. Chegou bem ao Charles De Gaulle. A espera para a segunda etapa foi pouca; duas horas e meia. Para Xangai, o avião lotou. Quase todos, chineses. O que sentou-se ao seu lado falava espanhol. Seu nome Xiang Meng. Estava há cinco anos na Espanha. Morava com a avó. Seu primo era o motivo da viagem. Desaparecido. Há mais de mês não ia ao trabalho, não atendia ao telefone. Em Xangai pegaria outro voo com destino a Guangzhou, cidade onde morava o seu primo. Sua missão, tentar descobrir o que havia acontecido com o primo sumido. Tinha o endereço da residência e do trabalho. Deu a impressão que temia pelo pior. Foi essa a conversa que travaram.
---
 Acordou com a movimentação para o pouso, com a voz do  comandante anunciando a chegada a Xangai. Havia sido alertado para os riscos da densidade demográfica. A China tem, extra oficialmente, um bilhão e oitocentos milhões de habitantes. Nove vezes mais do que o nosso Brasil. Foi a primeira contradição. O aeroporto vazio. Táxis para todos os lados. Chegou ao Shanghai Park Hotel, número 170, na Nanjing Road sem nenhuma dificuldade. Foi ao apartamento para um breve reconhecimento e desceu para conhecer a maior cidade da China e, talvez, a mais bonita. Vinte milhões de pessoas, duas vezes a população de São Paulo. Caminhou por três horas. Fácil de andar, sem risco de se perder. Uma enorme avenida, como a nossa Av. Paulista dava o norte. Referenciou o hotel e foi em frente. Fez pequenas compras. Pagou, em duas oportunidades, com nota de quinhentos yuan pois precisava de dinheiro trocado. Voltou para o hotel, escolheu um dos três restaurantes, foi jantar. Quando foi pagar, duas notas de cem, das que recebeu nas trocas, foram recusadas.  Falsas. Na recepção do hotel, orientaram-lhe como identificar as falsas. Confiscaram as que havia recebido. No primeiro dia, a primeira lição a custo relativamente baixo. Duzentos Yuan equivalem a pouco mais de cinquenta reais. Na verdade, não chamam o dinheiro de Yuan, falam  em “renmimbi”, e o abreviam com RMB.
---
No dia seguinte, após o café, conheceu a intérprete que seria, também, o seu guia. Uma chinesa que havia cursado línguas. Era especializada em português do Brasil. Como intérprete, adotou o nome de Mariana.
Na hora do almoço Mariana sugeriu-lhe o “bairro dos franceses”, onde ambiente e gastronomia eram ocidentalizados. Uma praça com diversos restaurante. Na entrada de um deles, bela escada mostrava um segundo andar. Subiram.  Perguntou a Mariana, enquanto aguardavam o atendimento, pela cidade de Guangzhou. Além de ser a próxima etapa da sua viagem, havia sido citada pelo chines que, no avião, vaijou ao seu lado. Após breve descrição da cidade, Mariana contou-lhe a seguinte história:
- Um ex-professor, de nome Chang, também intérprete, participa de curso que se realiza, em Guangzhou, todas as quintas. Nos dias do curso Chang pernoita no apartamento de um amigo dele. Chang tem a chave do apartamento de seu amigo, de nome Lee. Há algumas semanas não consegue vê-lo. O estado de abandono do apartamento dá-lhe a certeza de que o amigo não tem aparecido. Os vizinhos nada souberam informar. Na última semana Chang foi procurar Lee no trabalho. Lee é massagista. Chang foi informado que Lee não estava indo trabalhar há mais de mês. Estavam todos preocupados com o desaparecimento do massagista.
Foram interrompidos pela chegada do garçom com o almoço.  Mariana deixou-o no hotel e orientou-o para, na parte da noite, fazer passeio de barco no rio Huangpu. Falou-lhe que o acender das luzes dos prédios era espetáculo imperdível.
---
No barco, fazendo o passeio, vieram-lhe a cabeça as duas histórias: a que Mariana havia lhe contado no restaurante e a que ouvira durante a viagem no avião. Perguntou-se:- “Será que o tal do massagista Lee é o primo desaparecido do passageiro que viajou ao meu lado”. As duas histórias mostravam pontos em comum. A cidade, também, era a mesma. Decidiu que voltaria ao assunto com Mariana.
---
No outro dia, no saguão do hotel, logo após o café, Mariana o aguardava. Agradeceu-lhe a recomendação e disse-lhe que havia ficado encantado com o espetáculo das luzes. Perguntou-lhe se poderiam caminhar no calçadão do rio que lhe parecera muito bonito.
Durante a caminhada Mariana mostrou-lhe a estátua de Mao Tsé Tung e disse-lhe da sua importância no início da recuperação da China. Falou, com mais entusiasmo ainda, de Deng Xiaoping, seu sucessor e criador das Zonas Econômicas Especiais que possibilitaram, a partir da década de 80, o crescimento de 9% ao ano na China. Foi quem abriu os portos ao comércio internacional e cunhou a célebre frase que mudou a vida dos chineses:
 - “ Enriqueçam...não tenham vergonha de enriquecer.”
Quando surgiu a oportunidade, lembrou-a de que havia começado a lhe contar uma história no restaurante, no dia anterior. Pediu-lhe que a concluísse e deu-lhe suas razões. Estaria havendo uma grande coincidência?
 Mariana sorriu e falou que, provavelmente, estava imaginando coisas. Que havia contado a história porque, naquele dia, lendo o jornal, ficou muito impressionada com uma das notícias. Na primeira página, com uma das manchetes, tomou conhecimento de que, em Guangzhou, a policia investigava rico comerciante suspeito de haver mandado matar um homem. A reportagem informava que a suposta vítima era massagista da esposa do comerciante. Parece que eles estavam tendo um romance. O comerciante teria descoberto. A polícia havia recebido filmagem feita durante a madrugada, provavelmente com um celular, que mostrava a chegada de carro a um dos restaurantes do comerciante. Três homens desciam do carro e retiravam um saco grande e, carregando o saco, entravam pelo acesso lateral do restaurante. Com o filme, uma folha de papel assegurando que, no saco, estava o massagista desaparecido.   
Após fazer esse relato, Mariana respirou fundo e, sorrindo, disse-lhe ter feito ligação dessa reportagem com o que lhe havia contado seu colega Chang, mas que, certamente, era tudo imaginação dela. Que ele a perdoasse, pois essa história não deveria fazer parte do “pacote”.
Já no hotel, despediu-se de Mariana. No outro dia, de acordo com o roteiro. seguiria viagem.
---
 Em Guanghzhou, ficou em hotel mais popular. No entorno do saguão do hotel, uma série de corredores com lojas e serviços. Na primeira manhã, sem sucesso, tentou trocar dólares no hotel. Foi orientado para fazer a troca em agência bancária próxima. No Banco, constatou que o formulário precisava ser preenchido em “mandarim”. Recorreu à funcionária do setor de informações para o preenchimento do formulário.  Em pouco tempo saía do banco com a troca feita. Ao sair do banco, logo à sua esquerda, o rio Pérola margeado por um belo calçadão. No calçadão, deu pequena caminhada para a direita e localizou um restaurante especializado em frutos do mar. O nome: Hong Xing Seafood Restaurant. Ao retornar ao hotel, conheceu seu novo guia e tradutor. Um chinês de Hong Kong que havia morado, por dez anos, na Argentina. Seu novo guia atendia por Carbajal. Aparentava ter sessenta anos. Sem a desenvoltura de Mariana, expressava-se em mistura de português e espanhol. Contou ao guia sua ida ao banco. Disse-lhe que havia ido ver o rio, falou-lhe do restaurante. Carbajal disse-lhe que o restaurante era uma peixaria típica, conhecida por Bicho-Vivo, um ponto da cidade muito frequentado por turistas. Apresenta, em sua entrada, em aquários, ainda vivos, os frutos do mar que vão ser consumidos. Sorriu e disse, zombeteiro, que agora o restaurante tinha uma atração extra. O proprietário estava envolvido como mandante de um crime. Não lhe ficou nenhuma dúvida de que estavam falando da mesma história ouvida no avião e narrada por Mariana. Contou para Carbajal as histórias que haviam lhe contado. Perguntou-lhe se achava possível que estivessem falando do mesmo caso. Carbajal sorriu e lhe disse que a China era muito grande, mas que tudo era possível.
---
A primeira visita foi em mercado típico da cidade onde se compra e se come quase de tudo. Pequenos boxes e todos com fila dos frequentadores. Levou-o a um onde a fila era ainda maior. Tomavam uma espécie de sopa de cobra. Servem mil pratos por dia. Em caldeirão imenso e fumegante, a funcionária enfia concha grande e coloca o conteúdo em tigela. É a maneira tradicional.  No meio do caldo amarelado, pedaços de ossos e carne semelhante a peito de frango desfiado. 
Foram conhecer o metrô e, por ele, foram ao Mercado de Jade. Uma oferta imensa de jóias. Uma delas despertou-lhe a curiosidade. Um colar protegido por pequena caixa de vidro. Perguntou o preço. Desinteressado o vendedor mostrou-lhe uma calculadora e digitou o número 80. Perguntou, incrédulo, apenas para tirar qualquer dúvida, se Yuan ou dólar.
Resposta: - Dólares americanos.
Pediu para ver. Em suas mãos, confirmou; uma peça magnífica. Pensou: há algum engano.  Tentou negociar. Pediu preço para quatro peças. Contendo sorriso o vendedor, tornou a mostrar a calculadora e digitou:  80 x 4 = 320 . Fez uma pequena pausa. Lentamente, olhando em seus olhos, foi acrescentando zeros. Acrescentou um, dois, três zeros. Parou quando a calculadora mostrava o número 320.000,00. Estava, agora, claro.  Quando digitou oitenta, referia-se a oitenta mil dólares. Devolveu-lhe a peça sorrindo. Mais uma lição: os chineses são espirituosos.
---
Ao anoitecer, sem o guia, foi ao Mac Donald, bem ao lado do hotel.  Pediu o trio, como fazemos aqui. Pão com carne e queijo, batatas fritas e coca cola. Cobraram-lhe 16 Yuan, ou seja, quatro reais. Achou que havia algo errado. Dessa feita, não. Apenas quatro reais realmente. Ao voltar para o hotel, foi para o bar fazer hora. Era muito cedo para ir dormir. Pediu, primeiro, uma cerveja que considerou mal gelada. Olhou o cardápio que é feito com fotos. Ia escolher um uísque. Na procura, viu a foto de garrafa de licor de absinto. Foi a sua escolha. Tomou três doses.
---
Chegando ao quarto, ligou a televisão para esperar o sono chegar. Sem legenda e sem entender a língua é impossível gostar de televisão na China. O programa que passava mostrava máquinas diferenciadas, máquinas extraordinárias, todas fora do comum. As doses do absinto foram ajudando a trazer o sono. A televisão mostrava, naquele momento, uma trituradora, uma espécie de máquina de moer imensa, capaz de transformar em carne moída um leitão inteiro. A potente máquina triturou ossos, cabeça, pele, tudo. Do outro lado, saiu massa com o aspecto de carne moída. De repente, o programa foi interrompido. Era o Jornal Nacional entrando em edição extraordinária. O apresentador informou:
- “Comprovada a morte do massagista Lee que estava desaparecido. O massagista foi assassinado na cozinha do restaurante “Bicho-Vivo”. O açougueiro do restaurante
 encarregou-se de esquartejá-lo e foi jogando, na máquina trituradora, as partes: pernas, braços, tronco e finalmente a cabeça. Do outro lado da máquina, o infeliz massagista saiu transformado em mistura de proteína e cálcio, utilizada para alimentar peixes e siris”.
De olhos arregalados, estava bestificado com a coincidência incrível, pela maneira como foi tomando conhecimento dos fatos, até chegar a saber da maneira com a qual sumiram com o corpo do massagista. Intrigava-se, também, com o fato do apresentador ter se expressado na língua portuguesa, do Jornal Nacional ter se preocupado com o assunto.
Ouviu, então, um som abafado de campainha. Pareceu-lhe que um telefone havia tocado por perto, talvez dentro do programa da televisão. O mesmo toque se repetiu, agora, um pouco mais alto. Procurou identificar melhor. No terceiro toque, abriu os olhos. Era o seu despertador. A televisão ainda estava ligada. Dormira sem desligar o televisor. Eram sete horas da manhã.
---
 Após o banho ainda estava intrigado com o ocorrido. Que coisa estranha! Que história mais louca, que sonho mais maluco!
Quando o guia chegou, ainda sob o impacto do sonho, perguntou-lhe se havia alguma novidade sobre o crime do restaurante. Talvez, pensou sem nada falar, tivesse tido uma premonição, o que explicaria o seu sonho.
Disse-lhe Carbajal: - Não vai dar em nada. O comerciante é muito rico, é influente no Partido. Contrariando as leis, tem três esposas e ninguém faz nada. Esta história só vai fazer com que ganhe mais dinheiro. O restaurante está mais frequentado do que nunca. Acontecido ou não, nada será provado. Punição? Nem pensar.
Não teve coragem de falar-lhe sobre o sonho, mas disse-lhe que queria ir almoçar no tal restaurante “Bicho-Vivo”. O sonho, certamente, continuava mexendo com a sua cabeça.
 Carbajal disse-lhe: - Você vai gostar muito. É diferente pela possibilidade da escolha do peixe que vai ser consumido, mas é bem ocidentalizado na maneira de atender e servir. Uma boa escolha. Certamente vai gostar.
Quando chegaram, havia mesa na varanda. A vista do rio Pérola era uma atração extra. No térreo, além da varanda com as mesas, um vasto salão com diversos aquários dos mais variados tamanho. No primeiro, o mais destacado, três enormes garoupas. Peixes com mais de dez quilos.  Dezenas de outros aquários com os mais diversos frutos do mar. Os camarões, separados por tamanho. Em cada aquário o custo do quilo. Com puçá o garçom retira a porção, pesa e encaminha para a cozinha com uma espécie de romaneio indicando a maneira de fazê-los e o número da mesa do pedido. No meio dessa confusão, uma escada larga e suntuosa leva ao andar superior onde se situam as mesas dos comensais. Escolheu quatro siris de tamanho médio. Voltando para a mesa, pediu ao guia que lhe mostrasse a tal acesso lateral, o local por onde teriam entrado com o massagista. Carbajal sorriu, levantou-se e falou:
 - Vamos lá.
Ao voltarem para a mesa, disse ao guia que iria ao banheiro . Carbajal apontou para o saguão dos aquários informando que aquele era o mais fácil de ser localizado.
Procurando, acabou passando pela cozinha. Uma imensa área fechada por vidro para possibilitar, aos clientes, a observação da confecção dos pratos. Muitos cozinheiros. O restaurante é muito grande.  Uma espécie de açougueiro fatiava a cauda de um jacaré. Na mesa auxiliar, a cabeça do bicho. Voltou-lhe o sonho. Seria aquele o açougueiro que esquartejou o massagista? O açougueiro percebeu que ele o olhava. Sorriu-lhe enquanto, com movimentos harmoniosos, fatiava o jacaré com grande habilidade. 
Pedindo licença, ao seu lado, passou funcionário empurrando carrinho com um grande caldeirão. Parou em frente aos aquários dos siris. Com uma concha, foi retirando e servindo a ração, aquário por aquário. Aproximou-se. A ração parecia-se bastante com carne moída. O funcionário olhou-o e, como o açougueiro, sorriu. O sonho voltou-lhe inteiro, mais vivo do que nunca. Voltou para a mesa abalado, sem ter ido ao banheiro. Pediu uma dose de uísque. Trouxeram o litro e deixaram na mesa. Serviu-se de dose dupla. Logo depois, outra. Buscava equilíbrio, coragem para comer o que havia pedido. Pouco depois, quando pensava em tomar uma terceira dose, chegaram os siris pedidos. O prato estava bonito, mas a história do massagista não lhe saía da cabeça. Arroz e a carne dos siris por cima. Deu a primeira garfada. Achou ótimo. Na quarta garfada, sentiu algo diferente. Trouxe para a ponta da língua. Segurou com os dedos. O guia atento tentou ajudar:
-“É pedacinho da casca do siri”.

