quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A QUEDA DO AVIÃO


Foi tudo muito tumultuado e demorado, inclusive a queima de fogos. Amigos e correligionários, na base aérea de Guarujá, preocupados com a demora, tentavam comunicação. Os celulares não respondiam. De repente, a queima-roupa, a notícia na televisão marcou, definitivamente, no final da manhã chuvosa, a quarta feira, 13 de agosto. 

Imagens, confusas e fragmentadas, não comprovavam nada. Em nenhuma o avião caído, os corpos dos sobreviventes. Um terreno vazio levou alguém a falar no espírito humanitário do piloto. As primeiras explicações vieram com os moradores do bairro do Boqueirão em Santos. Uma disse ter visto o avião em chamas. Outro, o avião passando de lado entre dois prédios. Alguém falou em meteoro, pensou que já era o fim do mundo. Todos falaram em uma grande explosão. A aeronave havia se fragmentado. Com os corpos o fenômeno foi mais severo; fragmentações humanas foram encontrados a mais de um quilômetro do local da queda.
Cinquenta legistas isolados e em tempo integral, com uma missão impossível. Com grandes expectativas televisivas, anunciaram ingênuas radiografias dentárias. Era preciso mais, muito mais. Talvez Deus ou então cerrar os olhos para que se pudessem fechar os caixões. Eram sete. A política tinha pressa. Recife queria os corpos, precisava do velório, queria fazer o sepultamento. Lacraram os caixões.
Do alto, a visão do cortejo, lembrava os gigantescos blocos carnavalescos que, nas quartas, encerram os carnavais de Recife. 


Parecia, tanta gente junta e tantos políticos, um comício. As vaias dadas a um deles mostravam o outro lado da moeda. No meio da tragédia o poder estava em jogo.
Tão forte como a comoção, próxima aos familiares, a presença frágil da mulher que lembra Gandhi e que, predestinada, como fora em toda a sua vida, renascia naquela tragédia.


O foguetório parecia não acabar, e enganava a todos com falsas pequenas paradas, fazendo com que os aplausos, última homenagem antes da descida do caixão, se repetissem em série e atrasassem o ponto final de uma tragédia que já demorara tanto e que parecia não querer mais ter fim.
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O tempo estava fechado. Chovia e o vento não era favorável ao pouso. A aeronave, entretanto era uma máquina moderna, tinha pilotos experientes e não teria problemas. Descontração total, preocupação nenhuma. O avião é pequeno e estreito. Os bancos ficam enfileirados dois a dois com um corredor de acesso entre eles. A aproximação é muito forte. Os passageiros conversavam animadamente curtindo o sucesso das entrevistas dadas, na véspera, na televisão. Eram quatro além do candidato. Já haviam afivelado os cintos de segurança quando ouviram a voz do piloto:
- “Não vai dar para fazer o pouso. Vou arremeter e reiniciar os preparativos para uma segunda tentativa”.
O copiloto, até então tranquilo, aprumou-se e ficou em uma espécie de emergência. Não notou que seu companheiro, naquele exato momento, havia tombado a cabeça, para frente e para o lado esquerdo. Percebeu, então, que o avião, ao invés de subir, estava imbicado, em alta velocidade, aproximando-se do chão. Olhou para o companheiro e só então o viu com a cabeça tombada. Constatou, então, que o piloto estava inconsciente, a aeronave estava à deriva. O copiloto viu os dois prédios e, instintivamente, inclinou o avião. Após passar com sucesso pelos dois prédios, o avião projetou-se, de bico, no único terreno vazio na área residencial.
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Ronaldo deu por encerradas a sua fala e a sua caminhada. Considerou que havia descrito, razoavelmente bem, o que achava que havia acontecido. Já havia completado suas oito voltas. Durante quase todo o tempo falaram na queda do avião. Tinha um encontro, no bar do clube, marcado com "Claudionor". Não podia faltar.

