segunda-feira, 28 de julho de 2014

O DESFILE DAS ESCOLAS DE SAMBA

                                  
O ocorrido se deu antes da construção do sambódromo, quando o desfile das Escolas de Samba era realizado na Presidente Vargas. O sonho, que há uma década vinha sendo acalentado, desta vez se tornaria realidade. Era a década de 70. Duas semanas antes, já tomara conhecimento do preço e absorvera com a “fleuma” necessária o absurdo do preço do ingresso.
A esposa achou meio para justificar: - Sim... vale pelo conforto. Lugar marcado. Afinal são doze horas de desfile e ninguém é de ferro. É pagar para ser feliz.
       
Três dias antes estavam de posse dos ingressos, o que deu certa tranquilidade: setor 23, fila Y, nº6 e nº7.
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Chegaram com duas horas de antecipação. Coisa de iniciante. A primeira impressão foi a melhor possível. O bilheteiro desejou um bom carnaval e seu auxiliar entregou-lhes uma belíssima revista que tinha como título: -“Todas as informações sobre o Desfile das Escolas de Samba”. Na arquibancada, o primeiro impacto. Os lugares ficavam à altura de um prédio de cinco andares. 


Desnecessário dizer;  foi mais fácil do que escalar uma montanha. O ingresso dava direito a trinta centímetros quadrados de uma madeira do tipo das utilizadas para andaime nas obras. Por sorte, nenhuma ponta de prego. Nas costas, as pernas e, principalmente, os joelhos dos ocupantes da fila de cima.
Pouco antes de se iniciar o desfile já tinha uma certeza. Ou se havia vendido ingressos em excesso ou a área destinada a cada um era insuficiente.
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Quando começou a passar a primeira Escola, três horas e meia depois da chegada, não sem dificuldades, encontrara e estava na fila do banheiro. Apenas dois por setor. Um para cada sexo. Em cada setor umas duas mil e quinhentas pessoas. Quando saiu do banheiro, a primeira Escola já era. A mulher, entusiasmada, quase aos gritos, o recebeu exclamando:

- Estava lindíssima. Você perdeu!

No meio do desfile da segunda Escola, o cavalheiro que estava com os joelhos em suas costas passou mal. Os sintomas eram feios. Suspeitou-se de um enfarte. Na falta de socorro oficial, resolveram utilizar um inofensivo “Sonrisal” que estava no bolso da camisa de vítima. Foi encarregado de arrumar um copo de água para dissolver o “Sonrisal”. Fizeram com que o cavalheiro engolisse a água efervescente e o deram como devidamente medicado e esquecido, deitado, em canto mais afastado. Pouquíssimo viu da segunda Escola.
       
O desfile da terceira escola também não pode ver. Cinco japoneses retardatários, em pé, discutiam com argentinos que estavam sentados nos lugares que seriam deles. A discussão, na sua frente, se arrastou por mais de meia hora e ficou feia. Foi um francês que, desfazendo o equívoco dos ingressos, acomodou as coisas.
       
Quando começou o desfile da quarta escola, um dos japoneses, justamente o que estava sentado em sua frente, por absoluta falta de espaço, colocou, sobre a cabeça, o enorme “isopor” que portava. A princípio, nada fez. Achou que era coisa temporária. A Escola já estava na metade da sua apresentação e não conseguia ver nada por causa do isopor do japonês. Tocou, então, no ombro do japonês e, por gestos, tentou informar que não estava podendo ver. Sem nada entender, evidentemente, o japonês limitou-se a sorrir e a continuar com o isopor na cabeça. Na terceira cutucada o japonês, sempre sorrindo, colocou o isopor no colo, abriu a tampa, tirou um ovo cozido com casca, deu para o reclamante, e voltou com o isopor para a cabeça dando o assunto por encerrado.
Às duas horas da madrugada, vencidos pelo desconforto e pelo cansaço, os japoneses e outros estrangeiros debandaram e as coisas, então, se acomodaram melhor. Começaram a aparecer  vendedores ambulantes. Até aquele momento, para eles também, era quase impossível o movimento. A sede era grande, mas a lembrança da fila e do estado do banheiro não lhe permitiram ousar tomar uma garrafinha de água. Limitou-se ao cafezinho, o pior e mais caro do mundo. Às oito horas da manhã, sob o castigo inclemente de um sol causticante, viram passar a Imperatriz que encerrou o desfile.
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No carro, voltando para casa, já com os olhos fechados, a mulher perguntou-lhe:  - Valeu?
Respondeu: - Sim... Sobretudo pelo constante e quase contínuo contato com Deus.
Os olhos dela se arregalaram e, como se tivesse duvidando das condições mentais do marido, indagou: 

