- Homero... é o Nilo.
- Estou indo, respondeu.
Há três dias seu irmão sofrera acidente de carro. Estava de carona no carro de colega de repartição. Coisa de pouca gravidade. O dono do carro sofrera um corte na testa. Nilo, uma torção forte no pé direito. Coisa já esquecida. Colocou o paletó do pijama e foi abrir a porta.
Nilo estava apoiado em uma bengala. O pé direito enfaixado.
Sentaram-se na poltrona da sala.
- Homero, você me desculpe vir importuná-lo a esta hora, mas acabei de saber que o Paulo faleceu. Estou muito atordoado.
- Que Paulo?
- O meu colega, o da batida com o carro.
- Mas como, não foi apenas um corte na testa?
- Foi o que nos disseram. Até hoje, na saída do expediente, não havia nada. Trabalhamos normalmente. Achei que eu tinha levado a pior. Acabei de receber telefonema da esposa dele. Depois do jantar, começou a vomitar e a se queixar de dor de cabeça. A dor aumentou e resolveu procurar o hospital. Foi sozinho. A esposa achou que estava demorando muito. Pouco antes da meia-noite telefonou para o hospital que informou que ele havia falecido. Dona Dirce me ligou desesperada, sem saber o que fazer. É muito humilde, sem estudo. Está sozinha. Eles não têm filhos e acho que nenhum parente. Disse a ela que iria ajudar, iria ao hospital tomar providências. Não estou em condições de dirigir. A perna não permite. Vim pedir a sua ajuda.
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No caminho para o hospital, Nilo continuou falando. Paulo tinha 65 anos. A amizade já ia para quase 10 anos. Deram-se bem desde o dia em que Paulo chegou transferido de Niterói. Tornaram-se amigos. Por diversas vezes Nilo fora comer a feijoada que dona Dirce fazia. Sempre às quintas-feiras. Cozinhava bem. Pouco estudo, mas costureira de mão cheia. Fazia e vendia bichinhos de feltro. Coisa bem feita, bonita. Famosa em todo o bairro. Clientela numerosa. Não conhecia nenhum parente do casal. Paulo era de pouca fala. Do trabalho para casa. Muito reservado. Levou seis anos para me levar em sua casa. Na minha, nunca foi apesar dos inúmeros convites.
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Na secretaria do hospital, a esperança de um equívoco foi desfeita. O homem havia morrido mesmo. Os documentos estavam ali. Não havia nenhuma dúvida. A carteira de identidade era do Paulo. Chegou queixando-se de dor de cabeça, muitos vômitos. Fora atendido e medicado pelo plantonista. Ficou em observação. Aquietou-se. Parecia que estava dormindo. Quando foram falar com ele, viram que estava morto. Um senhor, que desde o início mostrava-se atento à conversa, apresentou-se e ofereceu os serviços de sua funerária. Informou que por três mil todas as providências seriam tomadas, entre elas: banho, preparação do morto, caixão, transporte para a residência ou para o cemitério, e uma coroa de flores . Nilo quis ver o corpo. O homem informou que aí era com o hospital, que seus serviços só se iniciariam com a documentação hospitalar dando a causa da morte e a autorização para a remoção do corpo. Nilo voltou a falar com a secretaria. Foram ver o corpo. O homem da funerária os acompanhou. Nilo após olhar constatou:
- Nenhuma dúvida. Infelizmente é o Paulo mesmo.
Voltou a falar com o homem da funerária. Disse-lhe que poderia tomar as providências que ele assumiria a responsabilidade financeira por tudo o que fosse necessário. Pagou com cheque e colocou no bolso o recibo. Perguntou na secretaria se tinham o endereço do falecido. A resposta foi que sim. Informaram, também, que aguardavam apenas o preenchimento das formalidades para liberar o corpo. Perguntaram se o Nilo já tinha funerária. Nilo falou:
- Este senhor é o responsável pela funerária contratada e está autorizado a tomar todas as providências necessárias. Assim que for possível, podem liberar o corpo.
O homem da funerária disse a Nilo que, se quisesse, poderia ir descansar. Não havia mais razão para ficar no hospital. Em uma hora o corpo estaria sendo entregue na residência.