Nestor que o acompanhara na caminhada dominical, naquela manhã ensolarada, cheia de vida, decidiu parar também, mas antes se posicionou:

- É possível, tudo é possível. Já ouvi falar em atentado, em bomba, até em tiro derrubando o avião. Alguns moradores garantiram que, antes de cair, o avião já vinha pegando fogo. Vai ser mais um caso sem solução.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

BODAS DE PRATA

                                                                                                        Para mim, dúvida nenhuma; Pedro foi o responsável pelos vinte e cinco anos do casamento de Emília. Quando a viu pela primeira vez, há doze anos, intuiu que ela não era feliz. Era um caso de desamor. Encasquetou que ia fazer por ela o que achava que marido não estava conseguido fazer. Montou uma verdadeira campana para observar-lhe hábitos e costumes e começou a agir, marcando presença, procurando fazer com que ela o percebesse. Arquitetou coisas diversas. Uma delas, a primeira, ir ao colégio no horário em que ela apanhava o filho. Cruzavam-se sem ao menos um cumprimento, mas Pedro procurava-lhe os olhos com olhar de “vem que eu quero”. Não demorou que Emília percebesse o assédio. Correspondeu, discretamente, apenas com os olhos , rápida e furtivamente, de modo que só Pedro percebesse. Nenhum cumprimento, nenhuma mesura, nem um único mexer de cabeça. Apenas o olhar e por fração de segundo. Deve ter pensado: 
-“Que mal haverá? Nada mais que uma brincadeira”.
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Pedro procurou inteirar-se de tudo. O que começou com o horário em que ia buscar o filho na escola, repetiu-se com a ida ao supermercado, a padaria, a pracinha, ao clube. Sempre que possível estava presente e sentia que a sua presença provocava uma espécie de choque na, desde que se casara, contida Emília. Um trâmite bom, uma novidade nos dez anos de casamento mal digeridos. Sua intervenção era sempre curta, no máximo cinco minutos. Simulava estar procurando por alguém que nunca encontrava. Eventualmente falava com um conhecido e partia. Não antes de haver olhado nos olhos dela, com aquele seu olhar  de zelador. Emília, por sua vez, já decodificara as frequentes e rápidas aparições e, também com os olhos, parecia responder:
-“Quero, mas não posso”.
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Outra medida que tomou foi aproximar-se do marido, e o fez quase que com a mesma intensidade utilizada no assédio a Emília. Na primeira conversa, confirmou-se a sua suposição: quase um fronteiriço. Dava-lhe corda, mostrava interesse em suas conversas quase sempre despropositadas e pueris. Foi muito bem aceito. Com o passar do tempo o relacionamento foi se estreitando.
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Emília casara-se aos trinta. Antes, tivera experiências com diversos homens. Nenhuma foi para frente. Luiz Carlos amigo de infância, frequentador das mesmas rodas, sempre fora uma espécie de estepe. A melhor companhia possível. Ótimo para acompanhá-la as festas onde, em poucos minutos, ela poderia desaparecer por algum tempo, mas, ao voltar, sabia que o encontraria, sem nenhum questionamento. Na verdade, usava-o, nada mais do que isso. Dos quinze, quando conheceu Emília, até os seus trinta e três anos, Luiz Carlos assistiu a um desfile diversificado de namorado de Emília. Mulher de muitos homens. Introvertido, nunca se soube que tenha tido alguma namorada. Parecia saber que, um dia, Emília iria descobri-lo. Aguardou com toda a paciência do mundo. Foi exatamente o que aconteceu. Ao completar trinta anos, Emília assustou-se. As amigas, todas, já casadas. Olhou para frente e para os lados e só encontrou Luiz Carlos. Sabia que ele faria o que ela quisesse. Iniciou um namoro que em três meses transformou-se em noivado e, em mais dois em casamento. Luiz Carlos, feliz com aquela efervescência, realização de anseio acobertado de todos, colaborou da melhor maneira que pode. Alugou apartamento, comprou mobília e foi ser feliz com a sua Emília.