- Como assim?
       
- Rezei quase que o tempo todo.
       
- Você tem certeza que está se sentindo bem, perguntou ela?
       
Indagou-lhe se ela não percebera como a estrutura, que suportava as arquibancadas, balançava a proporção que a platéia dançava com o passar das escolas. Disse-lhe de seu medo de uma catástrofe, com o desabamento de tudo aquilo.

- Cruzes... Nem pensei nisto.

Com um longo bocejo, com os olhos novamente fechados, perguntou: 

-Afinal, do que você gostou?
       
A resposta veio franca e imediata: 

- Da hora que acabou.


        

O TERAPEUTA SEXUAL



Homero era um homem rico. Perdão, Dr. Homero. Médico formado em Faculdade Federal. Vinha de família pobre e tornara-se médico conceituado, especialista em sexologia.  
O dia corria em normalidade, como todos os outros. A rotina de sempre; escutar os problemas sexuais dos casais. Eram quinze horas quando a  enfermeira introduziu no consultório o casal  marcado.  
Dr. Homero observou que o homem deveria ter uns 40 anos e a mulher, um pouco menos, provavelmente uns 35 anos.
Esperou que os dois se acomodassem na cadeira e perguntou, como fazia sempre na primeira consulta no início de um tratamento:  - No que posso ajudá-los?

O cliente foi direto: - Doutor Homero, o meu nome é Jamil. O nome dela é Adelaide. Adelaide acha que estamos com um problema sexual e gostaríamos da sua ajuda.

O médico, perguntou:  - E qual é o problema?

O Sr. Jamil foi categórico: - Na verdade, nem nós sabemos qual é nem se é um problema. Gostaríamos de saber se em nossa relação sexual estamos corretos, pois Adelaide não está certa disso. Gostaríamos que nos fosse permitido ter, na sua frente, uma relação sexual. O senhor nos observaria e diria se o que estamos fazendo está correto ou se estamos cometendo algum erro grave.
Embora achando a sugestão esquisita, o médico, terapeuta sexual, concordou. O casal que já estava no sofá, tirou a roupa e transou. Levaram vinte minutos para o Sr. Jamil dar o fato por encerrado e, enquanto ainda se vestiam, Jamil perguntou ao médico: - E então? O doutor acha que estamos fazendo alguma coisa errada”?

Dr. Homero respondeu: - Não, não há, com certeza absoluta, nada de errado com vocês. Podem continuar suas vidas sem nenhuma preocupação ou remorso.

O Sr. Jamil, visivelmente feliz, agradeceu ao Dr. Homero e, abraçado a Adelaide, foi embora dizendo:  - Viu, Adelaide...o doutor falou que não há nada errado, que estamos agindo certo, que não há nada com o que se preocupar.

Quatro meses depois, o casal voltou. Ao entrarem na sala, Dr. Homero os reconheceu e, sorrindo, iniciou sua rotina:

- Como vão? No que posso ajudá-los”?

O senhor Jamil, novamente tomou a frente:  - O doutor nos perdoe, mas nosso problema ainda é o mesmo. Adelaide teve uma recaída e está, novamente, insegura, em dúvida. Voltou a achar que estamos fazendo alguma coisa errada”.