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Homero, orientado por Nilo, chegou sem dificuldades à casa da viúva. Nilo considerou de fundamental importância a sua presença antes da chegada do corpo. Estacionaram o carro em frente a um pequeno prédio. Nilo subiu, com alguma dificuldade, os lances da escada mal iluminada. Em pequeno apartamento, de frente, no segundo andar, o velório estava todo organizado. Aguardava-se tão somente a chegada do falecido. A mesa da sala havia recebido toalha branca de linho. No teto, muitos bichinhos pendurados em exibição. O predomínio era de ursinhos. Em cada um, inscrição diferente. Cinco pessoas, todas mulheres, aguardavam. Dona Dirce afastara as cadeiras da mesa e as encostara na parede. O tempo foi passando e nada do corpo. Pouco depois das três, começaram as deserções. Às três e meia só dona Dirce, Nilo e Homero.O sono e o corpo que não chegava começaram a preocupar Homero.
- Nilo, me empresta o recibo da funerária. Vou procurar um orelhão e telefonar para saber o que está acontecendo. Está demorando muito.
O telefone tocou diversas vezes até que uma voz sonolenta atendeu. Homero identificou-se como responsável pelo falecido e questionou a demora da chegada do corpo. Da funerária pediram que aguardasse alguns minutos. Retornaram informando que devia estar havendo algum equívoco. Perguntou se estavam falando do velório encomendado pelo Sr. Nilo.
Homero confirmou e foi informado:
- O carro que foi levar o corpo já havia inclusive retornado.
Homero retrucou:
- Então, vocês entregaram o corpo em lugar errado.
- Negativo. Entregamos no endereço dos documentos do falecido. Quem recebeu foi o filho. Levou um baita susto. Não sabia da morte. O pai trabalhava aqui no Rio, mas morava em Niterói.
Homero achou tudo muito estranho, pediu o endereço onde o corpo fora entregue. Nilo não ia entender nada. O corpo foi entregue em Niterói e eles aguardando em Jacarepaguá. Além do endereço, deram-lhe o telefone.
Ligou. Atenderam de imediato. Era o filho do falecido. Homero identificou-se como um dos amigos. O filho confirmou a chegada do corpo e comunicou a saída do enterro para as 17 horas. Homero fez outros questionamentos que o deixaram convicto de que falavam do mesmo morto. Apresentou seus sentimentos, disse que compareceria ao velório e desligou.
Voltou para a casa de dona Dirce, sentou-se ao lado de Nilo e perguntou:
- Sabe o que é bigamia?
Nilo arregalou os olhos.
- Que pergunta, mais fora de hora, é essa?
Homero contou-lhe o ocorrido. Nilo ficou em silêncio por alguns minutos. As coisas se encaixavam. Paulo nunca fora as suas festas porque elas eram sempre aos domingos.
Sentou-se ao lado de dona Dirce que estava na cabeceira da mesa. Da melhor maneira possível, contou-lhe o ocorrido. Dirce, cabisbaixa, só ouvia. Até que Nilo, entendendo já ter contado tudo, disse:
- Então, não há motivo para continuarmos aqui, aguardando.
Dirce balançou a cabeça em concordância e, baixinho, como se falasse para ela mesma, sussurrou:
- Nunca ficou um único fim de semana. Dizia que ia visitar a mãe.
Aparentando tranquilidade, agradeceu a Nilo. Garantiu-lhe que estava tudo bem. Agradeceu a Homero. Tirou a toalha de linho da mesa. Arrumou as cadeiras. Falou que queria dormir.
Levou Nilo e Homero até a porta e fechou o apartamento.
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Quando entraram no carro, o dia já clareava. Quase todo o percurso em silêncio. De repente, Nilo começou a rir. Homero perguntou:- Rindo do quê?
- De tudo, dessa loucura toda.
Homero também sorriu.
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Neste momento, em sua casa, Dirce estava saindo do quarto com um cobertor enrolado em volta do pescoço. Foi para a cozinha. Ajoelhou-se em frente ao fogão. Abriu a porta do forno, girou o botão que abre o gás e, calmamente, introduziu a cabeça no forno o mais fundo que pode e bloqueou, os espaços laterais do forno, com o cobertor.
Núbia escreveu: "Que constrangimento, as pessoas sempre nos surpreendem, até na hora da passagem. Fico imaginando se fosse comigo...sinceramente amigo Orlando, não sei o que faria...nada trágico isso com certeza, mas acho que minha irmã daria uma surra no defunto, ela é bem mais passional do que eu. De novo me deixou de queixo caído! Muito bom!"
ResponderExcluirJoão Bosco Sene Alice escreveu: "Fui lendo a história bem lentamente, tentando adivinhar o final, não adivinhei. Final realmente surpreendente!"
ResponderExcluirEste conto tem um final surpreendente!
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