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Foi no quinto ano do casamento que veio a primeira novidade. Emília estava grávida. Quando nasceu, e foi parto normal, Luiz Carlos saiu gritando nas ruas do bairro: 
- “É homem, meu filho é homem”.
Emília teria dado preferência a uma filha. Foi sempre, apesar dessa pequena e enrustida frustração, uma mãe exemplar, como poucas. Quando fez a festinha de aniversário de cinco anos de seu filho, estava completando dez da casada, prestes a entrar na perigosíssima faixa dos quarenta anos. Dias depois, sem mais nem menos, acordou com a certeza de que não dava mais,  não conseguiria mais viver com seu marido. Estava desistindo. Não conseguira mudá-lo, fazer dele uma pessoa da qual, se não pudesse se envaidecer, pelo menos não se envergonhar. Estava convencida de que era um caso perdido. Foi nesta situação que surgiu Pedro. Habilidoso, inteligente e sedutor, conduziu, com facilidade, quem estava pronta e querendo ser conduzida. A troca de olhares evoluiu para cumprimentos. A principio apenas movimentos de cabeça. Posteriormente os “bom dia” e “boa tarde” evoluíram para “olá”, “como vai”, até que um dia, em um supermercado, conversaram pela primeira vez. A conversa fluiu fácil. Dias depois, na pracinha, sentada em um dos bancos vendo o filho brincar, viu Pedro aproximando-se. Sorriu e acenou-lhe. Pedro sentou-se ao seu lado e, sorrindo,  com os olhos fixos no de Emília, disse-lhe que gostaria de ter o seu telefone. Emília, também sorrindo, deu-lhe o telefone. Sentiram-se, a partir daquela violação, rejuvenescidos, quase dois adolescentes.
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Faltou dizer que Pedro era dez anos mais velho do que Emília. Era advogado, mas, embora culto, não fizera grande clientela e nem enriquecera. Seu casamento foi desfeito com menos de três anos . Não tiveram filhos. A ex-mulher casara-se novamente e morava no exterior. Desfeito o casamento, Pedro voltou a morar na casa dos pais.
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A aproximação, de início forçada com Luiz Carlos, tornou-se coisa natural. Cruzando na rua paravam para um bate papo. Às vezes a iniciativa era de Luiz Carlos. Em várias oportunidades tomaram chope juntos. A aproximação com o marido dava a Pedro uma certa satisfação. Já não era mais apenas pela possibilidade da facilitação, era um forte prazer estar conversando com o marido da mulher que estava paquerando e sabia, como certo, iria possuir.
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Pedro era, sempre, quem ligava para Emília. Dia e hora estabelecidos. Conversavam demoradamente. Falavam sobre tudo; literatura, política, cinema mas, sobretudo, falavam sobre eles. Decidiram, e foi quase decisão conjunta, que precisavam mais do que falar, que precisariam estar juntos em lugar isolado. Pedro foi incisivo; deveriam ir a um motel. O horário ideal seria pela manhã, aproveitariam e almoçariam lá. Emília adorou a ideia, prometeu organizar-se o mais rápido e marcar o dia. Foi em uma quarta feira o primeiro encontro. Eram dez horas quando estavam entrando no motel. Emília era mulher experiente e não queria perder tempo. Sabia que se arriscava e precisava que o encontro justificasse o risco. Antes de almoçarem já tinha levado Pedro ao orgasmo por duas vezes. Era  mulher sem nenhum preconceito. Tomava a iniciativa, propunha tudo e queria tudo. Cinco horas depois estavam saindo. Pedro inteiramente saciado mas com a frustração pela certeza de que não havia levado Emília ao orgasmo. Ela subira nas paredes, transara como gente grande, mas, orgasmo, com certeza ela não tivera.
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Pedro consolidou a amizade com Luiz Carlos e com isso, fatalmente, facilitou a aproximação com Emília. Quando  encontrou o casal em um restaurante, não teve escrúpulo. Foi cumprimenta-los. Emília ficou meia atordoada. Luis Carlos fez o convite prontamente aceito:
-“ Sente-se. Estou tomando cerveja. Você toma uma?”
Ficaram bebericando por mais de duas horas. Saíram juntos do restaurante. Pedro fez questão de acompanha-los até o local onde Luis Carlos havia estacionado o carro.