Sem pedir permissão, foram se encaminhando para o sofá quando o Dr. Homero, rindo, os interrompeu:

- Não...não há necessidade de fazerem tudo novamente. Eu já os vi e já disse que vocês não estão fazendo nada errado. Está tudo certinho.

Jamil disse: - Adelaide voltou a achar que estamos fazendo alguma coisa errada.

O médico declarou, mais uma vez, que não havia nada de errado e, percebendo que o casal não estava satisfeito, perguntou: - Sr. Jamil... O que é que dona Adelaide acha que vocês estão fazem errado?


Jamil respondeu: - Bem...Adelaide sabe e sempre soube que sou casado com a Maria.  Eu sei que Adelaide é casada com o Paulo. Sempre soube e eu não ligo. Ela, no início, não queria, mas o amor...o Sr. sabe, o senhor é um médico conceituado. Quando o senhor nos garantiu que não estávamos fazendo nada de errado, a minha Adelaide concordou, aceitou e estava tudo correndo as mil maravilhas. Agora, não sei bem a razão, Adelaide está novamente preocupada, achando que há alguma coisa errada em nossa relação e eu a trouxe aqui novamente. 

sábado, 5 de julho de 2014

EM 1980 A UMBANDA AINDA IA À PRAIA


      
Sol a pino e a praia de Muriqui já quase que totalmente loteada pelos centro espíritas. Seu Zeca informou:
      
-“Já têm quarenta e um centros na praia.”
      
Quando começou a escurecer caiu um “toró” digno do dilúvio bíblico. Pensei:

-“Pena... Tantos preparativos, tantos gastos, e tudo por água abaixo.”.
       Mal a chuva terminou, para surpresa minha , os primeiros sons dos atabaques anunciaram os inícios das festividades.
       Notícias trazidas pelos vizinhos davam conta de que nos calçadões da outrora pacata praia de Muriqui vendia-se e comprava-se de tudo: velas, churrasquinho, flores, goiaba, cachaça, espelho, caranguejo, foguete, horóscopos camisinha e, sobretudo, bebida. Muita bebida.
       Meu filho de dez anos entrou em casa pedindo o jantar e falou:

- “Tem um homem morto aí no portão.”.
      
Após tentar absorver o impacto da notícia, ainda incrédulo, dirigi-me ao portão. Um rapaz de cor parda, só de calção, em total embriagues, dormia na calçada. Dos males o menor. Após agradecer a Deus por meu portão não ter sido utilizado para “desova” voltei para a tranquilidade do lar.
       Pouco depois das vinte e duas horas resolvemos, minha mulher e eu, dar uma olhada na praia. No portão constatei que o da bebida ainda dormia a sono solto. Dei-lhe uma ligeira cutucada com o pé para me certificar se estava vivo mesmo. Uma pequena contração em seu joelho me tranqüilizou.
       O quinto ou sexto centro nos chamou a atenção. Iluminação obtida por gerador próprio, um imenso toldo colorido para proteger de possível chuva, baianas de diversas cores, demonstrando requinte e bom gosto acima dos demais.
Minha mulher exclamou:

-“Aposto que o dono é bicheiro.”.
      
No meio das tradicionais “comidas de santo” uma imensa torta destacava-se. Alguém do centro pediu licença para o céu e abriu uma garrafa de champanha. Não essa champanha tradicional, mas aquela utilizada no “podium” das Fórmulas 1.
Minha mulher reforçou:

-“Bicheiro e de Nilópolis.”.
      
Foi anunciado o aniversário de alguém. A mais bem vestida das baianas levantou-se e foi aplaudida. Tratava-se de uma senhora alta, forte e de aproximadamente cinqüenta anos. Entre os espectadores a baiana foi apanhar um rapaz junto do qual cortou o bolo.

Minha mulher sentenciou : -“Deve ser o filho dela.”
      
Novos aplausos e a baiana começou a oferecer pedaços de torta aos do centro e, depois, aos espectadores. Alguns minutos se passaram e a distribuição se aproximou de nós. A barba recém-feita e os pelos do braço permitiam a conclusão de minha mulher:

-“Meu Deus... A baiana é um baiano.”
      