É...pensou: e se for um pedacinho de unha do massagista?  

sábado, 21 de junho de 2014

O JURADO

Ao acordar, sabia que aquele seria um dia diferente. A convocação para participar do júri estava ali, na mesinha de cabeceira. Coisa obrigatória. Não havia como recusar. Terno e gravata estavam separados. Grande aporrinhação. Envolver-se com história de crime, ter de decidir se absolve ou condena. Pouco tempo para entender história contada com versões distintas. Os argumentos da defesa, quase sempre, convincentes. A acusação  quando usa a palavra, abala as convicções firmadas. Tempo nenhum para amadurecimento. Os jurados, após ouvirem versões e argumentos, precisam, respondendo a perguntas que nem sempre são as que se fazem, decidir o que deve ocorrer. Joga-se um inocente na cadeia? Deixa-se nas ruas um criminoso?
---
A lei não permite que os jurados dividam a responsabilidade entre si. Ficam incomunicáveis. Não podem trocar ideias sob pena de anulação do júri. Não deveria ser assim. Era preciso que pudessem discutir, trocar opiniões. As pessoas deveriam ser preparadas para essa função, uma espécie de curso antes de atuarem como jurados. Talvez devessem ser estudantes de advocacia por conhecerem as leis. Quem sabe estudantes de sociologia ou de psicologia, por serem estudiosos do comportamento humano?
---
Não tinha a menor ideia de como começara a participar do corpo de jurados. Por sua vontade, jamais. De repente, o correio chegava com carta que exigia a assinatura; precisava comprovar o recebimento. Sem ler, já sabia; lá estava uma nova convocação.
Sempre havia a possibilidade de não ser sorteado. Isso só seria definido na hora. Podia ocorrer de, mesmo sendo sorteado, ser recusado por uma das partes. Com ele nunca ocorrera. Nos vinte anos em que foi membro de júri, sempre que sorteado foi aceito. Talvez por ter nível superior, ser pessoa bem conceituada na cidade. O certo é que nunca escutara: 
- A defesa agradece e recusa o jurado.
Quando ocorria, e quase sempre ocorria, o recusado se sentia desprestigiado, como se duvidassem dele.
---
Algumas vezes, com todo o tribunal formado, a sessão era adiada. Quase sempre por não terem conseguido condução para trazer o acusado. Coisa que não dava para entender. Se havia uma sessão marcada, como não ter condução para trazer o réu? Mas era o Brasil. O que fazer? Voltar para casa. Aguardar nova convocação. Se pudesse, sairia do corpo de jurados. Mas como? Estava fora do seu alcance, do alcance das pessoas normais.
---
Almoçou mais cedo, sozinho. Não aguardou, como era costume, a esposa voltar do trabalho. Comeu pouco. Não tomou suco. Havia ainda estes problemas do ser humano. E se desse dor de barriga? Vontade de urinar? Nunca vira um júri ser interrompido para que um jurado fosse ao banheiro. Torcia para que não ocorresse com ele.  Seria mais um constrangimento.
Após escovar os dentes, deu um último retoque no laço da gravata. Colocou o paletó, conferiu os documentos. Já na calçada, olhou para o céu. Talvez pedisse ajuda. Foi para o Fórum.
---
Na sala de espera, os membros do júri, conversavam animadamente. Quase todos se conheciam bem. O corpo de jurados não era renovado com frequência. Já haviam vivido juntos, muitas vezes, aquela experiência. Sabiam que era a última oportunidade de se falarem. Quando entrassem na sala, a comunicação seria proibida. Ayrton contava que aquele era o segundo julgamento do réu. No primeiro fora condenado; pena de vinte anos. O que se diz é que havia matado um valentão com quatro tiros.  Um tal de Paulo Maluco, lutador de artes marciais. Pesou muito, continuou contando Ayrton, o fato de o último tiro ter sido dado nas costas. O motivo de um novo júri não se conhecia, mas, lá estavam eles para participar daquela encrenca.
Não havia tensão em nenhum dos semblantes. Aparentemente cumpriam mais uma obrigação. Os que eram funcionários públicos sem conseguir disfarçar a alegria. Não precisaram ir trabalhar. O mesmo ocorria com os que eram empregados. Livres do escritório teriam dia diferente. Se não fossem sorteados, melhor ainda. O resto da tarde livre.
Ayrton era o mais idoso. Aposentado.  Participava com alegria do corpo de jurados. Ajudava a preencher o seu dia, motivava sua vida. Contou, ainda, que o réu era filho de um tal Santinho, funcionário aposentado da Caixa Econômica, gente boa, família tradicional. Parece que o filho estava com uma antiga namorada do Paulo Maluco. Esse havia sido o motivo do crime. Quando Paulo Maluco viu os dois juntos, partiu para a agressão. O filho do Santinho, bem mais fraco, para não apanhar, correu. Refugiou-se na casa do pai. Mais tarde os dois envolvidos tornaram a se encontrar. O filho do Santinho deu quatro tiros no Paulo Maluco. O último nas costas, quando o tal de Paulo Maluco já estava caído no chão. Parece que não houve testemunhas. O advogado de defesa foi o Dr. Noel, que não atuará hoje. Dizem que desistiu da causa por não ter recebido a complementação dos honorários. Ayrton deu sua fala por encerrada. Levantou-se e foi para o cafezinho.
---
A vida é interessante. As cabeças são muito diferentes. Regra geral, se um trabalho fica mal feito, trata-se de refazê-lo e ainda se pede desculpas. Vem o Ayrton contar que esse Dr. Noel perde a causa, deixa o cliente levar vinte anos de cadeia, e ainda fica aborrecido por não ter recebido parte dos honorários. Só rindo.
---

A porta da Sala do Júri foi aberta. É quase a sala de um teatro. 
A platéia e o palco.  No centro, o Juiz; à sua direita, a acusação e à esquerda, a defesa. À frente da acusação uma espécie de gradil onde ficam as sete cadeiras dos jurados. Em frente à defesa, a cadeira do réu.