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Durante cinco anos, mantiveram o romance em sua plenitude, com os telefonemas e as idas aos motéis, sempre que possível. Coisa discreta, tão discreta que não levara a comentário de ninguém. Uma única coisa estava, na visão de Pedro, fora de esquadro. Emília não gozava. Questionou-a certa ocasião. Emília desconversou. Diante da insistência argumentou: -“Cada mulher goza de um jeito. Não são todas que, como você diz, dão uma tremida e praticamente desmaiam.”
Na volta do motel, no carro, Emília, sem mais nem menos, falou:
-“Tenho certeza de que você é o homem da minha vida. Foi uma pena não termos nos conhecido mais cedo, mas é você. Você é definitivo. Daqui pra frente vamos transar sem camisinha. Quero um filho seu e vai ser uma menina”. Pedro assustou-se. Disse-lhe que não estavam em idade de ter filhos. Ela com mais de quarenta e ele com mais de cinquenta. Seria uma gestação de risco.
-“É um problema que teremos de encarar. De risco é, também, o nosso relacionamento”.
Mas temos outro problema contra, argumentou Pedro. O seu filho é a cara do seu marido. A sua genética não predominou. Você e seu marido são longilíneos. Sou um homem de  estatura mediana, atarracado, de cara quadrada. Sou um típico nordestino. Há três gerações minha família apresenta essas minhas sardas . Imagine nossa filha baixa, de rosto quadrado e cheia de sardas. Como iriamos explicar? O que pensariam Luiz Carlos e todos os demais?
Pedro calou-se. Achou que tinha dado o seu recado. Um silêncio denso e angustiante tomou conta do carro. Pouco mais de um minuto depois, Emília perguntou:
-“Você vai me negar isso”?
Pedro foi firme. Disse que filho estava fora de cogitação. Em hipótese nenhuma.
Emília nada respondeu. Quando passaram perto de um posto de gasolina, determinada, ordenou:
 -“Pare que eu vou descer aqui”.
Pedro obedeceu. Emília desceu e Pedro seguiu. Sabia que, naquele momento, o caso havia chegado ao fim. A principio ficou aturdido, depois, mais tarde, até gostou Acabou achando que havia saído barato. Aquela história de filho era uma loucura e aquele romance já estava demorando muito. Foi um bom final. Ela que acabara. Faz bem para o ego das mulheres. Certamente, não lhe traria maiores problemas.
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Foi quase um ano depois dessa ruptura, que se consolidou e se tornou definitiva, que entrei na história. Vale ressaltar que, assim como Pedro é dez anos mais velho do que Emília, sou dez anos mais velho do que Pedro. Telefonou-me e disse que precisava falar-me. Fomos para um barzinho afastado, em mesa isolada no mezanino e Pedro, para grande espanto meu,  contou-me esta história que até eu, talvez o seu mais chegado amigo, desconhecia. Contou-me com os detalhes já narrados e fez uma pausa quando chegou ao momento em que romperam. Respirou fundo e prosseguiu:
-A partir daquele dia, fiz o caminho inverso. Passei a não ir mais a lugar nenhum onde pudesse encontrar Emília. Durante todo esses dez meses não nos cruzamos, frente a frente, uma única vez. Creio que ela também tenha tomado decisão semelhante, caso contrário não teríamos tanto êxito nos desencontros. Hoje, pela manhã, fiquei sabendo, acidentalmente, em conversa de terceiros, que ela está grávida e está muito feliz. Que o exame já revelou que é uma menina. Esta notícia mexeu muito comigo e foi por isso que lhe telefonei. Acho que ninguém conhece esta história. Nunca a confidenciei a ninguém e creio que ela também nunca tenha contado para ninguém.
Novamente silenciou. Pareceu-me que aguardava um pronunciamento meu. A amizade minha com Pedro era bem antiga, justificava o desabafo. O fato de ser eu mais velho deve ter contribuído. O que poderia eu dizer? Como deveria me manifestar? Disse-lhe, inicialmente, que agradecia a confiança e que ao mesmo tempo me preocupava o fato de ter ouvido o relato. As mulheres não são de guardar segredos. Que, da mesma maneira que falara comigo, certamente alguma amiga da moça conhecia a história na versão dela. Com o meu sigilo, certamente ele poderia contar. Fiz uma pausa e perguntei o que pretendia, além do desabafo, com aquela surpreendente confidência? Falou-me:
- Não consigo entender a gravidez. Aceitaria com facilidade que ela se separasse, que me procurasse, insistisse que eu a assumisse, ameaçasse escândalo e coisas parecidas. A total indiferença por parte dela durante esses dez meses já não absorvi direito. Parecia me querer muito, desistiu muito fácil. Sei bem da indiferença dela em relação ao marido. Quando nos conhecemos, estava para pedir a separação. Digo estava por saber que só ela queria a separação. O marido não. Acho que seria capaz de qualquer coisa para manter Emília ao seu lado. Eu estou falando de qualquer coisa, entende? Até fingir não saber do nosso caso. Ela não, quando começamos, estavam já há um tempo enorme dormindo separados. Ele dormia na sala. A justificativa era o menino, tinha medo, queria dormir com a mãe. Assim ela se livrava de contato maior com o marido. De repente, essa gravidez. Não consigo ver o menor sentido.
Em resposta, meio brincando mas falando sério, levantei a hipótese de ter surgido outro Pedro neste intervalo de tempo, um com menos escrúpulos e que tenha resolvido lhe dar a filha desejada.
Pedro argumentou: - Não acredito. Embora saiba que ela tenha conhecido muitos homens, depois que se casou foi fiel até me conhecer. Fui uma maneira que ela arranjou para tentar manter o casamento, manter a família. Ela é uma mulher séria, apenas de sexualidade exacerbada e que, ao se render ao meu insistente cerco, se apaixonou por mim.
Não havia mais ninguém no bar. O garçom, sem que o chamássemos, se aproximou e nos perguntou se queríamos mais alguma coisa. Já era tarde. Queriam fechar o bar. Pedimos a conta.
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O segundo filho também foi de parto normal. Pouco depois do nascimento, Pedro encontrou-se casualmente com Luiz Carlos que o convidou insistentemente:
-Vamos lá em casa, quero que você conheça minha filha. 
Quando chegaram na casa, Emília estava na varanda. Parecia que estava esperando. Foi surpreendido com a recepção:
- Olá Pedro! Há quanto tempo!Você sumiu. Temos sentido a sua falta. Você ainda não viu a minha filha. Venha conhecê-la.
Pedro entrou, foi levado ao quarto do casal onde estava o berço com a recém nascido. Essa, também, a cara do pai. Falaram amenidades e Pedro, incomodado com a situação, desejou felicidades a recém-nascida, alegou compromisso, disse que posteriormente voltaria para  trazer um presente e se foi.
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Quando Pedro me contou a visita , percebi que ficou feliz ao constatar que a criança era parecida com o pai. Com isto eliminou-se a minha hipótese, a do surgimento de um outro Pedro. Algum tempo depois, vi Emília na rua com a filha menor. Já estava andando. Quando comentei com Pedro, confidenciou-me:
- Que fique entre nós; Emília e eu reatamos.
Os anos iam passando e volta e meia eu perguntava por Emília e Pedro respondia:
- Continuamos nos encontrando. Agora, mais raramente, mas, volta e meia, saimos juntos. 
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Alguns anos depois, soube que Emília e Luiz Carlos iam fazer uma festança para comemorar a Bodas de Prata. A festa estava programada para o mais importante clube da cidade. Missa e depois jantar no clube. Fui convidado mesmo sem ter maiores amizades com o casal. Recebi o convite da mão do amigo Pedro. Não me perguntem o motivo do meu convite, pois não saberia explicar. Apesar de tudo o que sabia, não exitei em ir. Precisava presenciar o evento, pois não tinha a menor dúvida de que Pedro havia sido fundamental para que a data pudesse ser comemorada. 
O salão muito bem decorado e com mesas grandes para oito pessoas. Na mesa principal, na mesa do casal homenageado,  estavam, também, os dois filhos, os pais de Emília  e, totalmente a vontade, Pedro que, no momento em que olhei para a mesa, falava, gesticulava e era o centro das atenções.