Retornamos para casa. O aumento do foguetório anunciou a aproximação da passagem do ano. Resolvemos voltar à praia para ver os barquinhos que são lançados ao mar à meia-noite. Agarrado ao meu portão, com cara de quem está assistindo ao fim do mundo, o “ex-falecido”, assustado com o foguetório da virada de ano, perguntou: “Senhor... o que é que está acontecendo?”.
      
Limitei-me a responder-lhe:

“Feliz 1980.”.
      


      
      


A NOTA FISCAL


O dia ia chegando ao seu final. Pouco mais de quatro horas da tarde. O senhor Féris achava que o que tinha de ser vendido já estava no caixa. Nada de maior importância aconteceria. Foi, então, que tocou o telefone. Era a moça da Associação Comercial informando que havia fiscalização na cidade. Seu raciocínio foi simples; não apareceu até àquela hora, não apareceria mais.
O comércio do seu Féris tinha localização especialíssima. Ficava no centro da cidade, na rua mais badalada, mas em um beco, quase no seu finalzinho, o que deixava o seu estabelecimento pouco visível para a freguesia. Por outro lado também, de pouca importância para a gula da fiscalização. Féris percorreu todo o beco e foi para frente da rua ver o movimento. Pouco tempo passou e um dos seus fornecedores mais antigos, parou com a caminhonete em sua frente.
- “Como vai, seu Féris? Chega até aqui que tenho um negócio bom para você. Coisa de pai para filho”.
Féris aproximou-se da caminhonete:
 - Pode falar que Féris está ouvindo.
- “Tenho uma devolução que vai lhe interessar. Mercadoria retomada. O comerciante quebrou. São 240 latas de azeite Galo embaladas em 20 caixas. Doze latas em cada uma. Coisa de primeira. É pegar ou largar. Quero resolver isso ainda hoje. Preciso levantar essa grana. É barato, molezinha, mas quero pagamento na hora e em dinheiro. Dinheiro vivo aqui na minha mão”.
Féris nada falou. Aproximou-se da carroceria, olhou a mercadoria demoradamente e contou as caixas. Tirou do bolso um canivete e abriu uma das caixas. Olhou demoradamente para o seu interior. Tirou uma das latas. Examinou-a. Recolocou a lata de azeite na caixa e, sem nenhuma expressão facial perguntou:
- E quanto o amigo quer?
- “ Vale mil e quatrocentos. Entrego por mil”.
Devagar, com toda tranqüilidade, respondeu:
- Entra com a caminhonete no beco. Féris vai na loja ver quanto tem de dinheiro.
A caminhonete entrou no beco e parou em frente a loja.
Feris entrou na loja e retornou dizendo:
- No caixa tinha setecentos e cinquenta. Féris tem mais sessenta no bolso.
Juntou o dinheiro que trouxe na mão com o que tirou do bolso e esticou para o dono da caminhonete dizendo:
-Total de oitocentos e dez, é o que Feris pode pagar.
- “Fechado. Vou descarregar a mercadoria.
Féris balançou a cabeça em concordância e pediu:
- Coloca tudo no fundo da loja.
Chamou o filho e disse:
 - Vai para a entrada do beco. Tem fiscal na cidade. Se aparecer fiscal, dá sinal avisando. Féris fica aqui na porta da loja.
Assim foi feito. A caminhonete ia sendo descarregado e o senhor Féris, na porta da loja, contando as caixas que entravam e prestando atenção no filho.
Descarregaram vinte caixas. Faltavam apenas quatro quando o filho deu sinal.
Féris não se abalou. Olhou para o motorista e mandou parar a retirada das caixas.
- Deixa as quatro últimas aí no caminhão. Espera que Féris vai receber visita do fiscal.
Quando o fiscal chegou, Féris antecipou-se e foi falando:
- Féris hoje muito feliz. Deu sorte. Quase no final do dia, Féris está fazendo ótima venda; seis caixas de azeite. Azeite Galo. Féris só trabalha com mercadoria de primeira. Féris é homem de bem. Garante o que vende.
O fiscal olhou e sarcástico disse:
- Parabéns!  E cadê a nota fiscal da venda?
- Féris está esperando botar mercadoria que falta no caminhão. Só faltam duas caixas e depois Féris vai tirar nota fiscal direitinho. O senhor tenha paciência e aguarde um pouco. Só faltam só duas caixas.
O fiscal rebateu:
- O senhor sabe que nenhuma mercadoria pode sair da loja sem nota fiscal.
- Féris sabe. Mercadoria não vai sair sem nota fiscal. Féris não faz isto. Assim que no caminhão estiverem as seis caixas vendidas, Féris vai tirar nota fiscal. Só faltam duas.
- Negativo... a nota fiscal tem de ser feita antes de a mercadoria sair da loja.  Sinto muito mais vou ser obrigado a multá-lo.
Féris, aparentando desespero, implorou:
- Favor não fazer isto. Féris não quer encrenca com autoridade. Féris desfaz o negócio já. Féris prefere perder a venda.
Virando-se para o dono da caminhonete deu a ordem:
- O senhor desculpa Féris, mas negócio não pode mais ser feito.  O senhor escutou o que fiscal falou? Vai multar Féris.  Féris deveria ter tirado nota antes. Féris foi burro. Féris não quer ser multado. Féris não quer vender mais. Favor retirar minhas caixas de azeite da sua caminhonete. Volte com estas quatro caixas para o depósito. Coloca no fim da loja, por favor.  Féris não quer problemas com fiscal.
O fiscal, desconcertado, presenciou a devolução da mercadoria. Viu a caminhonete, de ré, sair vazia do beco e ouviu de Féris:
- O senhor desculpa. Féris agradece, aprendeu a lição. Não faz mais. O senhor aceita um agrado de Féris? Uma lata de azeite Galo?
O fiscal recusou e, com a certeza do dever cumprido, deu, também, por encerrado o dia.