Um auxiliar aproximou-se do Juiz. Ia dar início ao sorteio dos jurados. Os sorteados e aprovados, um a um, iam assumindo as cadeiras destinadas aos jurados. Preenchiam primeiro as quatro da parte superior. Depois as três da parte inferior. Coube-lhe a primeira da parte inferior, a mais próxima da tribuna de acusação. Sentado, procurou situar-se. Por sua cabeça passavam algumas divagações. O que haveria por trás daquela disposição? Os jurados estavam próximos da acusação, afastados da defesa. É verdade que o tamanho da sala não dificultava a audição. Não era apenas isso. A disposição parecia ser emblemática. A proximidade impressiona, amedronta. A acusação, a seu ver, era favorecida. Com aquela disposição começava a se quebrar um dos alicerces da justiça: - “Na dúvida para o réu”.
---
Escoltado por dois policiais, entrou o réu de cabeça baixa. Era sempre assim. Parecia uma encenação. Senta-se e mantém a cabeça baixa. Os dois policiais ao seu lado. Pouco mais do que um menino. Louro, baixo, magro. Ninguém o diria capaz de matar um outro homem. Ainda mais com quatro tiros. Foi informado aos presentes que o réu não tinha advogado. 
O Juiz interrompeu a sessão e definiu que deveria haver um substituto. Como em passe de mágica, apareceu o advogado substituto. Parecia tudo uma grande encenação.
Durante vinte minutos, foram lidos os documentos referentes ao processo e uma espécie de ata do primeiro júri. Logo após, foi feita a identificação do réu. O nome, Renato. Vinte e cinco anos de idade.
Foi convocado para dar o seu depoimento, contar a sua versão do ocorrido. Com bastante desembaraço, disse que estava assistindo à parada escolar no feriado de Sete de setembro. Estava com sua namorada. Chama-se Maria. Sabia que ela havia sido namorada do Paulo Maluco. Quando começou o namoro, Maria já havia terminado com Paulo há mais de seis meses. Já tinham sido vistos juntos por ele, cruzaram na rua diversas vezes sem que houvesse qualquer tipo de problema. Não entendeu por que naquele dia Paulo chegara dando decisão, dizendo precisar falar com ele a sós. Recusou-se. Paulo alterou a voz. Foram os presentes que impediram uma possível briga. Um amigo o aconselhou a sair de lá. Acatou. Paulo viu os dois saírem sem nenhuma reação. Deixou a namorada na rodoviária e foi para a casa do pai que morava perto e com quem havia combinado almoçar. Dormiu um pouco após o almoço e, quando resolveu ir embora, ainda na varanda, viu Paulo Maluco na calçada em frente de onde falou:
- Renato... quero falar com você.
Voltou para dentro de casa. Contou ao pai o que havia ocorrido na parte da manhã. Foi aconselhado a ficar, esperar que Paulo cansasse e fosse embora. O pai disse que Paulo Maluco deveria estar sob o efeito de alguma coisa. Bebida, maconha ou coisa pior. Talvez, passando o efeito, ele vá embora. Aguardaram. Volta e meia olhava pelo vidro da janela e via o Paulo. Escureceu e Paulo Maluco não arredou o pé. O pai o aconselhou a dormir lá. Não queria. Precisava tratar da vida. Quando olharam a última vez, Paulo Maluco já não estava mais. Com cautela foi até a varanda. Aproximou-se do portão da calçada. Olhou para os dois lados. Ninguém. Voltou para a casa e disse ao pai que ia embora. O pai tornou a lhe pedir que ficasse, que dormisse com ele. Não quis. O pai foi até o quarto, abriu a gaveta da mesinha de cabeceira e pegou um revólver. Pediu-lhe que levasse. Apenas por precaução. Informou que estava carregado com cinco balas.
---
Eram 22 horas quando começou a andar, rápido e amedrontado, pela calçada. Quando se aproximava da esquina, Paulo saiu detrás de um poste do outro lado da rua e veio em sua direção. Sacou o revólver da cintura pensando em intimidá-lo. Paulo continuou caminhando em sua direção. Andando para trás deu um tiro em direção a Paulo, um tiro para assustar, para o chão. Paulo Maluco continuou andando. Deu um segundo tiro, pensando em atingir as pernas. Paulo continuou avançando. Sempre recuando, deu outro tiro e mais outro e só então Paulo parou. Ficou ajoelhado e depois deitou. Barriga e cara no chão. A vizinhança começou a abrir portas e janelas. Ouviu alguém dizer que havia chamado a polícia. Correu de volta para a casa do pai. Lá ficou até a polícia chegar e o prender. Quando saiu, a rua estava cheia. Envergonhou-se por estar com a calça urinada. Teve medo do Paulo que não deu um gemido, não pronunciou uma palavra. Estirado no chão, Paulo, morto, coberto com um plástico preto, ainda o assustava.
---
Assim que o réu iniciou o seu depoimento, o promotor começou a "lutar" com os três imensos volumes colocados à sua frente. Primeiro identificou um volume. Depois de folheá-lo por um tempo, parou. Deve ter encontrado o que, com pressa, procurava. Provavelmente o depoimento do réu dado no primeiro júri que teve outro promotor. Durante toda a fala do réu, com o dedo indicador na folha do processo, parecia tentar conferir o depoimento de agora, com o dado no primeiro júri. Depois que o réu terminou, continuou folheando e fazendo paradas ocasionais para ler, mais atentamente, alguma coisa. Fazia anotações em um bloco ao seu lado. Olhou um monte de fotografias. Separou duas e deixou-as sob o bloco de anotações. Continuou folheando o processo. Em determinado momento, pareceu dar-se por satisfeito. Colocou os três calhamaços de lado. 
---
Ficou, para os jurados, a sensação de que aquele era o primeiro contato do promotor com o processo. Embora comum, não era procedimento justo. Nem para o promotor nem para o réu. Pouco tempo para conhecer o processo. Ter que fazer uma acusação, definir, com quase nenhuma base. Aparentemente o Promotor não tomou conhecimento deste problema ético. Foi firme, confiante e contundente em sua fala:
- Senhores jurados. Os senhores acabam de ouvir um depoimento eivado de mentiras. Nada do que o réu falou pode ser levado em consideração. Mostrar arma para assustar? Nem como piada. Quem quer apenas assustar dá quatro tiros? Não se deixem enganar. O réu está tão desnorteado hoje, quanto no dia do crime. O dia em que matou um homem desarmado. Quatro tiros em um homem desarmado, apenas na presunção de que o homem queria agredi-lo. A mente do réu criou os fatos. Hoje o medo é da prisão. É o mesmo medo que o fez perder o controle, urinar-se como criança. Falou em quatro tiros. É verdade. O réu deu quatro tiros. Omitiu um pequeno detalhe. Foi no terceiro tiro que a vítima caiu ajoelhada e posteriormente deitou-se. Omitiu o fato de que foi com a vítima subjugada, deitada de bruços, esvaindo-se em sangue, incapaz de qualquer reação, que ele desferiu o quarto tiro. Um tiro nas costas. Um tiro desnecessário e covarde. Só não deu um quinto tiro em função do alarde da vizinhança. A imaginação doentia do réu criou a possibilidade de uma agressão. Em nenhum momento a vítima fez uma única ameaça. São palavras do réu:
-“Teve medo do Paulo que não deu uma palavra...”
Reagiu contra uma possibilidade da sua imaginação, com quatro tiros. Um na perna, um na coxa, um no abdômen e o último nas costas. Nas costas, senhores jurados, nas costas de um homem já caído que não podia esboçar nenhum tipo de reação. Um homem que não se constituía mais em nenhum tipo de ameaça. Um tiro nas costas de um homem já quase morto.
Infelizmente, o crime foi sem testemunhas. Isto permite ao réu contar a história que bem entender. Tenta chantagem emocional com os jurados. Inventa uma legítima defesa, que é quando se mata para não morrer. Felizmente, contra os fatos não há argumentos.
O promotor fez uma pausa. Apanhou as duas fotografias que havia selecionado e desceu do seu púlpito. Aproximou-se dos jurados e ali continuou sua preleção.
- Caríssimos membros do júri. Como já disse, contra fatos não há argumentos. Vejam estas fotos produzidas pela perícia. Trabalho da nossa valorosa polícia civil. Vejam aqui, a vítima fotografada de frente. Vejam as quatro perfurações. Quatro tiros. Vejam esta outra com a vítima de costas. Novamente quatro perfurações. De frente e de costas. Mostro-lhes para que os senhores não tenham dúvidas. Não houve nada desta conversa de que quis, inicialmente, apenas assustar, que atirou no chão. Mentira, tudo mentira. Deu quatro tiros e acertou os quatro tiros. Isto prova que conhece armas, que sabe utilizá-las. E o último tiro, senhores jurados, nas costas de um homem caído e incapaz de qualquer reação. Será que alguém pode imaginar que um homem baleado na perna, pouco abaixo do joelho... Vejam aqui, vejam na foto. Alguém imagina que este homem continue andando? Vamos imaginar, por um brevíssimo segundo, apenas imaginar que sim. Que este homem, já com um tiro na perna, tome um segundo tiro, agora na coxa e ainda continue andando, continue se constituindo em uma ameaça? Uma ameaça que em nenhum momento se concretizou, uma ameaça apenas intuída na mente de um homem acovardado. Difícil, muito difícil. Mas vamos continuar examinando a historinha contada pelo réu. Vamos acreditar, por um segundo, apenas um segundo, que sim, que por um milagre este homem com superpoderes continuasse andando e por ainda se constituir, na historinha do réu, em uma ameaça, merecesse um terceiro tiro.