COM O DEDO NO GATILHO


Quando estava saindo, a casa é de dois andares, pediu ao marido que fechasse a porta de entrada. Não queria levar o chaveiro. A porta fica em uma varanda ampla, acessada por uma escada lateral, bem visível para quem passa pela rua. O esposo disse que sim, mas deixou o fechamento da porta para depois e continuou procurando os óculos que ainda não havia encontrado. Já no andar de baixo a esposa que tem 68 anos parou e começou a colocar a coleira na cadelinha quando, de repente, em uma bobeada, a cadelinha fugiu em disparada pela rua. A senhora correu atrás da cadelinha e o portão do andar térreo também ficou aberto. Um transeunte ocasional, um desconhecido, atentou para todo o ocorrido, sobretudo para o portão e a porta, ambos abertos.

 Em seu quarto o marido, ainda procurando os óculos, resolveu levantar a cortina da janela do quarto e não deu outra. Lá estavam os óculos caído. Apanhou-o, sentou-se na cama para examina-los e convenceu-se de que estava tudo bem. Colocou os óculos no rosto. A televisão que estava ligada,  começou a apresentar reportagem sobre uma ginasta que havia sofrido acidente esquiando e estava tetraplégica. Interessou-se, deitou na cama parra assistir ao programa e esqueceu-se da porta que continuou aberta. Era uma manhã, domingo, por volta de 10 horas. O quarto da acesso, pela porta que também estava aberta, para a sala. O marido, como já se disse, no quarto, deitado, vendo TV. De repente, a cabeça de um homem aparece na porta do quarto e se recolhe rapidamente, provavelmente por ter visto o homem deitado e não saber se ele estava dormindo ou acordado e, no segundo caso, se o homem o teria visto. O marido viu a cabeça aparecendo e desaparecendo e  tomou-se de uma certeza; há um estranho dentro da sua casa. Levantou-se em silêncio e foi, pé ante pé até a porta do quarto. Constatou a sala vazia e a porta da casa, aberta, escancarada. Pensou: Pode ter se assustado e ido embora, mas pode estar acoitado na salinha aguardando algum tipo de reação minha, tipo gritar perguntando quem está aí. Se não houver reação vai achar que estou dormindo.  Vai ser uma questão de tempo, se consego apanhar a arma a tempo ou se ele vai considerar que estou dormindo antes que eu consiga me armar. Andando de costas esgueirou-se pelo corredor até o escritório onde estava o revólver. Um trinta e oito.  Com toda a calma e silêncio do mundo, abriu a gaveta, apanhou o revólver, engatilhou e caminhou, novamente pelo corredor arrastando-se pela parede, em direção a sala, com o objetivo de ver se o ladrão estava na saleta ou se havia ido embora (a porta da sala continuava aberta). Quando, de revólver na mão, estava em frente à porta do quarto, meio escondido e protegido pelo beiral da porta, viu o homem sair da saleta e caminhar em sua direção. O homem não o havia visto. Era um mulato alto, de uns 25 anos, de bermuda, com uma camisa de mangas compridas e gola rolê na cor cinza, bem desbotada.  Certamente ia olhar no quarto, pois deve ter achado, pela ausência de reação, que o homem estava dormindo. Deixou que o intruso desse mais um passo. O ladrão só o viu quando esticou os braços com as duas mãos empunhando o revólver e mirou em sua direção. Ai o ladrão entrou em pânico e, muito assustado  tentou se justificar
 -“Estou aqui procurando...”.
Foi interrompido pelo homem que, pausadamente falou:
- Vai morrer, seu ladrãozinho de merda.
Apavorado o rapaz levantou os braços e gritou: “Não, não”. Virou as costas e fugiu em desesperada disparada pela porta aberta da sala. O homem não atirou. Não quis atirar. Acho que se apiedou do descuidista que considerou um pobre infeliz. Devem ter pesado, também, os seus setenta anos e a experiência adquirida durante todo este tempo. Ficou satisfeito por não ter atirado, feliz com a sua atitude, com a maneira com a qual solucionou o problema. Caminhou lentamente para a varanda e ainda pode ver, no fim da rua, em disparada, o invasor já dobrando a esquina. Voltou para o escritório. Guardou a arma. Poderia ter atirado, estava dentro de sua casa, um revólver que conhecia muito bem e com munição nova. Certamente mataria o homem. Se tivesse ocorrido há alguns anos provavelmente teria atirado e estaria com um corpo baleado no peito, estendido no meio de sua sala. Uma bravata que certamente traria, apesar de todos os fatos que o favoreciam, problemas, os mais diversos. Por exemplo, o legista. Quantas horas, em pleno domingo levaria o legista para aparecer e autorizar a retirada do cadáver estendido no meio da sala. Quantas vezes a cena se repetiria em seus sonhos/pesadelos?
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 Pouco depois  a mulher, assustada, subiu as escadas com a cadelinha no colo. O vizinho já havia lhe contado: -“O seu marido, armado, botou um ladrão para correr que já estava dentro da casa de vocês”. O marido a encontrou na varanda. A casa já estava em normalidade. O marido falou: Já passou, não aconteceu nada. Abraçou-se ao marido e nada falaram. Entre os dois, a cadelinha.