CONSCIÊNCIA PESADA


                                        
Gerente de agência bancária no centro da cidade. Naquela sexta-feira, logo após o almoço, telefonema do irmão solteiro:
- E aí, mano... a que horas você sai? Estou com tudo organizado. São duas gatinhas sensacionais. Vai ser a maior programação da sua vida pós-casamento. Vai pirar. Vinte aninhos. Mansinhas. Depende só de você e do seu carro. Não dá para perder a parada.
Fabiano pensou na esposa e nos três meses de casamento. Praticamente em lua de mel. Desde que se casara não saíra mais com o irmão.  Ia dizer não, dar uma desculpa. O irmão, percebendo a vacilada, reforçou:
- Olha... uma é candidata a miss São Gonçalo. Você escolhe. Fico com a que sobrar.
Não. Naquela sexta não podia. Ficaria para outro dia.
- Mano, não dá para ser em outro dia. Já está tudo combinado. As meninas já devem estar se preparando. Você não pode deixar um furo desses.
-  Não posso prometer nada. Você liga daqui a uns dez minutos e lhe dou uma posição.
Telefonou para a esposa. Disse-lhe que estava com problemas na Agência, que não podia contar com o subgerente que estava adoentado. Achava que iria chegar muito tarde, mas não queria que ela ficasse sozinha. Pediu-lhe que telefonasse para a mãe. Que a chamasse para fazer-lhe companhia. Com a sogra lá, ficaria tranquilo.  
Enquanto aguardava retorno da esposa conversou com o guarda encarregado da vigilância durante a noite.
- Vou precisar de você. Vou sair com meu irmão esta noite. Um programa da pesada. Falei com minha esposa que estamos com problemas na agência.  Disse-lhe que não sabia a hora que sairia. Se ela telefonar, você vai dizer que dei uma saidinha para fazer lanche. Se tornar a telefonar, vai dizer que precisei ir à delegacia.
O telefone tocou.  Era a esposa para informar que a mãe já estava a caminho. Perguntou-lhe se deveria guardar a janta. Agradeceu. Faria um lanche na rua.
Dois minutos depois, novamente o telefone. Colocou as condições para o irmão:
-Não quero correr nenhum risco. Nem bar nem motel. Vamos ficar no estacionamento do banco. Isolamento e escuridão totais. O vigia está sabendo. Vai ser tranquilo.  Apanho vocês às 19h na Praça XV.
Já havia escurecido quando pegou o irmão e as moças. Em pouco mais de dez minutos estavam no estacionamento. Escolheu a loura, a que era candidata a miss e foi para o banco de trás. O irmão no banco da frente. Onze horas da noite deu a festa por encerrada. Quando chegou a casa, esposa e sogra dormiam. Foi direto para o banheiro. Precisava tirar o cheiro da miss. Enfiou a roupa usada no depósito de roupas sujas. De banho tomado foi para o quarto. Deitou-se sem fazer nenhum ruído. Dormiu rápido e profundamente.
Pela manhã, enquanto tomavam café, contou os problemas ocorridos na agência. Alguém telefonara informando que haviam colocado uma bomba na agência. Ligara para a Polícia Federal pedindo orientação. Foi a Praça XV apanhar os três agentes. Os homens sabem o que fazem. Deram uma geral, examinaram até os banheiros. Um deles era perito em bombas. Olharam tudo. Pouco depois das dez, concluíram que não havia nada, que provavelmente havia sido um trote.
A esposa e a sogra ouviram atentamente o relato. Vendo que havia sido convincente, que nada mais havia a temer, falou para a esposa:
- Querida, vamos levar sua mãe. Já a ocupamos em demasia.
 Fabiano, sozinho no banco da frente. Atrás, a mulher e a sogra conversavam animadamente. Ia com o rádio ligado, feliz da vida.  Na altura do Largo do Machado, observou, entre o seu banco e o do carona, um pé de sandália. Raciocinou rápido: só pode ser da mulher que ficou com o irmão. Empalideceu. Pelo retrovisor, observou a mulher e a sogra. Conversavam tranquilamente. Ainda não haviam percebido a presença delatora da sandália. Deus estava ajudando. Precisava livrar-se, com urgência, da incontestável prova do crime. Não sabia como. Qualquer movimento na tentativa de apanhar a sandália poderia ser fatal. Precisava resgatá-la na hora certa. Não podia haver falha. Dirigia e olhava pelo retrovisor aguardando, a qualquer momento, a pergunta fatal:
- De quem é esta sandália?
Dirigia e rezava. Pedia a Deus que o ajudasse mais uma vez. Nunca mais faria loucura semelhante se conseguisse se livrar daquela enrascada. O trânsito que corria tranquilo começou a engarrafar. A chance não custou para aparecer. Um acidente.  Fabiano alertou para o fato. Enquanto as duas olhavam, tentando descobrir o que ocorrera, Fabiano, rapidamente, pegou o pé da sandália. Disfarçadamente livrou-se dela jogando-a pela janela ao seu lado. As duas continuavam tentando entender o que motivara o acidente. Pouco depois, pelo retrovisor, certificou-se de que nada fora percebido. As mulheres já haviam esquecido o acidente e conversavam tranquilamente. Criou alma nova. Respirou fundo e fez um comentário bobo sobre o tempo. Voltou a prestar a atenção ao rádio. Em determinado momento, percebeu que estava assobiando. Chegaram. Fabiano, solícito, saiu e abriu a porta do carro para a sogra. Enquanto aguardava a saída da mãe, a esposa passou para o banco da frente. Acomodou-se e percebeu que a mãe estava com alguma dificuldade. Fabiano, na calçada, mantinha a porta aberta aguardando a saída da sogra. Estranhava a demora até que ouviu a pergunta da mulher :
- O que é que está acontecendo, mãe?
A sogra respondeu:
- Não estou conseguindo achar o outro pé da minha sandália.