Agora na barriga. Meu Deus, o réu quer nos fazer acreditar que este homem, com três balas no corpo, continuou andando, continuou sendo uma ameaça à vítima que se viu obrigada a fazer um quarto disparo? Não, os senhores não podem acreditar nesta história que é um desrespeito à inteligência de todos nós. O réu é um homem perigoso. Um desequilibrado. Precisa ser afastado da sociedade.
---
Da cadeira em que estava sentado, bem próximo do Promotor, teve visão privilegiada das fotografias. Pôde ver com clareza as quatro pequenas perfurações na parte da frente do corpo. Viu também, com nitidez, a fotografia da vítima de costas. Quatro perfurações bem maiores.  As duas fotografias atraíram completamente sua atenção. Como se quisesse guardá-las em sua mente. Uma sensação estranha. Não conseguia desligar-se das fotografias. Tentava, em vão, fixar-se no Promotor que continuava falando. Em pouco tempo não ouvia mais nada. Via os movimentos dos lábios do promotor. Nenhum som. Não estava em sua normalidade, já não era mais ele. Confundia-se com as fotos, estava dentro das fotos, ele era as fotos. Estaria enlouquecendo? Todo o corpo diferente, adormecido. Segurou-se no assento da cadeira. Teve a sensação de que ia cair. Pior, de que ia flutuar. A vista embaçou. Vieram-lhe imagens do tempo da Faculdade, das aulas de medicina legal.  Novamente na sala de aula da Faculdade. No lugar do promotor, o velho professor Edgar, na aula de balística, detalhando o percurso dos projéteis nas mortes por tiro. Ele lá, na primeira carteira, embevecido com as palavras do mestre.
---
Quando voltou do transe, a testa estava suada. Passou o lenço no rosto e então, como em passe de mágica, tudo voltou à normalidade. Sim, mas é claro. Não tinha mais nenhuma dúvida. Ainda não sabia como proceder, como fazer. Meu Deus, o que teria sido aquilo? Um espírito? Teria recebido uma manifestação? Espantado com o que lhe ocorrera, percebeu que a palavra já estava com o Juiz e que parte do juri já estava chegando ao fim.Ouviu, agora já em plena normalidade, a oratória do Juiz:
- "Acredito que tudo o que tinha para ser falado, já foi abordado. Tudo o que havia para ser visto, já foi mostrado. As partes tiveram a possibilidade de expressar com liberdade e com clareza, cada um em seu tempo, o seu ponto de vista. O Ministério da Justiça mais uma vez cumpriu com o seu dever. Agora a decisão fica nas mãos dos jurados e eu lhes pergunto: Alguma dúvida, algum esclarecimento ou os senhores já se consideram prontos para a votação"?
O Juiz olhou para os jurados por olhar. Nunca acreditou em uma possível manifestação que achava, com certeza, não viria. Assustou-se quando viu o jurado levantar o braço, fazer o gesto com tranquilidade embora soubesse que ia desagradar. Era a oportunidade que o jurado aguardava. O braço levantado provocou espanto na sala. Foi foco de atenção de toda a platéia. A voz que não escondia a irritação do Juiz, quebrou o silêncio da sala:
- "Qual é a sua dúvida"?
Olhou para o Juiz, abaixou o braço lentamente e disse:
- Gostaria de ver, novamente, as fotos mostradas pelo Promotor.
O Juiz, mais do que irritado, agressivo, indagou:
- "Por qual motivo? A promotoria já apresentou as fotografias para o corpo de jurados. O senhor já teve a chance de ver as fotos".
- Peço perdão pela insistência, mas preciso ver as fotos novamente.
A voz do Juiz, novamente, tomou conta da sala :
- "Mas o que o senhor pretende com isso"?
- Só vendo as fotos, novamente, poderei me declarar em condições de dar o meu voto.
O Juiz, mais controlado, dirigiu-se ao Promotor.
- "Por favor. Mostre novamente as fotos a este jurado. Cuide para que não fique nenhuma dúvida".
O promotor, com as fotos na mão, desceu de seu púlpito e dirigiu-se ao jurado. Com uma foto em cada mão, exibiu-as ao jurado. Com serenidade perguntou:
- Qual a sua dúvida? Será que posso ajudá-lo?
A abordagem amiga do Promotor contrastou com a do Juiz. O silêncio era total.
- Perdoe a ousadia, senhor. Vejo nesta foto na qual a vítima está de frente, quatro pequenas perfurações que indicam os locais das penetrações das balas. Nesta outra, na qual a vítima está de costas, quatro perfurações maiores, características de saídas de balas. Não consigo encontrar o tiro pelas costas que o senhor mencionou. Para que isso tivesse ocorrido, seria necessário que nas costas houvesse uma pequena perfuração indicando a entrada do projétil e no peito, uma perfuração maior indicando por onde a bala teria saído.
O Promotor que até então olhava apenas para o jurado, franziu a testa e virou as fotografias para si. Olhou-as cuidadosamente. Uma a uma. Nada falou. Voltou para o seu lugar e pegou as outras fotos. Examinou-as demoradamente. Depois de alguns minutos, encaminhou-se para o Juiz com as fotos na mão e segredou-lhe alguma coisa. Logo depois, entregou-lhe as fotos. Inicialmente só as duas examinadas pelo jurado. Depois todas as outras. O Juiz olhou as fotos demoradamente. Chamou o advogado de defesa. Mostrou-lhe as fotos e disse-lhe algumas coisas. Voltou a falar com o promotor. A seguir, o Juiz anunciou:
- "A sessão está suspensa por dez minutos".
O Juiz, o promotor e o advogado de defesa foram para a sala reservada.
A platéia e os demais jurados sabiam que alguma coisa estava acontecendo e que estava relacionada à conversa do promotor com o jurado.
Passado algum tempo, as três autoridades voltaram a seus lugares. O juiz foi o primeiro a falar:
- "Hoje este fórum vive um momento histórico, invulgar. Fala-se que o Júri popular deve ser extinto, que não se pode mais decidir as causas com a opinião do jurado leigo. Hoje este tribunal prova a importância do Júri popular. A observação atenta do jurado mostrou que a acusação caminhava por um caminho equivocado. Cabe a este Tribunal promover, acima de tudo, a justiça. Para que isto se faça dou, por mais dez minutos, a palavra ao Promotor com a prévia concordância do advogado de defesa".
O Promotor assim se pronunciou:
- Agradeço a Deus que, certamente, esteve presente nesta sessão. Agradeço ao jurado que teve a coragem de manifestar sua dúvida e com isto me impedir de cometer um grave erro. Desculpo-me com todos os jurados, com os presentes e, sobretudo, com o réu. Foi no início desta sessão que tomei conhecimento do processo. O pouco tempo e a obrigação de me pronunciar me levaram ao equívoco.  Sem maiores cuidados, adotei a tese da promotoria do primeiro júri. Errou o colega e errei eu. A perícia com suas fotos, com clareza, prova que não houve o tiro pelas costas. Não posso permitir que meu equívoco influencie a decisão dos jurados. Assim, declaro a todos que me enganei. Não houve o tiro nas costas. Devo dizer aos jurados, finalizando, que acredito na história contada pelo réu.
---
Pouco depois, os jurados foram levados para a sala reservada. Passaram-se vinte minutos. Os jurados voltaram para seus lugares.
O Juiz anunciou a decisão dos jurados:
- O réu foi absolvido. Por seis votos contra um foi considerado inocente.
A satisfação com o resultado estava presente no rosto de todos os presentes.
---
O único voto pela condenação foi dado pelo jurado que questionou as fotografias, que demonstrou que o tiro pelas costas, realmente, não houve. Independente de seu questionamento, considerou o réu culpado, votou por sua condenação. Não houve o tiro nas costas, mas o promotor estava correto em sua alegação. Quatro tiros em um homem desarmado, apenas na presunção de que o homem queria agredi-lo. O réu se amedrontou. Sua mente criou os fatos. O réu é um desequilibrado, um homem perigoso, uma ameaça para a sociedade. Não deveria ser libertado.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O FLAGRANTE (continuação de Três calcinhas)

O som do quarto do motel estava altíssimo. A música era funk. Paulão quem havia escolhido. Logo que ligou o som, falou com Teresa:
- Quero você dançando. Quero ver você, só de calcinha, dançando para o seu macho. Queria que o corno estivesse aqui para ver isso.
Teresa desconversou. Paulão insistiu. Enquanto não dançou, não teve sossego. Não houve como evitar. Dançou, contra a vontade, mas dançou. Paulão deitado, nu, com cara de enfastiado, ordenou:
- Para. Pode parar. Você está por fora. Nem para dançar você serve. Tire a calcinha e vem para cá. Quero você aqui, em cima de mim. Aqui você sabe rebolar.
Nua, Teresa quis abaixar o som. Paulão gritou: - Deixe. Não mexa na música.
---
Talvez a altura do som, não a tenha deixado perceber quando a porta do quarto foi aberta. Só constatou alguma anormalidade, com a luz forte do primeiro flash. Instintivamente fechou os olhos. Até entender o que estava havendo, o clarão breve e intenso se repetiu diversas vezes.  Continuavam na cama. Paulão de barriga para cima e ela sentada sobre ele. Estava de costas para Paulão, de frente para a porta do quarto, para as luzes que eclodiam. Quando percebeu que o quarto havia sido invadido, tratou de desmontar-se de Paulão. Ficou em pé ao lado da cama. Nua, inteiramente nua. Os clarões continuavam. Para proteger os olhos, desviou o rosto e foi então que viu Paulão, sentado na cama, protegendo, com as mãos, os olhos. Os flashes cessaram. Pôde ver,então, no primeiro plano, um homem com uma máquina de fotografia. Ao seu lado, mais dois, também, desconhecidos. Apanhou a toalha ao pé da cama, para resguardar sua nudez.  Estatelou os olhos quando viu seus pais e Roberto, seu marido. Só aí a ficha caiu.
O fotógrafo foi o primeiro a sair do quarto. Queria examinar as fotos feitas. Um dos policiais definiu o próximo passo :
- Vocês têm cinco minutos para se vestirem. Vamos aguardar no corredor.
---
Os pais de Teresa nada falaram. O impacto foi muito grande. Roberto, mesmo preparado, estava desnorteado. Calado esperava algum posicionamento, alguma orientação. No corredor o silêncio foi quebrado pelo fotógrafo. Dirigiu-se a um dos policiais, o que parecia o chefe, dizendo que as fotos haviam ficado ótimas. Mostrando-as no visor da máquina, explicava:
- As de número 4 , 5 e 6  provam o adultério. As duas primeiras, quando a mulher está saindo de cima do homem, permitem a comprovação da penetração. O pênis está bem visível e ainda parcialmente dentro da vagina. A foto de número 6, quando a mulher está saindo da cama, permite ver a cara do homem já sentado mas ainda em ereção.  Os dois na mesma cama, pelados, com as caras bem visíveis. Não há o que questionar. O adultério está comprovado. Comprovadíssimo.
---
Roberto não quis ver as fotos. Perguntou aos sogros se queriam ir embora . A sogra, com lágrimas nos olhos, confirmou balançando a cabeça. Os três saíram antes que a porta do quarto se abrisse. Não trocaram uma única palavra durante o percurso de volta. Quando parou em frente à casa dos sogros, Roberto falou:
- Eu também sinto muito. Infelizmente era necessário que vocês vissem com seus próprios olhos. Não houve como evitar. Eu também estou arrasado.
O casal, sem nada falar, saiu do carro. Sem olhar para trás, Roberto seguiu para sua casa. No porta-malas do carro, os sacos que havia comprado. Em casa, colocou todos os pertences de Teresa em quatro sacos. Conforme havia combinado com o irmão, deixou-os no escritório. O irmão os levaria para a casa dos pais de Teresa. Depois, foi para o escritório do advogado que havia sido indicado pelo irmão e lá passou o resto da tarde. Ao anoitecer foi ao seu escritório e constatou que o irmão já havia levado os sacos. Naquela noite não quis voltar para a sua casa, acabou dormindo no sofá do escritório.
---
Ao acordar, começou a tomar providências. Foi a locadora, informou que queria desfazer o contrato de aluguel da casa onde morava e alugar um apartamento pequeno, o mais longe do bairro e  o mais perto do centro possível.  No fim de semana, o irmão fez a sua mudança.  Não quis voltar ao bairro, não quis rever a casa. Vergonha? Medo do Paulão? Optou por colocar pá de cal. Recomeçou a vida em prédio próximo da cidade, um apartamento de sala e quarto.
---
O advogado deu entrada na papelada para a separação. Agora precisava curar as feridas, esperar que, com o passar do tempo, a vida voltasse ao normal.

Paulão ficou impassível, como se nada houvesse ocorrido. Tereza não teve opção. Pediu a Paulão que a deixasse na casa de seus pais. Precisou passar por cima do constrangimento, superar a vergonha, arrumar coragem para encarar os pais. Quem abriu a porta foi a mãe. Por alguns segundos, ficaram paradas. Uma olhando para a outra. Foi Tereza quem quebrou o silêncio: - Desculpa, mãe. Perdoa.
A mãe apenas abriu os braços e Tereza se aninhou. Pouco depois chegou o pai que se uniu ao abraço das duas. Mãe e filha choraram.
Tereza, embora morando com os pais, continuou o relacionamento com Paulão. Mesmo se não quisesse, não haveria como. Paulão, dois dias depois, estacionou o carro em frente a casa dos pais e começou a buzinar. Só parou quando ela apareceu.
- Entra aí.
Agora, não mais só na terça, não mais no motel. O “ninho do amor” passou a ser a casa do Paulão. No início, de carro, pegava-a na casa dos pais. Depois, telefonava e ela ia de ônibus. Ai dela se não largasse tudo, se não fosse.
Pouco depois, constatou que estava grávida. Achou que tudo se normalizaria, que a gravidez seria um trunfo. Ao receber a notícia, Paulão riu e decidiu:
- Arruma suas coisas. Você vai morar em minha casa. Filho meu eu assumo.
---

Já se haviam passado cinco meses após o flagrante, quando o irmão de Roberto trouxe-lhe a notícia: Teresa estava  grávida.
Contou que foi o próprio Paulão que anunciou, envaidecido, para amigos em mesa de bar de cervejada:- Agora vocês tratem de me respeitar. Eu vou ser pai, malandragem.
O irmão disse que não podia ter acontecido coisa melhor, argumentou que o fato serviria para fortalecer a tese do adultério. Roberto não soube o que falar. Assim que o irmão saiu, entrou no carro e foi para a estrada. Dirigiu sem rumo e em alta velocidade. Acelerava e chorava. Voou com o carro por mais de duas horas. 
No outro dia foi ao advogado para informar-se do ocorrido. Ficou sabendo, então, que Tereza estava morando com Paulão. O advogado veio com a mesma conversa do irmão.
- A gravidez reforça o flagrante. O adultério se consolida com o fato de Tereza estar morando com Paulão e fortalece a tese do nosso pedido de não dar pensão. Vamos ter que dar entrada, por precaução, em pedido de comprovação de paternidade. É possível que o advogado de Tereza tente dar um golpe, usar a gravidez de Tereza para garantir uma pensão para o filho que, argumentarão, seria seu. Certamente o colega vai tentar esse recurso. Vamos precisar do teste para provar que o filho é do Paulão.
---
Roberto deixou o escritório do advogado arrasado. De sua cabeça não saia a frase do advogado: - “Vamos precisar do teste para provar que o filho é do Paulão”.
Um filho era o que mais queriam. No início, evitaram. Tomaram precauções. Há algum tempo haviam decidido pela gravidez. Estavam tentando há quase um ano. Ainda não tinham tido sucesso. Seria estéril? Chegou a ter essa desconfiança. Faltou coragem para fazer um exame, esclarecer a situação. A gravidez de Teresa deixou tudo claro. Se alguém tinha problemas, agora estava provado que não era a Teresa. A culpa, certamente, era dele.
Teresa curtia a gravidez. Pai e mãe, com a expectativa do neto, esqueceram o ocorrido. Teresa voltou a ser paparicada. Foi na casa dos pais o “chá de bebê”. As amigas de Teresa prestigiaram. Corria tudo em normalidade.
Quando Teresa sentiu as dores, Paulão não estava. Foram os pais que, de táxi, a socorreram. No hospital, Teresa sorriu quando ouviu a frase: - É homem. Um belo menino.
---
O advogado, por telefone, comunicou a Roberto:
- A criança nasceu. Posso dar entrada no pedido de comprovação de paternidade?
Roberto concordou e perguntou pela criança. Ficou sabendo que era homem.
Desligou e foi para o banheiro. Chorou. Poderia ser o seu Júnior.
---
Tereza era só felicidade. Fartura de leite e uma criança sadia. Paulão escolheu o nome:
- Paulo da Silva Júnior. O nome do pai. Esse vai dar trabalho!
Quando foram notificados pela justiça da necessidade do teste, Paulão aloprou:
- Nada de teste. Ninguém vai fazer teste nenhum. Não precisa. O filho é meu.
O advogado de Teresa custou para convencer Paulão cuja recusa se baseava no fato de que não ia querer nada de Roberto, que filho dele ele sustentava. Depois, viu que não havia alternativa, teria de fazer o teste. No dia marcado, foi com Tereza e o menino.
----
Quase um mês depois, o irmão de Roberto chegou ao escritório de cara amarrada, visivelmente contrariado. Roberto olhou e ficou aguardando. O irmão, como se tivesse tomando fôlego ou coragem, abriu o jogo:
- Perdemos. Você vai ter de dar dinheiro para aquela vadia.
Botou o envelope na frete de Roberto e disse:
- É o resultado do exame. Abra e veja. O filho é seu. O DNA não deixa dúvidas, além do mais, ficou constatado que Paulão é estéril.
Roberto que estava sentado levantou-se. Parecia que se agigantava, as narinas se inflaram, os olhos brilhantes, não escondiam a felicidade. Para espanto do irmão, esboçou um sorriso e dirigiu-se para a janela do escritório que estava aberta. Ajoelhou-se no chão, abriu os braços para o céu e, com a voz embargada, quase que falando para dentro, disse.

- Obrigado, meu Deus. Obrigado por me ter dado um filho. 

terça-feira, 3 de junho de 2014

O SHOPPING A CÉU ABERTO



ORLANDO PIMENTEL AGORA É “O BARRENSE” (18/05/2007)

Inicio com o texto do jornalista Frank Tavares, do jornal "O BARRENSE" para melhor entendimento do leitor:

"A partir da próxima edição o jornal “O Barrense” passará a contar com a participação do jornalista Orlando Pimentel. No dizer do Sr. Norival Silva a participação do Dr. Orlando Pimentel enriquecerá o nosso quadro de colaboradores e certamente será muito bem recebida por nossa comunidade .
O Dr. Orlando Pimentel é um nome consagrado em nossa imprensa e não podia continuar ausente dela. A sua participação é de grande importância para a vida política-social de nossa cidade”. Orlando Pimentel terá uma coluna semanal onde fará O Jornalismo Opinativo com o qual se destacou nos últimos oito anos no jornal “Correio Comercial”. Em sua coluna que terá o nome de EXPLICANDO, Orlando Pimentel  abordará os principais problemas de nossa cidade.
Durante sua longa participação no jornal “Correio Comercial” Orlando Pimentel foi responsável por artigos que envolveram problemas de grande importância para toda a nossa comunidade.O primeiro a ser destacado foi luta para desinterditar as pontes sobre o rio Paraíba. Foi uma longa campanha  liderada pelo Correio Comercial que culminou com uma grande passeata de protesto pela interdição tão longa provocada por obras tão morosas em nossas duas únicas pontes.
Orlando Pimentel, em sua coluna no Correio Comercial, foi, também o primeiro a protestar quando nossa cidade se viu ameaçada de ter que abrigar uma Casa de Custódia para 250 presos. Os artigos de Orlando Pimentel ganharam a simpatia de diversos segmentos de nossa cidade entre os quais ele próprio destaca a OAB então presidida pelo Dr. Leni Marques cuja participação foi fundamental para que nossa cidade hoje não abrigasse, uma Casa de Custódia. A campanha que durou mais de um ano, ao seu final, ganhou também a adesão (que inicialmente era favorável) do então prefeito Dr. Carlos Baltazar que acabou por se render aos argumentos de Orlando Pimentel. Foi a “pá-de-cal” para o nefasto projeto que tantos problemas gerou nas cidades onde foi implantado. A "Casa de Custódia" que seria nossa hoje está em volta Redonda.
A revitalização do centro de nossa cidade, que está sendo feita na atual administração (Zé Luiz Anchite) é fruto de mais um trabalho de Orlando Pimentel que em sua coluna no “Correio Comercial” lançou o projeto que denominou SHOPING A CÉU ABERTO. 
Os artigos de Orlando Pimentel falavam da necessidade de revitalização de nosso centro comercial, com destaque para nossas praças que deveriam possibilitar a interação com o povo. Falavam,também, da necessidade da construção de banheiros públicos que oferecessem dignidade aos seus usuários. Argumentava que os consumidores do nosso comércio, em mais de 80% dos casos, moram nos bairros, nos distritos ou nas cidades vizinhas. Nem a necessidade de padronizar as calçadas escapou de seu projeto.
A lucidez do Sr. Norival Silva, presidente de nossa organização, devolve aos barrenses, a partir da próxima semana o texto sempre lúcido e brilhante de Orlando Pimentel. De acordo com o Sr. Norival a cidade não pode abrir mão de conhecer a visão de Orlando Pimentel sobre seus problemas.” 


 EXPLICANDO - Por Orlando Pimentel

(Coluna de 22/05/2007 do Jornal “O BARRENSE”)

O “Shopping a céu aberto”


A generosidade do Sr. Norival Silva, ao anunciar na semana passada, esta nossa nova coluna aos leitores de “O BARRENSE”, me colocou como responsável por fatos que, na realidade, devem ser atribuídos a muitas outras pessoas e à Associação Comercial de Barra do Piraí. Os dois primeiros, a interdição das pontes e a luta contra a construção da Casa de Custódia, já fazem parte da nossa história. Não há motivo para levantá-los agora. Neste nosso primeiro encontro vamos “explicar” a revitalização do centro da cidade, este sim, um fato ainda em início de andamento.
Em outubro de 2003, como presidente da Associação Comercial, em artigo publicado no correio comercial e dirigido ao então prefeito Carlos Baltazar, sugerimos que, entre as obras de sua administração, fosse incluída a revitalização do centro da cidade.Apresentamos algumas idéias do que deveria ser feito e demos ao “anteprojeto” o nome de “Shopping a céu aberto”. O nome sugerido caracteriza o nosso centro comercial que, à semelhança de um shopping tradicional, em um pequeno espaço reúne praticamente todo o nosso comércio.É uma característica fantástica. Uma logística perfeita.
O prefeito Carlos Baltazar solicitou nossa presença em seu gabinete e pediu-me detalhes do tal “shopping a céu aberto”. Após ouvir atentamente nossa explicação, entusiasmado, colocou o arquiteto Paulo Cardoso à disposição da Associação Comercial, sem custo nenhum,  para a formatação do projeto.Começamos um trabalho intenso e em dezembro do mesmo ano, durante o Jantar de confraternização da Associação Comercial, realizado no Itapoã, apresentamos para 50 pessoas a primeira versão do projeto “Shopping a céu aberto”. Foi um sucesso. Entre os que se pronunciaram demonstrando sua aprovação, o Dr. Henrique Nora e o próprio prefeito Carlos Baltazar.
Em março de 2004, no Central Sport Clube, durante a comemoração do cinquentenário da Associação Comercial, o arquiteto Paulo Cardoso apresentou aquela que deveria ser a versão definitiva do projeto “Shopping a céu aberto”. Estavam presentes 360 pessoas. O Prefeito Carlos Baltazar, acompanhado de diversos Secretários, falou do seu entusiasmo e se colocou a disposição para iniciarmos, efetivamente, as obras do “Shopping a céu aberto”.
Infelizmente, era ano de eleição. O Prefeito Carlos Baltazar pleiteava a reeleição. Eu fazia parte de um grupo liderado pelo Dr. Henrique Nora que decidiu apoiar a candidatura do José Luiz Anchite. Fiquei, portanto, impossibilitado eticamente de dar continuidade àquela parceria. Comuniquei oficialmente ao Prefeito Carlos Baltazar que, em função das eleições, a Associação Comercial faria uma “pausa” e o assunto “shopping a céu aberto” voltaria quando se definisse a próxima administração.
O Dr. Carlos Baltazar foi derrotado.Venceu o candidato José Luis Anchite. Fiz algumas tentativas, sem sucesso, para mostrar ao prefeito eleito o projeto que sempre me disse desconhecer. Com a participação de dois amigos, cujos nomes resguardo, agendamos um encontro e, no gabinete do Prefeito, em computador da Prefeitura, rodamos o DVD com o projeto “Shopping a céu aberto”. O mesmo DVD que havíamos rodado no Central no jantar do cinquentenário da ACEBP. Ao término da apresentação o Prefeito pediu o CD que lhe foi dado. De lá para cá a Associação Comercial, até o final do meu mandato em julho de 2006, não teve participação ativa no projeto. A revitalização que está sendo feita no centro da cidade não é a que a Associação Comercial projetou. Não posso ainda julgar o que está sendo feito, dar um parecer dizendo: é pior, ou, é melhor. Afirmo, apenas, que o que está sendo feito no centro da cidade não é o projeto “Shopping a céu aberto” criado pela Associação Comercial e formatado pelo arquiteto Paulo Cardoso.
Nem as praças e muito menos as calçadas, sobretudo as calçadas que deveriam ter como piso o chamado “inter travados”. 
Pelas razões acimas citadas, iniciei esta “explicação” dizendo da generosidade do Sr. Norival Silva ao me atribuir méritos que não tenho pelo que está sendo feito no centro da cidade. Não é o que planejamos, não é o “Shopping a céu aberto” que sonhamos.